Entre junho e setembro, pastores de ovelhas do Tirol do Sul conduzem cem animais por mais de 3.000 metros de altitude, cruzam rios turbulentos, uma geleira e a fronteira entre Itália e Áustria, enfrentando lobos, avalanches, pontes suspensas e risco real de morte para manter viva essa tradição milenar alpina.
Desde 25 de abril, quando as primeiras ovelhas sobem aos pastos altos do Tirol do Sul, até o início de junho, quando o rebanho enfim encara o glaciar na fronteira entre Itália e Áustria, pastores de ovelhas repetem ano após ano uma travessia tão bela quanto perigosa nos Alpes. O percurso passa por rios gelados, pedras soltas, neve fresca, gelo e uma ponte suspensa em altura vertiginosa.
Em uma rota que atinge cerca de 3.000 metros de altitude, qualquer escorregão pode custar uma vida. No fim da década de 1970, uma nevasca derrubou cerca de 70 ovelhas do penhasco, marcando para sempre a memória dos pastores. Mesmo assim, a transumância dos sul tiroleses segue firme e hoje é reconhecida como patrimônio mundial da UNESCO, símbolo de resistência em um mundo rural que se reinventa para sobreviver.
A única travessia de pastores de ovelhas que cruza glaciar e fronteira nacional

O que acontece todos os anos entre o Tirol do Sul, na Itália, e o vale austríaco de Eartstal não é apenas uma mudança de pasto. É a única transumância do mundo que atravessa um glaciar e uma fronteira nacional, ligando dois países por uma trilha de neve, gelo e rocha.
-
Uma gari que ganha R$ 2,1 mil por mês deixou o celular de lado por alguns minutos e voltou com um Pix de R$ 203 mil caído na conta por engano, um valor que, segundo ela mesma, nem trabalhando cem anos conseguiria juntar
-
R$ 5 mil espalhados pela rua, uma carteira perdida e uma decisão honesta: o caso em Goiás que emocionou até quem Só leu a história
-
Inconformado em ver gente dormindo na rua, um homem chamado Ryan Donais passou a construir pequenas casas móveis para que moradores em situação de rua escapem do frio, cada uma com cama, água corrente, eletricidade e aquecimento
-
ET no Paraná? Após vídeos intrigantes, sons misteriosos na mata e teorias que dominaram as redes sociais, FAB revela o que seus radares registraram e aumenta o mistério sobre suposto OVNI visto em Campo Largo
Os animais começam a jornada ainda no vale italiano, a cerca de 800 metros de altitude, reunidos por criadores como Thomas e seus colegas.
Em poucos dias, o rebanho precisa subir mais de 2.000 metros de desnível, vencendo encostas íngremes, trechos de neve profunda e trechos de trilha tão estreitos que uma distração pode significar queda fatal. Prados alpinos exuberantes esperam do outro lado, mas o caminho até lá é sempre uma aposta contra o clima e o terreno.
Geleira, rios turbulentos e uma ponte suspensa onde um erro não é permitido
A cada temporada, os pastores de ovelhas checam a rota com atenção quase obsessiva. Em anos como este, em que junho ainda começa com muita neve, a partida é adiada.
Lá no alto, o tempo muda três vezes por dia: vento forte, neve repentina, neblina e chuva gelada transformam a subida em um teste de nervos.
No caminho, há etapas críticas. Uma delas é o riacho de montanha que o rebanho precisa cruzar sem se espalhar.
Os pastores avançam à frente e atrás das ovelhas, gritando comandos, para garantir que nenhum animal pare, hesite ou entre em pânico no meio da correnteza.
Outra é a ponte suspensa estreita, já perto de Rofenarra. Ali, a ordem é clara: poucos animais por vez, sempre em movimento. Se uma ovelha cair na água, está perdida.
Ao final de horas de subida, o rebanho chega à cruz do cume em Tinurer, a 2.800 metros de altitude. Para eles, é “normal”. A pausa é curta.
A descida pelo gelo, muitas vezes, é ainda mais exaustiva do que a subida. Cada degrau de neve escondida, cada pedra solta, é uma lembrança de que a montanha “sempre cobra algo” e que nem todos chegam ao topo.
Marcos: 25 anos, 100 ovelhas, um cão e um verão inteiro sozinho a 2.400 metros
No centro dessa tradição está Marcos, um jovem de 25 anos do Tirol do Sul. Ele será o responsável por 100 ovelhas durante todo o verão, em uma cabana a 2.400 metros de altitude, acompanhado apenas de seu cão.
Como seu avô fazia, ele passa meses quase isolado, vigiando o rebanho, monitorando o clima e andando diariamente por áreas que somam cerca de 1.000 hectares.
A cabana oferece o mínimo: um fogão a gás, água corrente, cama extra para visitantes e eletricidade. Todas as manhãs, Marcos prepara o café, observa o vale lá embaixo e sai para a primeira ronda do dia.
Ele verifica se há animais doentes, se algum cordeiro ficou separado do rebanho e se os pontos de sal ainda estão cheios. No início da temporada, um helicóptero deixa cerca de 15 quilos de sal cozinha, que o pastor distribui em locais estratégicos.
Para Marcos, a recompensa não está no dinheiro, mas no que vê com os próprios olhos. Ele acompanha os cordeiros pequenos chegando na primavera e, no outono, enxerga animais mais fortes, pesados, com a lã crescida e bem alimentados. Ver esse ciclo se repetir é, para ele, o verdadeiro pagamento.
Trabalho de alto risco, pouco dinheiro e uma economia que não fecha
Ser pastor nos Alpes não é um emprego confortável. É um trabalho de alto risco, com ameaça de deslizamentos de pedras, quedas em encostas íngremes e raios. Marcos é pago por 40 criadores de ovelhas para cuidar dos animais no verão.
No inverno, precisa encontrar outro trabalho. O mesmo vale para Johan, seu irmão, que divide o ano entre a fazenda da família e um emprego na estação de esqui.
Os próprios pastores admitem: hoje, o pastoreio alpino é quase um “hobby que não dá lucro”. O preço da lã é tão baixo que mal compensa o esforço.
A carne rende um pouco mais, mas geralmente só cobre os custos com alimentação, transporte e cuidados com os animais. Para investir na fazenda, é preciso somar o salário de outros trabalhos e os poucos subsídios que recebem.
Mesmo assim, eles insistem. Sem as ovelhas, as encostas seriam rapidamente tomadas pela vegetação, o que altera o equilíbrio do ambiente alpino.
O rebanho ajuda a manter abertos os prados de altitude, reduz o risco de grandes incêndios e mantém viva uma paisagem que faz parte da identidade da região.
Famílias inteiras envolvidas, de crianças a veteranos de 72 anos
A travessia anual não é feita só por homens jovens de passo firme. Ela reúne crianças, veteranos e famílias inteiras.
Thomas, por exemplo, é encanador de profissão, mas cuida de ovelhas por tradição e uso próprio. Seu filho, Elias, de 12 anos, falta um dia de aula para ajudar na condução. Para o garoto, esse é “um dos melhores dias do ano”.
Do outro lado da escala etária, está Carlo, 72 anos, um dos mais velhos na equipe de condução. Ele sobe e desce as encostas íngremes com surpreendente leveza. A receita, segundo ele, é simples: viver de forma saudável e estar sempre ativo.
O tio de Marcos, Hans, completa o time dos veteranos. Há quase 60 anos, ele é o responsável por controlar a passagem na ponte suspensa, ponto em que basta um erro para perder um animal no rio.
Enquanto isso, a vida continua na fazenda. Cows de Johan permanecem no estábulo produzindo o máximo de leite possível antes de subir para o pasto.
As famílias alternam o relógio do campo com o da escola, do trabalho urbano e da temporada de esqui, mas, quando chega a época da transumância, todos voltam para o mesmo eixo: as ovelhas na trilha dos Alpes.
Lobos, ursos e compensações oficiais: nova ameaça aos pastores de ovelhas
Se a neve, as pedras e os abismos sempre fizeram parte da paisagem, os predadores estão ganhando protagonismo recente. Estimativas apontam que cerca de 80 lobos vivem hoje no Tirol do Sul, atacando rebanhos com frequência.
Só em 2023, o governo local pagou quase 100 mil euros em compensações pelos danos causados. E agora ursos também começam a aparecer na região.
Até aqui, Johan e seus colegas ainda não perderam nenhum animal para lobos, mas a preocupação é real. Pastores como Jan, que chega com seu rebanho de cabras para compartilhar a rota, reconhecem que a situação pode mudar.
Para ele, se os predadores aumentarem a ponto de fazer “o que quiserem” com os rebanhos, essa tradição milenar pode desaparecer.
É um dilema que coloca em jogo bem mais do que números. Por trás de cada ataque, há anos de trabalho, investimentos em genética, cuidado diário com os animais e o vínculo emocional de famílias inteiras com seus rebanhos.
Entre subsídios, cercas, cães de guarda e compensações oficiais, o grande desafio é encontrar um equilíbrio que permita que lobos sobrevivam sem que os pastores de ovelhas sejam empurrados para fora das montanhas.
O retorno ao vale, o alívio depois da tempestade e a promessa de voltar
Depois de um verão inteiro espalhadas pela montanha, em setembro as ovelhas precisam descer de volta ao vale no Tirol do Sul.
Nos últimos dias no alto, Marcos e seus ajudantes passam horas reunindo animais que se dispersaram por encostas diferentes. Os cordeiros menores, incapazes de enfrentar a trilha completa, são levados antes.
A jornada de retorno é tensa desde o início. A saída do cercado é feita em pequenos grupos, para evitar tumultos na ponte suspensa.
O tempo ameaça virar, o céu fecha com neblina, chuva e vento frio. Mesmo assim, as ovelhas avançam em ritmo surpreendente.
Em um trecho especialmente íngreme, qualquer queda pode ser fatal. Os pastores, encharcados e cansados, só pensam em chegar a um ponto seco, sabendo que ainda terão outro dia inteiro de marcha pela frente.
No vale, o cenário muda. No dia seguinte, o sol volta a brilhar e moradores se reúnem para receber o rebanho.
Depois de mais de oito horas atravessando as montanhas, pastores de ovelhas e animais finalmente chegam em casa sem fraturas ou ferimentos.
Na contagem final, apenas dois animais morreram em toda a temporada, um número considerado excelente para uma travessia tão arriscada.
Marcos respira aliviado ao ouvir o veredito do tesoureiro: “tudo correu bem”. E já se fala, quase naturalmente, em fazer tudo de novo no ano seguinte.
O futuro de uma tradição milenar pendurado em uma ponte estreita
Entre a cabana simples a 2.400 metros, o rebanho de 100 ovelhas, os 80 lobos que rondam a região e uma economia rural que mal se paga, o futuro dessa transumância alpina está longe de ser garantido. Ainda assim, os pastores repetem a mesma frase: “é assim que vivemos”.
Eles nasceram com os pés firmes na terra, apegados à fazenda, às encostas e aos animais. Carregam a ideia de que alguém precisa continuar, para que quem vier depois também tenha algo.
E você, encararia alguns meses isolado a 2.400 metros de altitude, com um cão, cem ovelhas, risco de avalanche, lobos à espreita e uma ponte suspensa entre você e o vale, só para manter viva uma tradição milenar?


20