Ao recentrar o foco estratégico na região, o plano de segurança de Trump combina pressão sobre crime organizado e redes de imigração, veto tácito à expansão chinesa em infraestrutura e minerais estratégicos e oferta de alívio parcial em tarifas e sanções para quem aceitar alinhamento político e militar quase automático.
Desde dezembro de 2025, quando Washington divulgou sua nova Estratégia Nacional de Segurança e recolocou a América Latina no centro de suas prioridades, o plano de segurança de Trump passou a reorganizar a relação com o Brasil em torno de três eixos centrais: combate às facções, contenção da China e controle sobre minerais estratégicos.
Em 2 de dezembro, Luiz Inácio Lula da Silva telefonou para Trump, ofereceu cooperação contra organizações como PCC e CV e pediu ajuda para deter o empresário Ricardo Magro, enquanto, em novembro e em 12 de dezembro de 2025, buscava aliviar o tarifaço de 50% sobre exportações brasileiras e reverter sanções contra autoridades, num tabuleiro em que segurança, comércio e geopolítica passaram a caminhar juntos.
O que está em jogo com o plano de segurança de Trump

A nova Estratégia Nacional de Segurança é apresentada em Washington como uma releitura da Doutrina Monroe para o século 21.
-
Enquanto bancos veem risco de calote e dificuldade para recuperar motos financiadas, governo Lula estuda usar fundo garantidor para destravar crédito aos entregadores; medida pode alcançar até 1,2 milhão de trabalhadores vinculados a plataformas digitais
-
SpaceX define ação a US$ 135 e mira IPO histórico de US$ 75 bilhões para estrear na Nasdaq com valor de mercado trilionário
-
Enquanto o mundo corre para minerar o lítio do Congo e do Chile, o Brasil senta sobre uma das maiores reservas e mal começou a explorar
-
Herdeiro trabalhou aos treze anos em fábrica de sorvete sem revelar ser filho do dono; hoje, aos vinte e cinco, lidera a marca de sorvete para consumo doméstico mais vendida do Nordeste, fatura quase R$ 300 milhões, tem 145 lojas e enfrenta multinacionais com sabores regionais
Analistas a descrevem como um “Corolário Trump”, que explicita a visão de que todo o Hemisfério Ocidental integra a zona de segurança interna dos Estados Unidos.
Segundo o coronel da reserva e analista militar Paulo Roberto da Silva Gomes Filho, ao colocar a América Latina como foco principal do interesse estratégico norte americano, o documento sinaliza que o Brasil passa a ser considerado peça relevante da segurança doméstica dos EUA, e não apenas um parceiro regional.
Na formulação do plano, o alvo declarado deixa de ser o terrorismo clássico do pós 11 de Setembro e passa a incluir narcotráfico, redes de imigração ilegal e crime organizado transnacional.
A lógica é simples: qualquer ameaça percebida como risco à segurança dos Estados Unidos dentro da região pode justificar ação direta, inclusive com uso da força.
Nesse contexto, o plano de segurança de Trump funciona como guarda chuva político e jurídico para iniciativas que vão desde operações conjuntas de inteligência até pressões diplomáticas e econômicas mais agressivas sobre governos considerados ambíguos ou pouco cooperativos.
Pressão sobre PCC, CV e a hesitação brasileira
Um dos pontos sensíveis para Brasília é a cobrança americana para que o Brasil classifique o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho como organizações terroristas, algo que Argentina e Paraguai já fizeram após operações no Rio de Janeiro.
Até agora, o governo Lula resiste a essa designação. Integrantes do governo avaliam que rotular PCC e CV como grupos terroristas pode abrir espaço para que Washington invoque o plano de segurança de Trump como base para ações unilaterais em território brasileiro, com o argumento de combate ao narcotráfico e ao financiamento do crime organizado.
Gomes Filho ressalta que, ao explicitar o direito de intervir para neutralizar ameaças vindas da região, a nova doutrina cria margem para operações pontuais, sanções dirigidas e cooperação assimétrica em segurança, dependendo do grau de alinhamento político de cada governo latino americano.
Lula tenta calibrar essa equação. Ao ligar para Trump em 2 de dezembro, ofereceu colaboração e citou Ricardo Magro como exemplo de alvo prioritário, numa tentativa de mostrar disposição para cooperar sem entregar controle total sobre a agenda interna de segurança.
China, minerais estratégicos e a disputa por influência
O outro pilar central do plano de segurança de Trump é a contenção da China no Hemisfério Ocidental.
O documento rejeita a presença militar, a influência estratégica e o controle de infraestrutura crítica da região por potências extra hemisféricas, num recado direto a Pequim.
O alvo não é apenas diplomático.
A Casa Branca pretende monitorar e limitar a expansão chinesa em portos, redes de energia, tecnologia e projetos de infraestrutura, especialmente em países com grande peso em commodities e cadeias industriais sensíveis.
Nesse cenário, o Brasil aparece como ativo geopolítico de alto valor.
O país concentra cerca de 23% das reservas mundiais de terras raras e minerais estratégicos, insumos centrais para a transição energética, baterias, semicondutores e equipamentos militares.
Para a economista Adriana Melo, a nova versão da Doutrina Monroe introduzida por Trump transforma minerais, logística e tecnologia em instrumentos de controle político.
Segundo ela, “fechar a porta” para a China em setores críticos passa a ser pré requisito para acordos mais amplos com os Estados Unidos.
Melo destaca que o plano de segurança de Trump tende a incentivar contratos sem concorrência, os sole source contracts, com empresas americanas na área de portos, energia e dados.
Nessa visão, cooperação em segurança deixa de ser gesto diplomático e se converte em moeda de troca para excluir capitais chineses de infraestruturas consideradas sensíveis.
Tarifas, sanções e o uso da pressão econômica
A reconfiguração da segurança coincide com uma ofensiva econômica.
Em novembro, Trump retirou tarifas sobre vários produtos agrícolas brasileiros para combater a inflação de alimentos nos EUA, gesto que o Planalto apresentou como resultado direto da negociação política.
Mesmo assim, segundo o vice presidente Geraldo Alckmin, 22% das exportações brasileiras para os Estados Unidos seguem submetidas a sobretaxas, mantendo o tarifaço de 50% como ferramenta de pressão.
O recado implícito é que qualquer avanço depende de maior convergência com as prioridades do plano de segurança de Trump.
O uso de sanções individuais reforça essa estratégia. Na sexta feira 12 de dezembro, Washington retirou o ministro Alexandre de Moraes e sua esposa, Viviane Barci, da lista da Lei Magnitsky, alegando que a manutenção das sanções seria incompatível com os interesses de política externa dos EUA e elogiando o PL da dosimetria aprovado pela Câmara.
Um dia antes, o subsecretário de Estado Christopher Landau já havia sinalizado apoio à mudança legislativa que tende a reduzir a pena do ex presidente Jair Bolsonaro e de outros condenados pelos atos de 8 de janeiro.
Na prática, a Casa Branca usa tarifas e sanções como instrumentos calibrados de recompensa e punição, vinculando gestos econômicos à convergência jurídica e política de Brasília.
Alinhamentos, autocracias e o risco de perda de influência
Para o economista e doutor em relações internacionais Igor Lucena, o primeiro alvo do plano de segurança de Trump não deve ser o Brasil, mas regimes considerados não democráticos, como Venezuela, Nicarágua e Cuba.
Mesmo assim, a posição de Brasília é vista como frágil.
Lucena avalia que a Casa Branca tende a buscar proximidade com o Brasil para garantir acesso estável a minerais e cadeias produtivas estratégicas, mas será muito mais rígida com países que mantêm parcerias abertas com Rússia, Irã e outros rivais dos Estados Unidos.
Nesse quadro, a aproximação brasileira com governos não democráticos e com atores que se colocam em oposição direta a Washington pode reduzir a capacidade de liderança do Brasil na América Latina, num momento em que Estados Unidos já trataram Argentina e Paraguai como aliados preferenciais em segurança.
Ao mesmo tempo, a recusa do governo brasileiro em rotular PCC e CV como grupos terroristas preserva espaços de manobra interna, mas pode ser lida em Washington como ambiguidade inaceitável dentro do arcabouço do plano de segurança de Trump, abrindo margem para pressões adicionais em fóruns multilaterais, na cooperação policial e na agenda comercial.
Qual será o preço do reposicionamento brasileiro
Diante desse cenário, o Brasil se encontra entre três vetores de pressão simultâneos.
De um lado, o plano de segurança de Trump cria uma moldura de intervenção possível em nome do combate ao crime e à imigração irregular.
De outro, a contenção à China exige definir limites claros para investimentos em áreas críticas. Em paralelo, tarifas e sanções se tornam variável de ajuste da relação bilateral.
A resposta brasileira exigirá coordenação entre política externa, segurança pública, defesa e economia, já que qualquer escolha de alinhamento terá impacto direto sobre cadeias de exportação, fluxo de capitais, cooperação em inteligência e margem de manobra diplomática com vizinhos e potências extra regionais.
Na sua avaliação, o Brasil deve se aproximar do plano de segurança de Trump para garantir alívio em tarifas e investimentos ou preservar a atual autonomia, mesmo correndo o risco de novas pressões e retaliações americanas?


-
1 pessoa reagiu a isso.