Arrecadação recorde da taxa das blusinhas cresceu 25% em 2026 e colocou governo, Receita Federal, Fazenda, indústria, varejo e consumidores no centro de uma disputa sobre compras internacionais de baixo valor.
A taxa das blusinhas voltou ao centro do debate econômico no Brasil após a arrecadação federal bater recorde nos quatro primeiros meses de 2026. Segundo a Secretaria da Receita Federal, o governo arrecadou R$ 1,78 bilhão com imposto de importação sobre encomendas internacionais entre janeiro e abril.
O resultado representa alta de 25% em relação ao mesmo período de 2025, quando a arrecadação somou R$ 1,43 bilhão. Dessa forma, a cobrança aplicada sobre compras internacionais de até US$ 50 alcançou o maior valor já registrado para o intervalo.
Como a taxa das blusinhas virou cobrança bilionária
A cobrança começou oficialmente em agosto de 2024, após aprovação do Congresso Nacional e sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Naquele período, empresas cadastradas no programa Remessa Conforme perderam a isenção para encomendas de baixo valor.
-
Brasileiro entra no consórcio sonhando com a casa própria, mas pode passar anos pagando parcela e aluguel ao mesmo tempo; simulação mostra que custo chega a R$ 707 mil após uma década de espera e supera financiamento de R$ 704 mil
-
Land Rover encerra a produção em julho com 371 empregos em risco, enquanto a montadora chinesa avança nas negociações para transformar a fábrica em uma linha de 100 mil veículos por ano a partir de 2027
-
Praga que saiu do México avança nos EUA, ameaça rebanho no menor nível desde 1952 e pode abrir espaço para o Brasil vender mais carne bovina, enquanto o hambúrguer dispara e americanos buscam proteína no exterior
-
MP do Frete avança no Congresso com piso salarial de R$ 5 mil, pagamento antecipado de 70% e multas de até R$ 1 milhão, enquanto agro e indústria alertam para aumento dos custos e insegurança jurídica
Dez estados também elevaram o ICMS sobre essas compras para 20%, com validade a partir de abril de 2025. A medida surgiu após pressão da indústria, do comércio e do varejo nacional, que apontavam diferença tributária entre produtos brasileiros e importados vendidos em plataformas digitais.
Governo já discute o futuro da cobrança
O aumento da arrecadação não encerrou a controvérsia. Na última semana, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, confirmou que o possível fim da taxa das blusinhas está em discussão dentro do governo.
Durigan afirmou que alguns ministros defendem rever a cobrança. O ministro também destacou que o debate precisa ser racional e que o programa Remessa Conforme deve ser preservado pelos avanços já alcançados.
Consumidores, por sua vez, criticam o imposto porque ele encarece produtos populares comprados em plataformas internacionais. Críticos da medida também apontam uma diferença entre quem compra pela internet e turistas que trazem produtos do exterior.

Indústria e varejo defendem manutenção do imposto
O setor produtivo mantém posição favorável à cobrança. O vice-presidente Geraldo Alckmin, então ministro do Desenvolvimento, defendeu a taxa como forma de proteger a indústria nacional de produtos de baixo valor.
Representantes da indústria, do comércio e do varejo também divulgaram manifesto pela permanência da medida. Segundo o documento, a taxa reduziu a disparidade tributária entre plataformas internacionais de e-commerce e empresas brasileiras.
O manifesto ainda cita os segmentos de têxteis, vestuário e calçados. De acordo com os representantes do setor, esses itens registram a menor inflação dentro do IPCA desde julho de 1994, início do Plano Real.
Peso fiscal torna discussão ainda mais sensível
A taxa das blusinhas também ganhou importância para as contas públicas. Em 2025, a Receita Federal arrecadou R$ 5 bilhões com esse imposto, estabelecendo um recorde anual.
Nos quatro primeiros meses de 2026, a arrecadação avançou para R$ 1,78 bilhão. O valor ajuda a equipe econômica na tentativa de cumprir a meta fiscal do ano, que prevê superávit de 0,25% do Produto Interno Bruto, cerca de R$ 34,3 bilhões.
O arcabouço fiscal, aprovado em 2023, permite margem de tolerância de 0,25 ponto percentual em relação à meta central. Na prática, a meta será considerada cumprida com saldo zero ou superávit de até R$ 68,6 bilhões.
A legislação também autoriza retirar R$ 63,5 bilhões em despesas desse cálculo, inclusive gastos com precatórios. Mesmo com esses abatimentos, a previsão oficial aponta déficit próximo de R$ 60 bilhões em 2026.
Diante desse cenário, a discussão sobre o futuro da taxa das blusinhas deixou de ser apenas uma disputa sobre compras internacionais. O tema passou a envolver arrecadação, competitividade, indústria nacional, varejo e o bolso dos consumidores brasileiros.
Afinal, o governo conseguirá rever a taxa das blusinhas sem abrir mão de uma arrecadação bilionária e sem ampliar a pressão sobre o setor produtivo nacional?

Seja o primeiro a reagir!