As cavernas dos parques nacionais Phong Nha-Ke Bang e Hin Nam No integram uma paisagem cárstica excepcional, com dolinas profundas, cursos d’água subterrâneos gigantes e espécies raras e endêmicas.
As cavernas de um complexo transfronteiriço entre Vietnã e Laos guardam uma história geológica rara: as formações cársticas de calcário começaram a se desenvolver há cerca de 400 milhões de anos, no período Paleozoico, tornando a área um dos sistemas cársticos de grande escala mais antigos da Ásia. O resultado é uma paisagem com falésias dramáticas, dolinas profundas e uma rede subterrânea que impressiona pela escala.
Mais de 220 quilômetros de grutas e cursos de água subterrâneos já foram documentados, muitos com relevância global pela dimensão, beleza e valor científico. Além do espetáculo natural, as cavernas sustentam ecossistemas altamente especializados, com plantas e animais raros, ameaçados e endêmicos, reforçando o papel do parque nos esforços de conservação.
Onde ficam as cavernas e por que esse parque é considerado único

O conjunto reúne o Parque Nacional Phong Nha-Ke Bang e o Parque Nacional Hin Nam No, formando uma propriedade transfronteiriça ao longo da divisa entre Vietnã e a República Democrática Popular do Laos.
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A área combinada citada é de 217.447 hectares, posicionada na confluência da Cordilheira Anamita com o Cinturão Calcário da Indochina Central.
O destaque não é apenas a quantidade de cavernas, mas a integridade do terreno cárstico tropical úmido. É uma paisagem calcária entre as mais bem preservadas e impressionantes do mundo, com formações de superfície e estruturas subterrâneas que servem como “arquivo” de processos geológicos passados.
Como as cavernas se formaram ao longo de 400 milhões de anos
A formação cárstica evoluiu desde o Paleozoico, com a água dissolvendo o calcário ao longo de eras, abrindo passagens, rios subterrâneos e câmaras internas. A topografia se tornou ainda mais complexa pela intercalação de calcário cárstico com xistos, arenitos e granitos, o que ajuda a explicar a variedade de formas no relevo.
No subsolo, a diversidade de cavernas inclui sistemas secos, passagens em terraços, redes dendríticas e cavernas fluviais ativas. Essas estruturas registram mudanças antigas de cursos de rios, passagens abandonadas e depósitos de espeleotemas gigantes, evidências que dão valor científico ao conjunto.
220 km de cavernas e rios subterrâneos: o tamanho do labirinto escondido
O levantamento documentou mais de 220 km de cavernas e cursos subterrâneos. A descrição destaca que muitos desses trechos têm importância global pela dimensão e pela beleza, formando um “mosaico” de ambientes subterrâneos com rios, piscinas naturais e trechos de grande continuidade.
Entre os exemplos citados de relevância internacional estão as cavernas Son Doong e Xe Bang Fai. A Son Doong é apontada como a maior passagem de caverna documentada do mundo em termos de diâmetro e continuidade, enquanto a Xe Bang Fai é descrita como a maior passagem de caverna fluvial ativa e abriga a maior piscina natural de água formada por depósitos de calcita em caverna.
Biodiversidade rara: espécies que dependem das cavernas e do carste
A região sustenta ecossistemas que vão de florestas cársticas secas de altitude a densas florestas úmidas de terras baixas, além dos ambientes subterrâneos. Essa combinação cria múltiplos nichos ecológicos, favorecendo processos de especiação e o surgimento de espécies altamente especializadas.
Os números citados reforçam essa riqueza: no Parque Nacional Phong Nha-Ke Bang foram registradas mais de 2.700 espécies de plantas vasculares e 800 espécies de vertebrados, com 237 espécies globalmente ameaçadas no momento da inscrição e 400 espécies endêmicas da região central do Laos e ou do Vietnã.
Já no Parque Nacional Hin Nam No foram registradas mais de 1.500 espécies de plantas vasculares e 536 espécies de vertebrados, também com presença de espécies ameaçadas e endêmicas.
Um exemplo citado é a aranha-caçadora-gigante, descrita como a maior aranha em envergadura de pernas do mundo e endêmica da província de Khammouane, no Laos.
Além disso, a área abriga 10 a 11 espécies de primatas, com quatro endêmicas da Cordilheira Anamita, incluindo a maior população remanescente de gibão-de-faces-brancas-do-sul e o langur-preto.
Por que esse patrimônio exige regras rígidas de proteção e gestão

A propriedade segue os limites das áreas protegidas nacionais e adota zoneamento de gestão. Em Phong Nha-Ke Bang, há três zonas citadas: estritamente protegida, restauração ecológica e administrativa e de serviços. Em Hin Nam No, há duas: uso controlado e totalmente protegida.
Uma zona de amortecimento circunda toda a área, com 295.889 hectares, englobando as respectivas bacias hidrográficas do carste. Esse desenho é importante porque, em sistemas cársticos, o que acontece fora das entradas das cavernas pode afetar diretamente a água subterrânea e a estabilidade ecológica do conjunto.
Ameaças às cavernas: por que turismo e exploração precisam de limites
O estado de conservação varia dentro da propriedade, e o texto aponta riscos que podem comprometer a integridade a longo prazo.
Entre as ameaças citadas estão caça ilegal, exploração insustentável de recursos naturais e produtos florestais, espécies exóticas invasoras, desenvolvimento de infraestrutura, mudanças no uso da terra e pressão do turismo, especialmente na parte leste.
O ponto central é a capacidade de suporte ecológico. As cavernas e seus rios subterrâneos são ambientes sensíveis, e o crescimento de atividades sem controle pode afetar biodiversidade, água e o próprio valor científico da área.
Como funciona a cooperação entre Vietnã e Laos para proteger as cavernas
A gestão transfronteiriça é descrita como apoiada por memorandos de entendimento para atividades conjuntas, como operações de fiscalização e o desenvolvimento de um plano de ação integrado.
Cada parque também possui planos de gestão próprios, com estruturas de governança que envolvem diferentes níveis de governo e participação comunitária, especialmente em Hin Nam No.
A lógica é simples: um sistema de cavernas não “para” na linha do mapa, então a proteção precisa ser coordenada para manter o conjunto como um bloco de ecossistemas intactos ao longo da Cordilheira Anamita.
Se você visitasse essas cavernas, o que te chamaria mais atenção: a escala de 220 km de rios subterrâneos ou a chance de ver espécies raras que só existem nesse carste entre Vietnã e Laos?


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