Pesquisa longitudinal com adultos na Alemanha indica que bem-estar emocional não depende apenas de estar solteiro ou em uma relação. Dados analisados ao longo de 13 ondas mostram que vínculos de baixa ou média qualidade podem estar associados a menor satisfação com a vida.
Um estudo longitudinal com mais de 12 mil adultos na Alemanha indica que estar em um relacionamento amoroso não garante, por si só, mais felicidade ou bem-estar emocional, segundo pesquisa publicada em 2026 na revista científica Personality and Individual Differences.
A análise concluiu que a qualidade da relação teve peso relevante nos indicadores de bem-estar, acima do simples fato de a pessoa estar solteira, namorando, casada ou em outro tipo de vínculo afetivo.
A investigação foi conduzida por Menelaos Apostolou, da Universidade de Nicósia, e Elyakim Kislev, da Universidade Hebraica de Jerusalém, a partir de dados do estudo alemão Pairfam.
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Ao todo, os pesquisadores examinaram 13 ondas de acompanhamento, o que permitiu observar mudanças no estado civil, na satisfação com a vida e nas emoções relatadas pelos mesmos participantes ao longo dos anos.
Os resultados apontaram que relações ruins ou apenas medianas estiveram associadas a menor satisfação com a vida e menos emoções positivas do que a solteirice, conforme a classificação de qualidade do vínculo usada no levantamento.
Em outro recorte, participantes em relacionamentos avaliados como bons apresentaram indicadores mais favoráveis de bem-estar emocional quando comparados tanto aos solteiros quanto aos que estavam em relações de baixa ou média qualidade.
Qualidade do relacionamento pesa mais que o status civil
A pesquisa não confirma a ideia de que qualquer relacionamento seja necessariamente mais favorável ao bem-estar do que estar solteiro, porque os resultados variaram de acordo com a qualidade declarada da relação íntima.
Nos dados gerais, os participantes relataram maior bem-estar emocional em ondas nas quais estavam em um relacionamento, mas essa diferença mudou quando os autores separaram os vínculos por qualidade.
Quando a relação foi classificada como ruim ou moderada, a vantagem associada ao relacionamento desapareceu ou se inverteu, com índices inferiores aos observados em períodos de solteirice.
Esse resultado levou os pesquisadores a destacar que o estado civil, isoladamente, não explica a variação do bem-estar emocional com a mesma precisão da qualidade do vínculo afetivo.
Um ponto metodológico relevante é que a análise comparou mudanças vividas pelas mesmas pessoas ao longo do tempo, em vez de observar apenas diferenças entre grupos distintos em um único momento.
Com esse desenho, o estudo avaliou como o bem-estar variou quando alguém entrou em um relacionamento, saiu dele ou permaneceu em uma relação percebida como boa, moderada ou ruim.
Kislev afirmou, em comunicado sobre a pesquisa, que o acompanhamento por vários anos permitiu observar alterações na felicidade conforme o status afetivo dos participantes mudava.
Na leitura apresentada pelos autores, o dado central não é apenas estar acompanhado, mas em que condições esse vínculo se mantém e como ele se relaciona com a experiência emocional cotidiana.
Solteirice teve efeitos diferentes entre homens e mulheres
O levantamento também identificou diferenças entre homens e mulheres, embora os pesquisadores tenham indicado que nem todos os efeitos observados foram amplos dentro do conjunto de resultados.
Entre os homens, a solteirice foi associada a mais emoções negativas quando comparada à experiência relatada pelas mulheres solteiras, mas o estudo descreveu essa diferença como pequena.
Esse resultado não transforma a solteirice em uma experiência uniforme, porque o bem-estar emocional analisado pelos autores envolve dimensões diferentes, como emoções positivas, emoções negativas, solidão e satisfação com a vida.
A depender do contexto social, da rede de apoio e da trajetória pessoal, estar solteiro pode ser vivido de formas distintas, sem que os dados autorizem uma regra única para todos os participantes.
Ainda assim, a comparação feita pelos autores mostra que a condição de solteiro não teve sempre o pior resultado nos indicadores avaliados, especialmente quando confrontada com relações de baixa ou média qualidade.
A pesquisa apontou ainda que relacionamentos considerados ruins ou moderados podem reduzir a sensação de solidão em relação à solteirice, embora isso não tenha sido suficiente para elevar outros indicadores de bem-estar.
Esse ponto ajuda a separar duas dimensões avaliadas no estudo: uma relação pode diminuir solidão e, ao mesmo tempo, estar associada a menor satisfação com a vida e menos emoções positivas.
Relações boas concentraram melhores indicadores de bem-estar
O estudo não afirma que ficar solteiro seja sempre melhor, nem que relacionamentos sejam prejudiciais por definição, mas mostra uma diferença importante entre vínculo afetivo e qualidade desse vínculo.
De acordo com os resultados, relações boas estiveram associadas aos maiores níveis de bem-estar emocional, enquanto relações ruins ou medianas apareceram em posição inferior à solteirice em parte dos indicadores.
Na prática, os dados deslocam a análise do contraste simples entre solteiros e pessoas em relacionamento para a avaliação das condições em que esse relacionamento ocorre.
A resposta encontrada pelos pesquisadores indica que apoio, satisfação e estabilidade percebida dentro da relação são elementos relevantes para compreender a ligação entre vida afetiva e bem-estar.
Também por isso, a solteirice não aparece no estudo como uma solução universal, mas como uma condição que pode produzir resultados diferentes conforme as circunstâncias individuais e sociais.
O próprio levantamento trabalha com múltiplas dimensões de bem-estar emocional, o que limita leituras simplificadas sobre felicidade amorosa ou sobre a superioridade automática de um estado civil sobre outro.
Outro limite relevante é que o estudo não detalha todos os tipos de solteirice, como a situação de quem está solteiro por escolha, após uma separação recente ou por dificuldade de encontrar parceiros.
Sem essa separação, a análise permite comparar solteirice e relacionamentos de diferentes qualidades, mas não explica integralmente as razões pelas quais cada participante estava sem parceiro em determinada onda.
Mesmo com essa limitação, os dados relativizam a noção de que a vida a dois representa automaticamente melhora emocional, ao indicar que o vínculo afetivo precisa ter qualidade para se associar a mais bem-estar.


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