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Países espalham milhões de toneladas de palhas de cana-de-açúcar no solo, reduzem a evaporação em até 40%, abaixam a temperatura em até 6 °C e cortam mais de 25% do uso de água na agricultura

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 06/01/2026 às 11:39
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Países espalham milhões de toneladas de resíduos da cana-de-açúcar no solo, reduzem a evaporação em até 40%, abaixam a temperatura em até 6 °C e cortam mais de 25% do uso de água na agricultura
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Resíduos da cana-de-açúcar estão sendo usados no Brasil, Índia e Tailândia para reduzir evaporação, economizar água e aumentar a eficiência agrícola sem irrigação extra.

Durante décadas, restos da colheita da cana-de-açúcar foram vistos apenas como subproduto agrícola ou até mesmo um problema operacional. Em muitas regiões produtoras, a prática comum era queimar a palhada para facilitar o corte manual e o manejo do solo. Esse cenário começou a mudar radicalmente nos últimos anos, quando países líderes na produção de cana passaram a transformar esses resíduos em uma das ferramentas mais eficazes da agricultura moderna para economizar água, estabilizar o solo e reduzir perdas produtivas em escala continental.

Hoje, Brasil, Índia e Tailândia lideram um movimento silencioso, porém altamente técnico, baseado no uso da palhada da cana-de-açúcar como cobertura morta do solo. Essa prática, sustentada por dados científicos robustos, tem mostrado reduções de evaporação que variam entre 20% e 40%, diminuição da temperatura do solo em até 6 °C e economia de água superior a 25% em sistemas irrigados e de sequeiro. Em um mundo pressionado por secas mais frequentes e custos crescentes de irrigação, esses números colocam a palhada da cana no centro da estratégia agrícola do século XXI.

O que é a palha da da cana-de-açúcar e por que ela se tornou estratégica

A palhada é composta por folhas secas, pontas e restos vegetais que permanecem no campo após a colheita mecanizada da cana-de-açúcar. Em lavouras modernas, esse volume pode ultrapassar 10 a 15 toneladas de matéria seca por hectare, formando uma camada espessa sobre o solo.

Ao contrário da queima, que elimina rapidamente esse material, a manutenção da palhada cria uma cobertura contínua que atua como uma barreira física contra a radiação solar direta e o vento.

Esse simples efeito mecânico é o ponto de partida para uma série de transformações físicas, químicas e biológicas no solo, com impactos diretos sobre a retenção de água e a produtividade agrícola.

Como a palha da cana reduz drasticamente a evaporação do solo

A evaporação ocorre quando a água presente nas camadas superficiais do solo é aquecida e transferida para a atmosfera. Em áreas tropicais e subtropicais, onde se concentram os canaviais, esse processo é extremamente intenso.

A palhada age como um escudo térmico, reduzindo a incidência direta do sol e mantendo a umidade por mais tempo no perfil superficial.

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https://www.youtube.com/watch?v=zm2jamRJJ9U

Estudos publicados em periódicos como Agricultural Water Management mostram que áreas cobertas com palhada de cana apresentam redução da evaporação entre 20% e 40%, dependendo da espessura da cobertura e das condições climáticas locais.

Em termos práticos, isso significa que a água da chuva ou da irrigação permanece disponível por mais dias, reduzindo a frequência de irrigação e o estresse hídrico das plantas.

Temperatura do solo mais baixa e raízes mais eficientes

Outro efeito crítico da cobertura com resíduos de cana é a regulação térmica do solo. Em solos descobertos, a temperatura pode ultrapassar facilmente os 45 °C em dias quentes, comprometendo a atividade microbiana e o crescimento radicular.

A palhada reduz esse pico térmico, com medições apontando quedas de até 6 °C na temperatura média do solo.

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Esse resfriamento relativo cria um ambiente mais estável para as raízes, favorecendo a absorção de água e nutrientes. Em regiões onde o calor excessivo limita o desenvolvimento radicular, essa diferença térmica pode ser decisiva para a manutenção da produtividade ao longo da safra.

Economia de água em escala agrícola e impacto direto nos custos

Quando se combinam menor evaporação e melhor retenção de umidade, o resultado é uma redução significativa da necessidade de irrigação. Ensaios de campo no Brasil, na Índia e na Tailândia indicam economias de água superiores a 25%, tanto em sistemas de irrigação por sulcos quanto em pivôs centrais e gotejamento.

Essa economia tem impacto direto nos custos operacionais, especialmente em regiões onde a energia elétrica para bombeamento é cara ou onde a disponibilidade hídrica é limitada. Em algumas áreas, produtores relatam a possibilidade de reduzir ciclos de irrigação sem perda de produtividade, algo impensável há poucas décadas.

Benefícios biológicos: microrganismos, matéria orgânica e estrutura do solo

Além dos efeitos físicos, a palhada atua como fonte gradual de matéria orgânica. À medida que se decompõe, alimenta microrganismos do solo, aumentando a atividade biológica e melhorando a estrutura física. Solos cobertos apresentam maior agregação, menor compactação e maior capacidade de infiltração de água.

Esses fatores reduzem a erosão, um problema crônico em áreas de cana-de-açúcar cultivadas em relevo ondulado. A palhada também contribui para a ciclagem de nutrientes, liberando gradualmente nitrogênio, potássio e outros elementos essenciais ao longo do ciclo da cultura.

Brasil: de vilã ambiental a referência técnica

No Brasil, a transição da queima para a colheita mecanizada sem fogo foi impulsionada por legislação ambiental e por avanços tecnológicos.

O país se tornou uma das maiores vitrines mundiais do uso da palhada em larga escala, com milhões de hectares adotando a cobertura permanente do solo.

Pesquisas conduzidas pela EMBRAPA demonstram ganhos consistentes em retenção de umidade, estabilidade produtiva e redução de custos ao longo de múltiplas safras. Em regiões sujeitas a veranicos, a presença da palhada tem sido determinante para evitar quedas abruptas de produtividade.

Índia e Tailândia: adaptação em cenários de escassez hídrica

Na Índia e na Tailândia, onde a cana é cultivada em áreas densamente povoadas e com forte pressão sobre os recursos hídricos, a palhada passou a ser vista como ferramenta estratégica de sobrevivência agrícola.

Programas de extensão rural incentivam produtores a manter os resíduos no campo, substituindo práticas antigas de remoção ou queima.

Nesses países, a economia de água superior a 25% ganha ainda mais relevância, pois reduz conflitos pelo uso da água entre agricultura, consumo humano e indústria. Em algumas regiões, a adoção da cobertura morta tornou-se política pública, integrada a programas de manejo sustentável.

Uma solução simples para um problema global

Em um contexto de mudanças climáticas, com aumento da frequência de secas e maior imprevisibilidade das chuvas, a palhada da cana-de-açúcar se consolida como uma solução de baixo custo, alta eficiência e impacto imediato. Não exige infraestrutura complexa, não depende de insumos importados e pode ser aplicada em milhões de hectares já cultivados.

O que antes era tratado como resíduo passou a ser um ativo estratégico. Ao reduzir evaporação, regular a temperatura do solo e economizar água em larga escala, a cobertura com resíduos de cana redefine o papel da agricultura tropical no enfrentamento da crise hídrica global.

A pergunta que começa a surgir não é mais se essa prática funciona, mas por que outras culturas e regiões ainda não adotaram em escala soluções tão simples e comprovadas.

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Lui
Lui
07/01/2026 18:00

Mas isso a Embrapa já recomenda a anos

Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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