1. Início
  2. Indústria
  3. O sofrimento oculto por trás das fazendas tailandesas que produzem filhotes de leão para virar atração nas redes sociais e ‘brinquedo de luxo’ nas mãos da elite do país
Faça um comentário 6 min de leitura

O sofrimento oculto por trás das fazendas tailandesas que produzem filhotes de leão para virar atração nas redes sociais e ‘brinquedo de luxo’ nas mãos da elite do país

Imagem de perfil do autor Romário Pereira de Carvalho
Escrito por Romário Pereira de Carvalho Publicado em 21/11/2025 às 12:53
Leões, Filhotes de leão, mercado, Tailândia
Imagem: Ilustração artística feita por IA
Seja o primeiro a reagir!
Reagir ao artigo
Prefira o CPG no Google

O aumento de leões criados e vendidos para festas e exibição nas redes sociais revela brechas legais, riscos à segurança e sérios problemas de bem estar animal

A presença de animais exóticos em casas de luxo na Tailândia cresceu de forma intensa nos últimos anos, porque um novo símbolo de status surgiu entre a elite: os filhotes de leão. Essa preferência se espalha pelas redes sociais e mostra uma tendência marcada por ostentação, desconhecimento e fortes críticas de ativistas.

Além disso, o fenômeno expõe problemas de bem-estar animal e brechas legais que permitiram a expansão de um comércio que poucos imaginavam tão amplo.

Vídeos publicados em festas particulares em Bangkok ilustram bem essa realidade. Taças de champanhe tilintam enquanto convidados circulam com roupas de grife e tiram fotos animadas.

Em meio às conversas, um filhote de leão passa de mão em mão como se fosse um acessório de luxo. Uma mulher, vestida para um coquetel, levanta o animal e envia um beijo para a câmera, equilibrando um copo de vinho na outra mão.

Essa cena se repete em centenas de gravações que inundam Instagram e TikTok. Portanto, não é surpresa que o novo relatório produzido pela Wildlife Friends Foundation Thailand e pelo Oxford Wildlife Trade Research Group mostre que o número de leões em cativeiro mais que triplicou desde 2018.

O crescimento das fazendas e a falta de preparo

As fazendas de leões se multiplicaram rapidamente para atender à demanda, mas muitas são administradas por pessoas sem experiência no manejo de animais selvagens. Esse é o caso de Patamawadee Chanpithak.

Sentada no chão do berçário, ela observa três filhotes recém nascidos rastejando sobre seu colo. O cheiro de leite em pó para gatinhos domina o ambiente e reforça o caráter improvisado do local. “Éramos muito inexperientes quando começamos”, conta ela.

Os primeiros dias foram difíceis. Cinco de seus seis filhotes iniciais morreram rapidamente. Mesmo assim, o negócio prosperou, e ela já vendeu mais de 80 leões no país. Alguns compradores são tailandeses. Outros vêm de fora. Todos são ricos, ressalta a criadora.

Os filhotes custam a partir de US$ 5.000. Filhotes brancos chegam a US$ 15.000. Manter um leão é caro, porque exige espaço reforçado e até 10 kg de carne fresca por dia. Portanto, apenas um grupo muito restrito consegue pagar por isso.

A busca pelos animais mais jovens

Os compradores preferem filhotes extremamente jovens. Essa procura estimula a atuação de agentes que promovem fotos e vídeos nas redes sociais, oferecendo os animais para compra ou até aluguel em festas e sessões fotográficas. Os problemas começam quando os leões crescem.

Alguns donos se desesperam diante das dificuldades. É comum que tentem devolver o animal às fazendas e peçam a recompra.

Patamawadee explica que isso se tornou parte essencial do modelo de negócios. As fazendas aceitam o leão de volta, repassam para reprodução ou entregam a locais semelhantes a zoológicos. Assim, o lucro continua em todas as etapas da vida.

Falhas de registro e aumento silencioso da população

O relatório aponta a dificuldade de rastrear cada animal. Transferências frequentes entre fazendas e compradores dificultam o controle oficial. Em 2018, registros apontavam 138 leões em cativeiro no país.

Agora, o relatório identifica ao menos 444. O número é superior aos 342 contabilizados pelo Departamento de Parques Nacionais.

Os pesquisadores afirmam que o total real é maior, já que muitas vendas e práticas de reprodução não aparecem nos registros.

Leis com boas intenções e efeitos inesperados

Em 2019, a Tailândia adotou a Lei de Preservação e Proteção de Animais Selvagens para controlar espécies listadas na CITES, como os leões. A intenção era limitar a posse. O efeito, porém, foi oposto.

A lei estabeleceu licenças para possuir leões, mas não para reproduzi los. Portanto, quem tem um leão legalizado pode criar livremente.

Filhotes só precisam ser registrados após 60 dias, o que abre brechas para movimentações sem fiscalização. Além disso, híbridos como os ligres ficaram fora da legislação, ampliando ainda mais as lacunas.

O comércio de filhotes ultrapassa US$ 1 milhão por ano. O mercado, portanto, ganhou impulso.

Problemas de saúde e bem estar

O veterinário Taweesak Anansiriwattana, conhecido como Dr. Vee, discorda da posse doméstica de leões. Em cinco anos, tratou mais de 25 animais pertencentes a particulares.

Ele afirma que o clima úmido do país favorece infecções de pele e a desnutrição também preocupa.

Muitos proprietários alimentam os animais apenas com frango, ignorando a necessidade de órgãos como fígado e intestinos. Portanto, falhas graves surgem rapidamente.

A lei exige recintos de no mínimo 3 metros por 3 metros. Mesmo assim, menos da metade dos locais que ele visitou atende ao padrão.

Condições inadequadas e separação precoce dos leões

Para Tom Taylor, chefe de operações da Wildlife Friends Foundation Thailand, os desafios são sérios. Ele afirma que muitas instalações mantêm leões em locais pequenos, sem luz solar, sobre concreto e com alimentação precária. As consequências para o bem estar são evidentes.

Criadores costumam separar os filhotes cedo para que as mães entrem novamente no cio. Além disso, a endogamia é frequente, especialmente entre leões brancos e híbridos mais valorizados.

Riscos ao meio ambiente e ao tráfico

Os leões não são nativos da Tailândia. A IUCN os classifica como vulneráveis.

A população em cativeiro do país não beneficia a conservação. Segundo Taylor, o cenário cria um terreno fértil para o tráfico.

Ele relata informações confiáveis de exportações ilegais, tanto de leões vivos quanto mortos, destinadas à extração de partes do corpo. As partes podem suprir uma demanda crescente após o controle mais rígido sobre tigres.

Perigo para a população e episódios recentes

A segurança pública virou uma preocupação. Casos de leões escapando de recintos privados ou circulando em espaços públicos chamaram atenção.

Em 2024, um vídeo viral mostrou um homem dirigindo com um leão em um carro conversível.
O caso gerou grande temor.

O diretor geral do departamento de parques afirmou que o governo avalia mudanças na legislação.
Entre elas, restrições severas à posse.

O comércio de filhotes de leões: Chamado por mudanças urgentes

O relatório defende uma proibição imediata da criação comercial e da posse privada. Também sugere regras mais duras para licenciamento e para locais que lucram com fotos e visitas.

Muitas pessoas se encantam com a ideia de ter um leão, mas não entendem as implicações éticas, financeiras e de segurança”, explica Taylor.

Além disso, ele destaca que o interesse por espécies não nativas está aumentando. Lêmures de cauda anelada e pandas vermelhos começam a seguir o mesmo caminho.

O objetivo do relatório é incentivar reflexão. E, principalmente, alertar sobre o destino desses animais quando deixam de ser filhotes e ficam perigosos demais para serem exibidos.

Com informações de The Guardian.

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Romário Pereira de Carvalho

Já publiquei milhares de matérias em portais reconhecidos, sempre com foco em conteúdo informativo, direto e com valor para o leitor. Fique à vontade para enviar sugestões ou perguntas

Compartilhar em aplicativos
Baixar aplicativo
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x