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PIX do BRICS vira realidade: BRICS Pay avança para permitir pagamentos internacionais sem dólar; sistema inspirado no Pix e baseado em blockchain pode movimentar até 20% do comércio global até 2030, enquanto países do bloco já respondem por 40% da economia mundial.

Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 18/06/2026 às 19:06
Atualizado em 18/06/2026 às 19:12
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Sistema de pagamentos do BRICS ganha força em meio à busca por alternativas ao dólar, com inspiração no Pix brasileiro, uso de blockchain e promessa de reduzir custos em transações internacionais entre países do bloco, ainda sob desafios técnicos e políticos.

O BRICS Pay avança como uma das principais iniciativas do bloco para ampliar pagamentos internacionais em moedas locais, reduzir custos de transação e diminuir a dependência do dólar em operações comerciais entre seus integrantes.

Ainda em fase de testes, a plataforma usa tecnologia blockchain e busca conectar sistemas nacionais de pagamento, incluindo o Pix brasileiro, permitindo transações entre moedas dos países participantes sem necessidade de passar pelo dólar ou pelo SWIFT.

As informações foram discutidas nesta segunda-feira (15) no podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, e devem ganhar espaço na 18ª Cúpula do BRICS, prevista para setembro, em Nova Deli, na Índia, país que exerce a presidência rotativa do grupo neste ano.

BRICS Pay mira pagamentos em moedas locais

Na prática, o BRICS Pay pretende funcionar como uma infraestrutura de pagamentos internacionais mais direta, voltada a empresas, consumidores e instituições financeiras que realizam operações comerciais e financeiras dentro do bloco.

A proposta não elimina moedas nacionais nem cria, neste momento, uma moeda única, mas busca permitir liquidações mais rápidas, com menor exposição a custos cambiais e menos intermediações em transações entre países do BRICS.

Comparações com o Pix aparecem pela promessa de agilidade e integração digital, embora o sistema brasileiro opere em uma única jurisdição, sob regras do Banco Central, enquanto o BRICS Pay teria de conectar estruturas financeiras distintas.

Desdolarização ainda depende de confiança

Para Matheus Cecílio, doutor em economia política internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, o impacto inicial do projeto tende a ser mais operacional do que geopolítico, especialmente no curto prazo.

Na avaliação do especialista, a plataforma pode facilitar o comércio entre países do bloco, mas não deve ser tratada como substituta direta do dólar nas transações globais neste primeiro momento.

“Todos os países podem se unir. Isso pode reduzir os custos de transação, firmas e consumidores podem transacionar de maneira mais fácil, mas potencialmente muito mais rápida e sem se expor a custos cambiais”, afirmou Cecílio ao Mundioka.

O economista também citou estimativa do Conselho Empresarial do BRICS segundo a qual o sistema poderia responder por 15% a 20% do comércio internacional até 2030, caso seja estruturado e adotado em escala.

Peso econômico amplia relevância do projeto

Esse debate ocorre em um momento de ampliação do peso econômico do BRICS, que reúne países com participação crescente na economia global e interesse comum em reduzir dependências financeiras externas.

Segundo dados divulgados pela presidência brasileira do bloco com base no FMI, os países integrantes responderam por cerca de 40% da economia global em paridade de poder de compra em 2024, com projeção de 41% em 2025.

Esse peso ajuda a explicar o interesse em criar alternativas de pagamento menos dependentes de estruturas dominadas por moedas fortes, ainda que mudanças profundas no sistema financeiro internacional exijam confiança, liquidez e escala.

Na leitura de Cecílio, economias emergentes poderiam se beneficiar caso reduzissem a necessidade de manter grandes reservas internacionais em moeda forte, mas esse processo dependeria de uma arquitetura mais robusta que uma plataforma isolada.

Diferenças internas desafiam o avanço do sistema

O professor Luiz Antonio Joia, da FGV Ebape, também vê potencial na iniciativa, embora considere prematuro apresentá-la como uma ruptura da ordem financeira global ou como substituição rápida dos sistemas atuais.

Entre os principais obstáculos, ele destaca a diversidade tecnológica, regulatória, econômica e política dos países que integram o BRICS, além dos diferentes níveis de digitalização financeira e bancarização.

“Há diferentes infraestruturas tecnológicas, diferentes modelos regulatórios, diferentes contextos socioeconômicos, e isso tudo teria que ser interligado. É uma iniciativa interessante, mas tem muita, muita água para rolar ainda aí”, disse Joia.

A comparação com o Pix, segundo o professor, ajuda a explicar a ambição do projeto, mas também evidencia limites importantes, porque uma plataforma internacional exige coordenação entre governos, bancos centrais, instituições privadas e interesses estratégicos.

Pix inspira plataforma, mas não resolve impasses

O Pix é citado como inspiração por ter mostrado que pagamentos digitais instantâneos podem ganhar escala rapidamente quando há padronização técnica, adesão institucional e confiança dos usuários.

No caso do BRICS Pay, a dificuldade é maior, já que a plataforma teria de operar com diferentes moedas, regras de compliance, modelos de supervisão financeira e níveis de acesso da população a serviços digitais.

Cecílio lembrou que a China já conta com ambiente financeiro altamente digitalizado, enquanto outros países do bloco ainda convivem com maior desigualdade no acesso a pagamentos eletrônicos, o que pode retardar a adoção ampla.

Ainda assim, analistas avaliam que o sistema pode ganhar espaço em operações específicas, sobretudo em transações comerciais dentro do bloco e em pagamentos de menor complexidade.

BRICS Pay deve conviver com o SWIFT

No curto prazo, a tendência é que o BRICS Pay funcione como alternativa complementar, e não como substituto imediato do SWIFT, principal rede usada em transferências internacionais.

Para pequenas e médias empresas, a plataforma poderia reduzir custos, simplificar pagamentos e facilitar negócios em moedas locais, desde que haja adesão suficiente dos países e interoperabilidade segura entre os sistemas.

Também pesa no debate o fato de que sistemas de pagamento não são apenas ferramentas técnicas, pois infraestruturas financeiras podem se tornar instrumentos de influência econômica e alvo de pressão em disputas geopolíticas.

A expansão do BRICS ampliou o peso político do grupo, mas também tornou mais difícil a construção de consensos em projetos comuns, especialmente quando envolvem moeda, soberania financeira e regras de circulação de capitais.

Para Joia, a busca por uma ordem internacional mais multipolar tende a fortalecer iniciativas como o BRICS Pay, desde que o bloco consiga transformar a proposta em infraestrutura estável, segura e aceita pelos países participantes.

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Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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