Uma obra de grande porte deve remodelar áreas emblemáticas do centro de São Paulo, incluindo o Viaduto do Chá e a Praça do Patriarca, com mudanças estruturais, estéticas e patrimoniais previstas para os próximos meses.
Uma intervenção estimada em R$ 70 milhões deve alterar de forma significativa o Viaduto do Chá, a Praça do Patriarca e o entorno do Theatro Municipal nos próximos anos.
A gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) pretende lançar ainda neste ano o edital de licitação das obras, que terão prazo previsto de 18 meses após a contratação da empresa vencedora e já acumulam críticas, sobretudo em relação às mudanças na marquise projetada pelo arquiteto Paulo Mendes da Rocha na praça.
Reformas no Viaduto do Chá e área do Theatro Municipal
O projeto faz parte de um pacote de intervenções no centro histórico de São Paulo e engloba o Viaduto do Chá, a Praça Ramos de Azevedo, a Praça do Patriarca, a Galeria Prestes Maia e áreas próximas ao Theatro Municipal e ao Shopping Light.
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O valor originalmente estimado em R$ 58 milhões foi reajustado para R$ 70 milhões após novos levantamentos técnicos e detalhamento do escopo da obra.
À frente da proposta, o secretário municipal de Infraestrutura Urbana e Obras, Marcos Monteiro, afirma que o ponto de partida foram os problemas identificados na estrutura do viaduto.
Segundo ele, uma inspeção apontou principalmente infiltrações que, se não forem corrigidas, podem comprometer a durabilidade da construção ao longo do tempo.

A requalificação do piso, da drenagem e das áreas de circulação de pedestres integra o mesmo pacote.
Histórico e estrutura do Viaduto do Chá
O Viaduto do Chá, primeira estrutura do tipo na capital, inaugurada em 1892, foi concebido para ligar o então centro histórico à região que se expandia em direção ao oeste.
A primeira versão, metálica, idealizada pelo francês Jules Martin, chegou a cobrar pedágio, o que rendeu o apelido de “Viaduto dos Três Vinténs”.
A travessia só se tornou gratuita em 1897.
A configuração atual, em concreto e com estética art déco, é de 1939 e leva a assinatura do arquiteto Elisiário Bahiana.
Hoje, quase um século depois da reconstrução, o viaduto apresenta infiltrações e necessidade de manutenção mais profunda.
A prefeitura pretende substituir o tradicional calçamento em pedra portuguesa das calçadas da estrutura por piso de granito nas cores vermelho e cinza.
A justificativa técnica é reduzir o peso sobre o viaduto e facilitar a conservação, já que o assentamento de pedras portuguesas exige mão de obra especializada, considerada escassa pelo município.
A intervenção também busca conter as infiltrações que afetam a Galeria Prestes Maia, passagem subterrânea que conecta a Praça do Patriarca ao Vale do Anhangabaú e tem saída sob o viaduto.
A concessionária responsável pela galeria, que também administra o Vale, vinha relatando problemas recorrentes de água no espaço.
Novo ponto de ônibus, bondinho turístico e mudança das bancas

Além da troca de piso, o projeto prevê um ponto de ônibus sobre o Viaduto do Chá e a instalação de um bondinho desativado em frente ao Shopping Light.
O veículo antigo será adaptado para funcionar como ponto de informações turísticas, em área próxima a onde hoje existe uma banca de jornal.
Para atender à circulação de veículos por aplicativo e outros serviços, será criado um recuo na entrada do Shopping Light, destinado ao embarque e desembarque de passageiros.
De acordo com a prefeitura, a solução atende a um pedido do próprio centro comercial.
As bancas de jornal instaladas ao lado do shopping e em frente ao Theatro Municipal serão remanejadas para a rua localizada na parte de trás do teatro.
Uma base da Guarda Civil Metropolitana deve ocupar o espaço hoje usado por uma das bancas.
Jornaleiros criticaram a mudança, alegando possível perda de visibilidade e de movimento.
Na mesma região, o piso da Praça Ramos de Azevedo também será substituído como parte do pacote de obras.
Praça do Patriarca e disputa em torno da marquise histórica

Na outra extremidade do viaduto, a Praça do Patriarca será alvo de uma série de intervenções.
O local abriga a Igreja Santo Antônio, um dos templos mais antigos da cidade e tombado como patrimônio histórico.
O projeto prevê a reforma do piso, com preservação dos desenhos dos mosaicos atuais tanto na área central quanto junto às fachadas.
O ponto mais sensível do debate está sob a marquise projetada por Paulo Mendes da Rocha, implantada durante obras de reurbanização no início dos anos 2000.
Desde sua instalação, a cobertura metálica divide opiniões.
Críticos afirmam que ela reduz a visão do chamado “centro novo”, enquanto defensores a consideram integrada à paisagem urbana.
Em declarações anteriores, o prefeito Ricardo Nunes mencionou a hipótese de transferir a marquise para outro local.
A família do arquiteto se posicionou contra.
Filho de Paulo Mendes e também arquiteto, Pedro Mendes da Rocha defendeu a permanência da estrutura e rejeitou mudanças que descaracterizem o projeto original.
Fechamento da Galeria Prestes Maia em debate
A entrada superior da Galeria Prestes Maia, localizada sob a marquise na Praça do Patriarca, é outro ponto em discussão.
A proposta inicial previa um envidraçamento no entorno do acesso.
Família e especialistas criticaram a interferência visual.
O Condephaat analisou o projeto e rejeitou o fechamento em vidro.
O órgão sugeriu um fechamento horizontal retrátil no gradil existente, considerado menos invasivo.
Pedro Mendes da Rocha avalia que essa é a solução que menos interfere na obra do pai, embora exija detalhamento técnico cuidadoso.

A prefeitura afirma que analisa a recomendação e deve apresentar uma versão ajustada do projeto antes da licitação.
Função urbana da Galeria Prestes Maia
A Galeria Prestes Maia, hoje usada principalmente como passagem de pedestres, já teve outras funções.
Em períodos anteriores, abrigou atividades culturais e chegou a receber uma filial do Masp.
Atualmente, não possui programação permanente e enfrenta problemas de infiltração, insegurança e baixa ocupação.
A gestão municipal espera que a correção dos problemas estruturais contribua futuramente para usos culturais ou comerciais, embora não exista plano detalhado nesse sentido.
Licitação, prazos e efeitos no cotidiano do centro
O cronograma da Prefeitura de São Paulo prevê publicar o edital de licitação ainda neste ano e divulgar as empresas vencedoras até maio de 2026.
A partir da assinatura do contrato, o prazo estimado é de 18 meses de obras.
Durante esse período, haverá impactos na circulação de pedestres, ônibus, veículos por aplicativo e no comércio local, com ajustes ainda a serem detalhados.

