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Mesmo depois de a China ultrapassar a Rússia em volume de fertilizantes vendidos ao Brasil em 2025, pela primeira vez na história, Rússia segue como parceira estratégica e fechou com Brasília um novo plano de cooperação no agronegócio com foco no insumo

Publicado em 09/06/2026 às 19:55
Atualizado em 09/06/2026 às 19:57
China superou a Rússia nas vendas de fertilizantes ao Brasil em 2025, mas Moscou fechou novo plano de agronegócio; entenda a importação e a disputa.
China superou a Rússia nas vendas de fertilizantes ao Brasil em 2025, mas Moscou fechou novo plano de agronegócio; entenda a importação e a disputa.
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O encontro entre a ministra russa Oksana Lut e autoridades brasileiras ocorreu em fevereiro de 2026, às vésperas da Comissão de Alto Nível em Brasília, e expôs um paradoxo, pois dados da CNA mostram a China na liderança das vendas de fertilizantes ao Brasil, país que importa cerca de 85% do que consome.

Mesmo perdendo a liderança no fornecimento de fertilizantes ao Brasil, a Rússia voltou à mesa de negociação como parceira estratégica do agronegócio brasileiro. Em 4 de fevereiro de 2026, em Brasília, a ministra da Agricultura da Rússia, Oksana Lut, se reuniu com o ministro brasileiro Carlos Fávaro e com o secretário de Comércio e Relações Internacionais, Luis Rua, para tratar de um novo plano de cooperação no setor. O encontro ocorreu um dia antes da 8ª Comissão de Alto Nível de Cooperação entre Brasil e Rússia, realizada no Palácio do Itamaraty.

O movimento diplomático chama atenção porque, em 2025, a China ultrapassou a Rússia pela primeira vez como maior fornecedora de fertilizantes ao Brasil. Segundo o Boletim de Insumos da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, a CNA, entre janeiro e outubro daquele ano os chineses embarcaram 9,76 milhões de toneladas, contra 9,72 milhões de toneladas da Rússia. O país importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome, o que torna cada fornecedor uma peça sensível na engrenagem do agronegócio.

O que Brasil e Rússia acertaram na mesa

imagem ilustrativa/explicativa
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Na reunião, o ministro Carlos Fávaro classificou a Rússia como parceiro estratégico, em especial no fornecimento de fertilizantes. De acordo com o Ministério da Agricultura e Pecuária, o secretário Luis Rua afirmou que o Brasil exporta carnes, café e amendoim ao mercado russo e importa fertilizantes e trigo, e que há espaço para ampliar investimentos em logística portuária e ferroviária, armazenagem e distribuição do insumo. O comércio bilateral somou cerca de US$ 11 bilhões em 2025, número citado por Geraldo Alckmin na abertura da comissão.

Pelo lado russo, o Ministério da Agricultura da Rússia, em texto reproduzido pela rede TV BRICS, destacou avanços nas remessas de pescado e glúten de trigo e potencial para laticínios e carnes. A ministra Oksana Lut afirmou que a cooperação reforça a segurança alimentar e os vínculos científicos entre os países, e o órgão russo apresentou a Rússia como principal fornecedora de fertilizantes no ano anterior, com alta de 11% nas exportações. As duas nações citaram ainda interesse em seleção genética, produção de sementes e troca de experiências em pecuária e avicultura.

A virada de 2025, quando a China assumiu a ponta

fertilizantes
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Os dados brasileiros, no entanto, mostram um cenário diferente do quadro apresentado por Moscou. Pela primeira vez na história, a China superou a Rússia e se tornou a maior fornecedora de fertilizantes ao Brasil, segundo o Boletim de Insumos da CNA de novembro de 2025 e dados da Secretaria de Comércio Exterior, a Secex. Entre janeiro e outubro, as exportações chinesas ao Brasil cresceram cerca de 51%, enquanto as russas avançaram 5,6%.

A participação da China nas importações brasileiras de fertilizantes saltou de 5% em 2016 para 23% em 2025, segundo relatório do Itaú BBA. O avanço acelerado, concentrado em sulfato de amônio e em formulações de nitrogênio e fósforo, gerou gargalos logísticos, com filas de navios e espera média de até 60 dias no Porto de Paranaguá. Ainda assim, a própria CNA classifica a Rússia como fornecedora estratégica, o que ajuda a explicar por que Moscou pressiona para não perder espaço no mercado brasileiro de fertilizantes.

Por que o Brasil depende tanto de fertilizantes importados

A dependência externa é o pano de fundo de toda a negociação, já que o Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que utiliza, segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos, a ANDA. No caso do potássio, insumo essencial para soja, milho e café, mais de 90% vem de fora. Essa fragilidade expõe o agronegócio a oscilações de preço e a decisões geopolíticas tomadas longe das lavouras.

As razões são estruturais e antigas, e passam pela saída de grandes empresas do setor e pelo custo elevado da produção local. A Vale vendeu suas operações de fosfato à Mosaic, dos Estados Unidos, em 2018, e a Petrobras se desfez de fábricas de nitrogenados, enquanto o alto preço do gás natural encarece a produção nacional, que chega a custar até US$ 14 por milhão de BTUs contra US$ 2 a US$ 4 nos Estados Unidos e na Rússia, conforme a Gazeta do Povo. O Plano Nacional de Fertilizantes, lançado em 2022, prevê reduzir a dependência dos atuais 85% para a faixa de 45% a 50% até 2050, meta que especialistas avaliam estar distante de se concretizar.

Guerra, sanções e a pressão dos Estados Unidos

Segundo o Tv Brics, A retomada do diálogo entre Brasil e Rússia carrega o peso da geopolítica recente. A comissão bilateral havia sido suspensa em 2015 e seria retomada em 2022, mas o passo foi adiado pelo governo de Jair Bolsonaro diante da invasão da Ucrânia pela Rússia. Desde então, sanções ocidentais a Belarus praticamente interromperam as compras brasileiras de fertilizantes daquele país, enquanto as importações vindas da Rússia seguiram, ainda que com entregas mais lentas.

Mais recentemente, entrou na conta a ameaça de tarifas e de sanções secundárias dos Estados Unidos sobre quem negocia com Moscou. Analistas ouvidos pela imprensa alertam que esse risco pode afetar tanto o agronegócio quanto outros setores brasileiros, e reforça o debate sobre soberania e segurança alimentar. O tema é sensível e comporta leituras opostas, que vão da defesa da diversificação de parceiros à crítica à dependência de países sob tensão geopolítica.

O que esse xadrez muda para o agro brasileiro

Na prática, a diversificação de fornecedores aumenta a resiliência do abastecimento, mas não elimina a vulnerabilidade do Brasil. Trocar parte da dependência russa por insumos chineses reduz a concentração em uma única origem, ao mesmo tempo em que cria novos riscos ligados a câmbio, logística e às próprias tensões comerciais com a China. Para o produtor, o que pesa no fim é o preço posto na fazenda e a garantia de entrega na janela de plantio.

O novo plano de cooperação com a Rússia é, sobretudo, um movimento comercial e diplomático, e não uma solução para o gargalo estrutural. Enquanto a produção nacional de fertilizantes não avança, o Brasil seguirá dependente de poucos fornecedores e exposto ao tabuleiro internacional. A disputa entre Rússia e China pelo mercado brasileiro tende a continuar, com o agronegócio nacional no centro do jogo.

O reencontro entre Brasília e Moscou mostra que a Rússia continua relevante para o agronegócio brasileiro, mesmo sem o posto de maior fornecedora de fertilizantes. A China assumiu a liderança em 2025, mas a dependência de 85% de insumos importados mantém o Brasil atrelado às decisões de potências distantes. Sem avanço na produção interna, a segurança do abastecimento seguirá sendo uma vulnerabilidade do país.

E você, o Brasil deveria priorizar a produção nacional de fertilizantes ou ampliar acordos com Rússia e China para garantir o abastecimento? Comente sua opinião, com respeito às diferentes visões sobre o tema.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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