Um projeto escolar desenvolvido no norte da China levou uma solução simples de irrigação a uma feira internacional, em meio ao desafio de manter mudas vivas em áreas secas e degradadas.
O estudante chinês Jia Mingxuan, de 14 anos, desenvolveu um dispositivo automático para auxiliar a irrigação de mudas em áreas áridas da Mongólia Interior, no norte da China.
A estrutura usa tubos de aço enterrados para condensar a umidade do ar e conduzir gotas de água ao entorno das raízes.
O projeto recebeu medalha de ouro no grupo juvenil da 77ª iENA, feira internacional de ideias, invenções e novos produtos realizada em Nuremberg, na Alemanha, entre 1º e 3 de novembro de 2025.
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A invenção foi apresentada como um sistema de irrigação voltado a árvores jovens em regiões secas.
De acordo com a agência estatal chinesa Xinhua, Jia construiu o protótipo com tubos de aço comprados em uma loja de ferragens e garrafas plásticas recicladas.
A proposta não usa bombas hidráulicas tradicionais nem depende de ligação elétrica para operar o processo de condensação.
Segundo dados divulgados pela Federação Internacional das Associações de Inventores, a edição de 2025 da iENA reuniu mais de 540 invenções apresentadas por 274 expositores de 21 países e regiões.
O evento ocorreu no Hall C3 do Centro de Exposições de Nuremberg e incluiu projetos de diferentes áreas, como engenharia, saúde, meio ambiente e tecnologia aplicada.
Como surgiu o sistema de irrigação subterrânea
Jia vive em Chifeng, na Região Autônoma da Mongólia Interior, uma área sujeita a seca, ventos e processos de degradação do solo.
O condado de Aohan, associado ao desenvolvimento do projeto, é descrito pela imprensa chinesa como uma região de clima árido e semiárido, com precipitação média anual de cerca de 380 milímetros.
A ideia surgiu em março de 2025, depois de uma tarefa escolar que pedia aos alunos a criação de temas de invenção.
Conforme relato publicado pela Xinhua, o adolescente relacionou uma aula de física às gotículas formadas pelo vapor na cozinha de casa.
A partir dessa observação, passou a desenhar uma estrutura capaz de captar vapor d’água do ar e direcioná-lo ao solo.
O problema escolhido por Jia estava ligado à sobrevivência de mudas em áreas com pouca disponibilidade hídrica.
Em regiões secas, árvores recém-plantadas podem morrer antes que as raízes se desenvolvam o suficiente para resistir a períodos de estiagem.
A rega manual, por sua vez, tende a exigir deslocamento, mão de obra e acesso regular a fontes de água, condições que nem sempre existem em terrenos afastados.
Tubos de aço usam diferença de temperatura no solo
O funcionamento do sistema se baseia na condensação.
Um tubo de aço é enterrado no solo, com uma estrutura superior projetada para conduzir o ar para dentro do equipamento.
Quando o vapor entra em contato com a parte subterrânea mais fria, a diferença de temperatura favorece a formação de gotas.
Depois de condensada, a água escorre pelo interior do tubo e chega ao entorno das raízes.
Com isso, a umidade é entregue abaixo da superfície, onde fica menos exposta à evaporação imediata.
A estrutura foi pensada para reduzir a dependência de irrigação convencional em pontos onde o transporte de água representa uma limitação prática.
O jornal chinês Science and Technology Daily informou que o dispositivo aproveita a variação térmica observada em Chifeng no verão, com média aproximada de 27°C durante o dia e 14°C à noite.
Esse contraste ajuda a explicar a escolha por tubos ocos enterrados verticalmente, já que a diferença entre superfície e subsolo é parte central do processo físico usado no protótipo.
Viagens de 30 km marcaram os testes do protótipo
O desenvolvimento exigiu sucessivas tentativas.
Segundo a Xinhua, Jia estudava em regime de internato e precisava se deslocar cerca de 30 km até a casa da família para acompanhar os testes.
Em algumas ocasiões, acordava às 4h para desenterrar parte da montagem, verificar medições de umidade e retornar para as aulas.
As primeiras versões não tiveram o resultado esperado.
Reportagem da Xinhua em chinês informou que o protótipo inicial não coletou água, e outras tentativas também falharam.
Depois de ajustes para ampliar a diferença térmica dentro do tubo, o estudante observou acúmulo de cerca de um centímetro de água no fundo do dispositivo durante um fim de semana de testes.
A família participou da construção e da verificação do equipamento.
Ainda segundo a reportagem, o avô contribuiu com sugestões, o pai ajudou em cortes, furos, transporte e escavações, e a mãe registrou etapas em vídeo.
A informação indica que o projeto foi desenvolvido em ambiente escolar e familiar, antes de chegar à feira internacional.
Medalha de ouro na iENA ampliou a visibilidade
A medalha foi recebida no início de novembro de 2025.
O jornal chinês Chutian Metropolis Daily informou que o prêmio foi entregue na tarde de 3 de novembro, no horário local da Alemanha.
A Xinhua publicou, depois, uma imagem de Jia exibindo a medalha em Nuremberg no dia 4 de novembro.
Na cobertura da agência chinesa, o projeto aparece ao lado de outras invenções juvenis de maior complexidade tecnológica, como robôs cirúrgicos e interfaces cérebro-computador.
O reconhecimento concedido ao dispositivo de irrigação foi atribuído à aplicação de princípios básicos de física em um problema ambiental concreto.
A iENA é apresentada por entidades ligadas ao evento como uma feira internacional voltada à exposição de invenções, protótipos e soluções técnicas.
Na edição de 2025, os projetos inscritos vieram de diferentes países e áreas do conhecimento, o que contextualiza o alcance da premiação obtida pelo estudante chinês.
Desertificação aumenta relevância de tecnologias de irrigação
A invenção ganhou repercussão por estar ligada a um desafio ambiental documentado por organismos internacionais.
A Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação afirma que até 40% das terras do planeta estão degradadas, com efeitos sobre populações, ecossistemas e atividades econômicas.
No caso de Aohan, a restauração ambiental tem relação com projetos de reflorestamento e controle de areia no norte da China.
A região aparece associada ao Programa Florestal dos Três Nortes, uma frente chinesa de plantio e proteção contra a desertificação.
Segundo a Xinhua, a cobertura florestal local chegou a cerca de 40,6%, com aproximadamente 373 mil hectares, após décadas de ações nessa área.
Mesmo com esses programas, mudas recém-plantadas continuam vulneráveis à falta de água, conforme relatam as fontes chinesas consultadas.
O dispositivo de Jia busca atuar nessa etapa inicial, oferecendo umidade no período de enraizamento.
A aplicação prática, no entanto, ainda depende de testes mais amplos e validação técnica fora do contexto do protótipo escolar.
