Os minerais que fazem um celular funcionar, um carro elétrico rodar e um míssil encontrar seu alvo dependem de um grupo de elementos chamados terras raras. E a disputa global por esses recursos está redefinindo alianças, rotas comerciais e o equilíbrio de poder entre as duas maiores economias do planeta.
A China controla cerca de 70% da mineração global de terras raras e aproximadamente 90% do refino. Isso significa que praticamente qualquer produto de alta tecnologia fabricado no mundo passa, em algum momento, por uma instalação chinesa.
E Pequim decidiu usar essa posição como instrumento de pressão geopolítica.
O que mudou nas últimas semanas?

Segundo Business Insider, enquanto a China reforçava controles de exportação sobre gálio, germânio e antimônio, os Estados Unidos adotaram uma estratégia diferente. Em vez de competir diretamente pelas minas, Washington passou a fortalecer sua presença militar e logística em dois dos gargalos marítimos mais importantes do planeta: o Estreito de Ormuz e o Estreito de Malaca.
-
Brasil tem 8,4 milhões de analfabetos e mais da metade vive no Nordeste, onde 10,6% das pessoas não conseguem ler nem escrever um bilhete simples, contra 2,3% no Sudeste, segundo a Pnad Contínua Educação 2025 do IBGE
-
Grande economista cravou que em 2030 trabalharíamos só 15 horas por semana, e a previsão de John Maynard Keynes está prestes a fracassar feio quase 100 anos depois
-
Empresa brasileira fecha escritório de surpresa, demite dezenas por videochamada e deixa funcionários inseguros; cortes podem ter atingido 30% da equipe enquanto fintech com 1,5 milhão de clientes ativos mantinha vagas abertas e mirava R$ 1 bilhão em margem
-
Maior investimento por habitante do Brasil: cidade recebe R$ 1 bilhão em saneamento, aplica 322% acima da média nacional e ganha nova ETA capaz de fornecer mais 1.270 litros de água por segundo.
A lógica é simples. Entre 45% e 50% do petróleo bruto importado pela China passa pelo Estreito de Ormuz. Outros 60% a 80% das importações de óleo chinesas atravessam o Estreito de Malaca. Se qualquer um desses corredores sofrer interrupção prolongada, a capacidade industrial da China seria diretamente afetada.
A mensagem dos Estados Unidos não é sutil: se a China controla os minerais, os americanos controlam o caminho por onde passa a energia que move as fábricas chinesas.
Por que a África virou o centro dessa disputa?

O continente africano se transformou no principal campo de batalha dessa corrida. A China investiu US$ 24,9 bilhões em projetos de mineração na África apenas no primeiro semestre de 2025, consolidando contratos de lítio que se estendem até 2032.
O caso mais emblemático aconteceu na Tanzânia. O projeto Ngualla, operado pela australiana Peak Rare Earths, é considerado um dos maiores depósitos de terras raras fora da China. A empresa chinesa Shenghe Resources, que já detinha 19,7% da Peak, lançou uma oferta de aproximadamente US$ 150 milhões para adquirir o controle total.
Uma gestora americana, a General Innovation Capital Partners, tentou barrar a operação com uma proposta superior, de cerca de US$ 160 milhões. Mesmo assim, a oferta americana foi rejeitada pelo conselho da Peak Rare Earths, que considerou a proposta da Shenghe mais estruturada e com maior probabilidade de conclusão.
O resultado é que a China agora controla um projeto capaz de produzir 37.200 toneladas de concentrado de terras raras por ano durante duas décadas. Esse volume alimenta cadeias de produção de ímãs permanentes e veículos elétricos, dois setores centrais na corrida tecnológica global.
E o Brasil com isso?
Esse ponto é o que torna a disputa entre China e Estados Unidos especialmente relevante para o leitor brasileiro. O Brasil possui a segunda ou terceira maior reserva de terras raras do mundo, dependendo da metodologia de estimativa utilizada. São aproximadamente 21 milhões de toneladas em óxidos de terras raras, o equivalente a cerca de 18% das reservas globais conhecidas.
Mas a produção brasileira é insignificante diante desse potencial. Enquanto a China extrai mais de 200 mil toneladas por ano e até os Estados Unidos produzem volumes relevantes a partir de suas operações na Califórnia, o Brasil aparece entre a nona e a décima posição no ranking global de produção, com cerca de 1.000 toneladas anuais.
A Serra Verde, em Goiás, é hoje a única operação comercial de terras raras em funcionamento no país. O depósito de argila iônica da Cabo Verde Mineração, no sul de Minas Gerais, possui reservas estimadas em mais de 500 milhões de toneladas, mas ainda está em fase de desenvolvimento.
Além das terras raras, o Brasil detém mais de 90% das reservas mundiais de nióbio. A CBMM, sediada em Araxá, Minas Gerais, é responsável por cerca de 80% da produção global desse metal, que é utilizado em ligas de aço de alta resistência para gasodutos, plataformas de petróleo e componentes aeroespaciais. Diferentemente das terras raras, o nióbio brasileiro já é processado e exportado como produto industrializado.
O contraste entre o nióbio e as terras raras revela um padrão que se repete na história econômica brasileira: o país detém recursos naturais de escala global, mas frequentemente não consegue transformá-los em capacidade industrial própria antes que outros ocupem esse espaço.
O que pode acontecer nos próximos meses?
Três movimentos merecem atenção. Primeiro, a visita do presidente Donald Trump a Pequim, prevista para meados de maio. A expectativa é de que os minerais críticos estejam no centro das negociações, especialmente após a China ter triplicado o número de restrições de exportação desde 2021.
Segundo, os Estados Unidos estão investindo diretamente em alternativas fora da China. Em 2025, Washington firmou acordos com Austrália, Arábia Saudita, Camboja, Malásia e Tailândia para desenvolver projetos de mineração e refino de minerais críticos. O Departamento de Defesa dos Estados Unidos estabeleceu um prazo até janeiro de 2027 para eliminar completamente componentes chineses de terras raras da cadeia de suprimentos militar.
Terceiro, a empresa americana MP Materials deve inaugurar uma unidade de separação de terras raras pesadas na Califórnia ainda em 2026. Se essa operação funcionar conforme o planejado, será o primeiro passo concreto para reduzir a dependência americana do refino chinês.
Nenhuma dessas medidas resolve o problema no curto prazo. A construção de cadeias alternativas de minerais críticos é um processo que leva anos, exige investimento bilionário e enfrenta barreiras técnicas consideráveis. A China levou décadas para construir a infraestrutura de processamento que domina o mercado atual, e replicar essa capacidade em outro lugar não acontece por decreto.
Enquanto Estados Unidos e China disputam minas na África e gargalos no oceano, o Brasil assiste de longe com a segunda maior reserva de terras raras do planeta enterrada no quintal. A janela de oportunidade existe, mas janelas não ficam abertas para sempre. O que você acha sobre isso?


-
1 pessoa reagiu a isso.