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Meio milhão de litros de água doce arrancados do mar por dia, 300 toneladas de ração e 84 ventiladores que renovam todo o ar a cada 60 segundos mantêm 16.000 animais vivos e até engordando dentro do Becrux rumo à Indonésia

Publicado em 09/06/2026 às 23:33
Atualizado em 09/06/2026 às 23:36
Assista o vídeoBecrux, hoje Ocean Drover, leva 16 mil animais da Austrália à Indonésia: veja a tecnologia que mantém o gado vivo e a polêmica da exportação viva.
Becrux, hoje Ocean Drover, leva 16 mil animais da Austrália à Indonésia: veja a tecnologia que mantém o gado vivo e a polêmica da exportação viva.
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Construído em 2002 na Croácia e rebatizado de Ocean Drover em 2009, o navio italiano virou símbolo da exportação de animais vivos, um comércio que rende bilhões à Austrália, mas que enfrenta forte oposição por causa do sofrimento dos animais e já tem data para acabar com as ovelhas.

Manter 16.000 animais vivos, e até mais gordos, no meio do oceano é o trabalho para o qual o navio Becrux foi desenhado. Construído em 2002 na Croácia para a empresa italiana Siba Ships, ele foi por anos o maior cargueiro de gado feito sob medida do mundo e ficou conhecido em um documentário de televisão de 2008, que acompanhou uma viagem de Darwin, na Austrália, até Jacarta, na Indonésia, com 16.000 cabeças de gado a bordo. O navio custou cerca de US$ 100 milhões, perto de R$ 540 milhões, e levava uma carga avaliada em US$ 12 milhões, algo como R$ 65 milhões.

Para cumprir a tarefa, o navio funciona como uma cidade flutuante voltada aos animais. São cerca de 300 toneladas de ração por dia, dessalinizadores capazes de tirar do mar mais de meio milhão de litros de água doce por dia e 84 ventiladores que, segundo os dados da operação, renovam todo o ar a cada 60 segundos. Rebatizado de Ocean Drover em 2009, quando foi comprado pela australiana Wellard, o navio segue em atividade, mas carrega também o peso de uma das atividades mais contestadas do agronegócio mundial, a exportação de animais vivos.

Um navio pensado para 16.000 animais

 Becrux foi o primeiro grande navio projetado do zero para transportar animais
Becrux foi o primeiro grande navio projetado do zero para transportar animais

O Becrux foi o primeiro grande navio projetado do zero para transportar animais, e não um cargueiro adaptado. Construído no estaleiro Uljanik, na Croácia, ele tem cerca de 177 metros de comprimento e capacidade para até 20.000 bois ou perto de 70.000 ovelhas, distribuídos em nove conveses. Na viagem retratada no documentário, eram 16.000 cabeças de gado seguindo de Darwin, no norte da Austrália, para Jacarta, em quatro dias de mar.

16.000 cabeças de gado a bordo
16.000 cabeças de gado a bordo

O que impressiona não é só o tamanho, mas o sistema que mantém os animais vivos longe da terra firme. A bordo, quatro dessalinizadores de osmose reversa podem produzir mais de 500 mil litros de água doce por dia, enquanto uma rede de silos, esteiras e canos distribui cerca de 300 toneladas de ração até os cochos de cada curral.

 Becrux foi o primeiro grande navio projetado do zero para transportar animais
Becrux foi o primeiro grande navio projetado do zero para transportar animais

O ar é o ponto mais sensível, e por isso 84 ventiladores trabalham para trocar todo o ar dos decks fechados a cada 60 segundos, segundo os dados da operação.

Como o gado é embarcado e cuidado no mar

16.000 cabeças de gado a bordo
16.000 cabeças de gado a bordo

Colocar 16.000 animais dentro do navio é uma maratona que pode durar mais de dois dias. Em Darwin, caminhões longos levam o gado dos currais até o cais, e a equipe trabalha em um ritmo de cerca de 500 animais por hora, sob calor e umidade intensos. Antes, cada lote passa por inspeção sanitária obrigatória, e qualquer suspeita de doença pode interromper o carregamento, porque um surto colocaria em risco um setor que movimenta bilhões.

16.000 cabeças de gado a bordo
16.000 cabeças de gado a bordo

No mar, o cuidado com os animais é tarefa de vaqueiros e veterinários embarcados. O gado mais jovem vai para os decks superiores, o mais velho fica nos intermediários, e há currais reservados como enfermaria para tratar animais doentes com antibióticos. O setor sustenta que as perdas são baixas, e o presidente da Siba Ships, Mauro Balzarini, afirma que os navios modernos transportam os animais “com segurança, com espaço, luz, comida, ar e água”. O peso é vigiado de perto, já que animal estressado come menos, perde peso e reduz o lucro da viagem.

Piratas, monções e o estreito Mar de Java

imagem ilustrativa/explicativa
imagem ilustrativa/explicativa

A rota até a Indonésia atravessa águas onde os riscos vão além do mau tempo. O Mar de Java e as proximidades do Estreito de Malaca registram casos de pirataria, e navios mercantes desarmados são alvos possíveis, o que leva as tripulações a treinar simulações de ataque. No documentário, a cena de tensão com piratas era justamente um exercício, e não uma abordagem real, ainda que a ameaça na região seja concreta.

A isso se somam a temporada de monções e canais de apenas 10 quilômetros de largura, com tráfego intenso de barcos de pesca. Qualquer falha mecânica em mar aberto, com milhares de animais a bordo, é um cenário temido pela tripulação, porque uma pane prolongada ameaça toda a operação. Por isso o navio navega a cerca de 33 quilômetros por hora, com vigilância constante no radar e na ponte de comando.

A controvérsia que o brilho da tecnologia esconde

Navio de exportação de animais vivos, o Queen Hind, naufragado e cercado pelos corpos flutuantes de ovelhas afogadas. Imagem: Animals International.
Navio de exportação de animais vivos, o Queen Hind, naufragado e cercado pelos corpos flutuantes de ovelhas afogadas. Imagem: Animals International.

Por trás da engenharia, a exportação de animais vivos é uma das práticas mais contestadas do agronegócio mundial. A própria viagem inaugural do Becrux, em 2002, terminou com a morte de cerca de 880 bois por exaustão térmica a caminho da Arábia Saudita, segundo registros do setor. Casos mais recentes reforçaram as críticas, como o naufrágio do Queen Hind, em 2019, que matou cerca de 14.000 ovelhas perto da Romênia, e o do Gulf Livestock 1, em 2020, que levou milhares de animais e dezenas de tripulantes ao fundo do mar perto do Japão.

Para entidades de defesa dos animais, navios assim são chamados de “navios da morte”. As críticas se concentram no estresse térmico, na superlotação, na duração das viagens e nas condições de abate no destino. O setor rebate afirmando que os navios modernos oferecem espaço, ventilação e água e que as taxas de sobrevivência são altas, o que mantém o debate em aberto entre quem vê um comércio essencial e quem enxerga um sofrimento evitável.

O fim anunciado da exportação de ovelhas pela Austrália

A pressão sobre o transporte de animais vivos já mudou a lei na Austrália, um dos maiores exportadores do mundo. Em 2024, o Parlamento australiano aprovou, por 33 votos a 30 no Senado, o projeto que encerra a exportação de ovelhas vivas por mar a partir de 1º de maio de 2028, com um pacote de transição de mais de 100 milhões de dólares australianos, cerca de R$ 380 milhões. O ministro da Agricultura, Murray Watt, disse que, a partir dessa data, as ovelhas deixarão de fazer viagens longas que as colocam “sob grande risco de sofrimento”.

A decisão, porém, não encerra todo o comércio de animais vivos. A proibição vale para ovelhas transportadas por mar, enquanto a exportação de gado bovino continua, inclusive a rota da Austrália para a Indonésia que tornou o Becrux famoso. O próprio comércio de bois com os indonésios já havia sido suspenso brevemente em 2011, após denúncias de maus tratos em abatedouros, o que mostra como o tema volta e meia retorna ao centro do debate.

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O Becrux, hoje Ocean Drover, segue cruzando oceanos com milhares de animais a bordo, da Austrália à Ásia e até da América do Sul à China. Ele é, ao mesmo tempo, uma façanha de engenharia naval e o símbolo de um comércio que o mundo discute cada vez mais, dividido entre a demanda por proteína, a renda de quem exporta e o tratamento dado aos animais. Mais do que admirar o tamanho do navio, vale acompanhar para onde caminha essa atividade.

E você, é a favor ou contra o transporte de animais vivos por longas distâncias no mar? Comente sua opinião, com respeito às diferentes visões sobre o tema.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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