Cidade linear de 169 quilômetros na Arábia Saudita, integrada ao NEOM, levanta questionamentos sobre colisões de aves, barreiras ecológicas e riscos ambientais em uma das principais rotas migratórias do planeta
O megaprojeto The Line, anunciado em janeiro de 2021 na Arábia Saudita, prevê uma cidade linear de 169 quilômetros integrada à iniciativa NEOM, levantando alertas sobre impactos ambientais graves em uma rota migratória vital para aves entre Europa e África.
Planejada como cidade inteligente sem carros, The Line teria 500 metros de altura, 200 metros de largura e 170 quilômetros de extensão, atravessando o deserto saudita de forma contínua.
A proposta integra a Saudi Vision 2030, com promessa de abrigar até nove milhões de pessoas, utilizando energias renováveis e serviços acessíveis em cinco minutos.
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Desde os primeiros anúncios, o desenho urbano futurista gerou dúvidas sobre impactos ambientais, especialmente por sua implantação direta em uma região ecologicamente sensível e funcional para migração animal.
Rota migratória e risco para aves
O traçado da cidade cruza uma rota migratória crucial, utilizada por bilhões de aves anualmente durante deslocamentos sazonais entre Europa e África, formando um corredor natural de passagem.
Nessa região, passam aves de mais de 100 espécies, incluindo o falcão-saker e o abutre-egípcio, espécies ameaçadas que dependem de rotas seguras para sobreviver.
A presença contínua de uma estrutura linear de grandes proporções pode alterar trajetos naturais de voo, exigindo desvios longos e maior gasto energético durante migrações exaustivas.
The Line: Fachadas espelhadas como ameaça direta
Outro ponto crítico está nas fachadas espelhadas planejadas para The Line, que refletem céu e paisagem, criando ilusão visual perigosa para aves em deslocamento.
Essas superfícies confundem a orientação das aves, levando a colisões em alta velocidade contra paredes refletivas, resultando frequentemente em morte imediata ou ferimentos fatais.
Em ambientes urbanos densos, esse tipo de material já é associado a altos índices de mortalidade aviária, risco ampliado pela escala inédita do projeto.
Impactos ecológicos em cascata
A mortalidade elevada de aves migratórias pode gerar efeitos em cadeia sobre ecossistemas amplos, afetando dispersão de sementes, controle de insetos e equilíbrio ambiental regional.
Aves desempenham funções ecológicas essenciais, e reduções populacionais abruptas comprometem processos naturais que sustentam tanto ambientes desérticos quanto regiões distantes conectadas pelas migrações.
Esses efeitos podem se estender por continentes, considerando que as rotas migratórias conectam diferentes biomas ao longo de milhares de quilômetros.
Questionamentos sobre mitigação ambiental
Até o momento, não há divulgação de uma avaliação ambiental pública detalhada que explique como colisões e barreiras migratórias seriam efetivamente mitigadas no projeto.
Sem soluções tecnológicas claras, especialistas consideram que o urbanismo proposto enfrenta a natureza, em vez de adaptar-se aos fluxos ecológicos existentes.
Representantes do projeto afirmam que 95% da área terrestre e marítima da região será dedicada à natureza, mas críticos apontam lacunas práticas.
Atrasos e reavaliações do empreendimento The Line
Além das preocupações ambientais, The Line enfrenta desafios de execução, com atrasos e revisões de escala em relação aos cronogramas iniciais anunciados.
Embora a meta original previsse avanços significativos até 2030, apenas uma fração da cidade deve se tornar habitável nas próximas décadas, segundo projeções internas.
Essas reavaliações reforçam a necessidade de reconsiderar prioridades antes da expansão em áreas ambientalmente sensíveis, integrando análises ecológicas mais aprofundadas.
Inovação urbana versus preservação
O debate em torno de The Line expõe o dilema entre inovação urbana e preservação ecológica em megaprojetos contemporâneos de grande escala territorial.
Embora propostas futuristas prometam soluções sustentáveis para cidades, sua localização pode transformar conceitos inovadores em armadilhas ecológicas imprevisíveis e permanentes.
Integrar ciência ambiental ao planejamento inicial é apontado como essencial para evitar que avanços tecnológicos resultem em perdas irreversíveis de biodiversidade local e global.
Com informações de Sustainability e outras fontes.
