1. Início
  2. / Curiosidades
  3. / O som mais alto já detectado no oceano continua sem explicação 28 anos depois: ‘The Bloop’ de 1997 foi ouvido a 5.000 km de distância, é mais potente que baleia-azul, e ninguém sabe o que causou
Tempo de leitura 8 min de leitura Comentários 0 comentários

O som mais alto já detectado no oceano continua sem explicação 28 anos depois: ‘The Bloop’ de 1997 foi ouvido a 5.000 km de distância, é mais potente que baleia-azul, e ninguém sabe o que causou

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 18/02/2026 às 12:34
Atualizado em 18/02/2026 às 12:39
Assista o vídeoO som mais alto já detectado no oceano continua sem explicação 28 anos depois: 'The Bloop' de 1997 foi ouvido a 5.000 km de distância, é mais potente que baleia-azul, e ninguém sabe o que causou
O som mais alto já detectado no oceano continua sem explicação 28 anos depois: ‘The Bloop’ de 1997 foi ouvido a 5.000 km de distância, é mais potente que baleia-azul, e ninguém sabe o que causou
  • Reação
  • Reação
  • Reação
5 pessoas reagiram a isso.
Reagir ao artigo

Em 1997, um som ultra-baixo detectado a mais de 5.000 km no Pacífico intrigou a NOAA e ficou conhecido como “The Bloop”, um dos maiores mistérios acústicos do oceano.

No verão de 1997, algo nas profundezas do Oceano Pacífico Sul fez um barulho tão alto que foi detectado por microfones submarinos separados por mais de 5.000 quilômetros. Não foi um submarino. Não foi uma bomba. Não foi um terremoto. O som tinha uma característica única: começava em frequência ultra-baixa e subia rapidamente ao longo de aproximadamente um minuto, como se algo gigantesco estivesse gemendo nas profundezas. Era tão potente que viajou através do oceano inteiro, ativando sensores desde a costa do Chile até o meio do Pacífico. Os cientistas da NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA) deram a esse fenômeno um nome simples e assustador: “The Bloop”.

E 28 anos depois, o que realmente causou o som mais misterioso já captado no oceano ainda é objeto de debate, porque a explicação oficial não convence todo mundo.

O som que não deveria existir

  • Data: Verão de 1997
  • Local: Aproximadamente 50°S 100°W, um ponto remoto no Pacífico Sul, a oeste da ponta sul do Chile
  • Distância de detecção: Mais de 5.000 km entre sensores
  • Duração: Aproximadamente 1 minuto
  • Frequência: Ultra-baixa, subindo rapidamente
  • Amplitude: Suficiente para ser ouvida através do oceano inteiro

Os hidrofones que captaram o Bloop não foram instalados para descobrir monstros marinhos — foram originalmente desenvolvidos pela Marinha dos EUA durante a Guerra Fria para detectar submarinos soviéticos.

Assista o vídeo
Vídeo do YouTube

Após o fim da Guerra Fria, a NOAA passou a usar esses mesmos hidrofones (o sistema SOSUS – Sound Surveillance System) para monitorar:

  • Atividade vulcânica submarina
  • Terremotos no fundo do mar
  • Movimentação de icebergs
  • Populações e migração de mamíferos marinhos

O que eles não esperavam encontrar era um som completamente novo, diferente de tudo já registrado.

Por que o Bloop era tão perturbador?

Três características fizeram o Bloop instantaneamente famoso (e assustador):

Padrão “biológico”, mas impossível

O perfil acústico do Bloop se assemelhava a vocalizações de animais marinhos. Especificamente, lembrava o padrão de sons feitos por baleias: uma variação rápida na frequência, como se algo estivesse “cantando” ou “chamando“.

O problema: Para produzir um som com aquela amplitude e alcance, o animal precisaria ser várias vezes maior que uma baleia-azul, o maior animal que já existiu na Terra.

Christopher Fox, cientista da NOAA, disse em entrevista à CNN em 2001:

“Embora o perfil de áudio do Bloop se assemelhe ao de uma criatura viva, a fonte era um mistério porque seria muito mais poderoso do que os chamados feitos por qualquer animal na Terra.”

Em 2002, Fox disse ao New Scientist:

“O palpite de Fox é que o som apelidado de Bloop é o mais provável (entre outros sons não identificados gravados) de vir de algum tipo de animal, porque sua assinatura é uma variação rápida em frequência similar àquela de sons conhecidos produzidos por bestas marinhas. Há uma diferença crucial, no entanto: em 1997, o Bloop foi detectado por sensores separados por até 4.800 km.”

Para contexto: uma baleia-azul adulta (o animal mais barulhento do planeta) produz sons de cerca de 188 decibéis, que podem viajar centenas de quilômetros. O Bloop foi detectado a milhares de quilômetros — várias vezes mais longe.

Estimativa teórica: Se o Bloop fosse realmente de origem biológica, o animal precisaria ter mais de 75 metros de comprimento, quase o dobro de uma baleia-azul.

Localização: perto do “lugar mais isolado da Terra”

Assista o vídeo
Vídeo do YouTube

O Bloop foi triangulado para uma região próxima ao Point Nemo (Ponto Nemo) — oficialmente chamado de “polo oceânico de inacessibilidade”.

Point Nemo fica no meio do nada, tão longe de qualquer terra firme que:

  • É mais próximo da Estação Espacial Internacional (quando passa sobre a região) do que de qualquer humano na Terra
  • A terra mais próxima fica a 2.688 km de distância
  • É usado pela NASA e outras agências espaciais como “cemitério de naves espaciais”, onde satélites e estações espaciais desativadas são intencionalmente derrubados

E aqui fica ainda mais estranho: nos livros de H.P. Lovecraft, a cidade perdida de R’lyeh, onde o monstro cósmico Cthulhu dorme, está localizada precisamente nessa região do Pacífico Sul. Coincidência? Certamente. Mas alimentou mil teorias de conspiração.

Nunca mais se repetiu

O Bloop foi detectado várias vezes durante o verão de 1997, mas depois disso, silêncio total. O som nunca mais foi gravado.

Isso criou um mistério adicional: se era um fenômeno natural recorrente (como atividade vulcânica), por que parou? Se era um animal, onde ele foi? Morreu? Migrou?

As teorias: do científico ao absurdo

Durante os anos 2000, enquanto a NOAA investigava, a internet explodiu com teorias:

Teoria 1: Criatura marinha gigante desconhecida

A mais popular. Se o som parecia biológico e era mais potente que uma baleia-azul, talvez fosse:

  • Uma espécie desconhecida de baleia ou cetáceo gigante
  • Um megalodon sobrevivente (tubarão pré-histórico que viveu há 3,6 milhões de anos)
  • Uma lula colossal de tamanho sem precedentes
  • Um plesiossauro ou outro réptil marinho pré-histórico

Problema: Exploramos menos de 5% do oceano, mas mamíferos marinhos grandes precisam respirar na superfície. Uma criatura do tamanho necessário para produzir o Bloop seria vista regularmente.

Teoria 2: Cthulhu despertou (sério, tinha gente que acreditava)

A proximidade com a localização fictícia de R’lyeh criou uma teoria “criptozoológica”:

  • O Bloop seria o som de Cthulhu se movendo no fundo do oceano
  • Ou de alguma outra entidade massiva desconhecida pela ciência

Problema: Cthulhu não existe. Mas vamos ser honestos — essa teoria era a mais divertida.

Teoria 3: Submarino secreto / Exercício militar

Alguns especularam que o Bloop era:

  • Teste de arma submarina secreta
  • Propulsão de submarino ultra-avançado
  • Experimento militar classificado

Problema: Christopher Fox, da NOAA, descartou essa possibilidade em 2002, afirmando que “não acreditava que a origem fosse artificial, como um submarino ou bomba.”

Teoria 4: Atividade vulcânica submarina

O oceano tem vulcões submarinos ativos que às vezes produzem sons estranhos.

Problema: Vulcões tendem a produzir sons de baixa frequência constante, não padrões ascendentes como o Bloop.

Teoria 5: Iceberg rachando (a explicação oficial)

Em 2005, a NOAA começou a implantar mais hidrofones perto da Antártida para estudar vulcões e terremotos no fundo do mar.

Entre 2005 e 2010, pesquisadores conduziram pesquisas acústicas no Estreito de Bransfield e Passagem de Drake (ao redor da Antártida) e descobriram que gelo quebrando e rachando era uma fonte dominante de som natural no Oceano Austral.

Em 2008, rastreando o iceberg A53a enquanto ele se desintegrava perto da Ilha Geórgia do Sul, os cientistas notaram algo: os espectrogramas (gráficos visuais de som) de icequakes (terremotos de gelo) eram quase idênticos ao Bloop.

Em 2012, a NOAA anunciou oficialmente:

“O Bloop era o som de um icequake (cryoseism), um iceberg rachando e se desprendendo de uma geleira antártica.”

Oceanógrafo Robert Dziak disse à WIRED:

“Os hidrofones da NOAA captam dezenas de milhares de sons semelhantes ao Bloop no oceano todos os anos.”

Com o aquecimento global, cada vez mais icequakes ocorrem anualmente à medida que geleiras se quebram, racham e eventualmente derretem no oceano.

Por que a explicação oficial não convence todo mundo?

Assista o vídeo
Vídeo do YouTube

Embora a NOAA tenha dado o caso como encerrado em 2012, muitos permanecem céticos. Aqui está o porquê:

Amplitude sem precedentes

Mesmo entre icequakes, o Bloop foi extraordinariamente mais alto do que eventos similares.

Cientistas confirmaram que icequakes podem viajar milhares de quilômetros na água, mas o Bloop tinha uma potência incomum, sugerindo um evento de proporções massivas.

Se foi um iceberg rachando, seria necessário um colapso de escala gigantesca. Possível? Sim. Mas nunca foi encontrado evidência de qual iceberg específico causou o som.

O padrão de frequência “biológico”

Icequakes tendem a produzir sons mais caóticos e abruptos. O Bloop tinha uma progressão suave de frequência ascendente, que muitos ainda acham biologicamente sugestiva.

Alguns bioacústicos argumentam que o padrão indica movimento ou vocalização orgânica, não fraturamento de gelo.

Nunca se repetiu

Se o Bloop foi causado por icequakes que, segundo Dziak, acontecem dezenas de milhares de vezes por ano, por que nunca mais detectamos um som exatamente assim? Icebergs continuam rachando. Geleiras continuam se desprendendo. Mas nenhum icequake desde 1997 teve a assinatura única do Bloop.

Localização não coincide perfeitamente

Embora a NOAA tenha atribuído o som a eventos próximos à Antártida (possivelmente entre Estreito de Bransfield e Mar de Ross, ou perto de Cabo Adare), a triangulação original apontava para uma área mais ao norte, não diretamente na zona antártica.

Outros sons misteriosos do oceano

Assista o vídeo
Vídeo do YouTube

O Bloop não estava sozinho. A NOAA detectou vários outros sons inexplicáveis usando o sistema SOSUS:

“Julia” (1º de março, 1999)

  • Duração: 2 minutos e 43 segundos
  • Detectado em todo o Pacífico Equatorial
  • NOAA concluiu: iceberg encalhado perto da Antártida

“Slow Down” (19 de maio, 1997)

  • Som que diminui em frequência ao longo de 7 minutos
  • Detectado por toda a extensão do array de hidrofones
  • NOAA concluiu: iceberg

“Upsweep” (detectado desde 1991)

  • Som contínuo de longa duração
  • Consiste em “trem” de sons de banda estreita que sobem em frequência
  • Sazonal — atinge picos na primavera e outono
  • Origem: ainda desconhecida (possivelmente vulcânica)

“Train” (5 de março, 1997)

  • Som que sobe para frequência quase constante
  • Nome vem do fato de soar como um trem distante
  • NOAA concluiu: iceberg gigante encalhado no Mar de Ross

O legado cultural do Bloop

Mesmo com a explicação oficial, o Bloop nunca saiu da imaginação popular.

Nos videogames:

  • Subnautica (jogo de exploração submarina): inclui criaturas que emitem sons tipo Bloop
  • Minecraft: o som ambiente dos oceanos profundos é parcialmente inspirado no Bloop

Na internet:

  • Threads no Reddit ainda debatem se foi realmente um iceberg
  • Teorias de conspiração sugerem que era um sinal submarino não reconhecido
  • Documentários de “mistérios não resolvidos” ainda apresentam o Bloop

Na ficção:

  • O Bloop virou um “meme de criatura marinha” — artistas criam representações de como seria o “monstro que fez o Bloop”
  • Uma imagem famosa de 2009 no DeviantArt (por Jef Chang) mostra uma criatura leviatã azul gigante — que muitos assumiram erroneamente ser uma “representação oficial”

A resposta honesta: provavelmente foi um iceberg. Mas não com 100% de certeza. E talvez seja melhor assim.

Porque em um mundo onde já mapeamos quase toda superfície terrestre, onde satélites espionam cada canto do planeta, onde a tecnologia parece explicar tudo. É reconfortante saber que ainda existem mistérios. Que há sons nas profundezas que não conseguimos decifrar completamente.

Que o oceano, vasto e escuro, guarda segredos que talvez nunca revelemos. O Bloop nos lembra: ainda somos visitantes em um planeta que mal compreendemos.

E lá embaixo, nas profundezas geladas do Pacífico Sul, algo fez um barulho tão alto que atravessou um oceano inteiro.

Foi um iceberg?

Provavelmente.

Foi algo mais?

Nunca saberemos com certeza.

E talvez, apenas talvez, seja melhor deixar alguns mistérios sem resposta.

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

Compartilhar em aplicativos
Baixar aplicativo
Ir para o vídeo em destaque
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x