IBGE revela queda histórica do rádio nos lares brasileiros em 2024: celulares e Smart TVs substituem o aparelho físico em milhões de casas.
O rádio nos lares brasileiros esteve presente por décadas como um dos principais aparelhos de comunicação e entretenimento doméstico. Havia um aparelho na sala, outro na cozinha e, muitas vezes, um terceiro no quarto. Esse padrão se repetiu em mais da metade das casas do país por anos consecutivos, conforme medições do IBGE desde 2016. Em 2024, esse ciclo chegou ao fim. Segundo o módulo TIC da PNAD Contínua do IBGE, divulgado em julho de 2025, apenas 48,5% dos domicílios brasileiros possuíam aparelho de rádio em 2024, o equivalente a 38,8 milhões de lares. Pela primeira vez na série histórica, os domicílios sem rádio superaram os que ainda mantêm o aparelho. Entre 2023 e 2024, 2,3 milhões de casas deixaram de ter rádio, uma queda de 4 pontos percentuais em apenas doze meses.
O rádio não desapareceu como meio. O que começou a desaparecer foi o aparelho físico.
Queda do rádio no Brasil: dados do IBGE mostram mudança estrutural no consumo de áudio
A série histórica do IBGE revela uma mudança abrupta após anos de estabilidade. Em 2016, o rádio estava presente em 56,5% dos domicílios brasileiros. Em 2022, esse número permanecia exatamente o mesmo, indicando um período prolongado de estabilidade mesmo diante da expansão digital. Em 2023, caiu para 52,5%. Em 2024, atingiu 48,5%.
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A queda de 2,3 milhões de domicílios em apenas um ano é o maior recuo já registrado. Em termos de escala, representa um volume comparável ao total de residências de estados inteiros sendo impactados simultaneamente.
Regionalmente, o cenário também mudou. Apenas a Região Sul permanece acima de 50%, com 56,7% dos domicílios com rádio. Nas áreas urbanas, o índice caiu para 48,1%. No meio rural, ainda é de 51,8%, mas em trajetória de queda.
O aparelho que simbolizava o cotidiano doméstico urbano já é minoria nas cidades brasileiras.
Celular e internet substituem o rádio físico nos domicílios brasileiros
A substituição do rádio não ocorreu por abandono da função, mas pela migração tecnológica. O celular está presente em 97% dos domicílios brasileiros em 2024, segundo o IBGE. Ao mesmo tempo, 82,4% dos usuários de internet declararam utilizar a rede para ouvir música, rádio ou podcasts.

Isso indica que a função central do rádio foi absorvida por dispositivos já existentes no cotidiano. O celular não apenas substituiu o aparelho físico, como ampliou suas funcionalidades.
O usuário deixou de depender de um equipamento exclusivo para ouvir rádio. O acesso passou a ser integrado, portátil e sob demanda.
Smart TV acelera a substituição do rádio como centro de entretenimento doméstico
Outro vetor relevante dessa transformação é a Smart TV. Em 2024, 53,5% dos usuários de internet no Brasil acessaram a rede pelo televisor, superando pela primeira vez metade da população conectada. Em 2016, esse índice era de apenas 11,3%.
A televisão conectada passou a concentrar múltiplas funções: streaming de vídeo, plataformas de música, aplicativos de rádio ao vivo e podcasts.
Esse movimento eliminou a necessidade de múltiplos aparelhos separados na sala, incluindo o rádio e o sistema de som tradicional.
O rádio não desapareceu: o aparelho físico perdeu relevância
A queda no número de rádios não significa queda no consumo de conteúdo sonoro. O dado do IBGE é específico: mede a presença do aparelho físico no domicílio. Não mede o consumo de áudio.
Mais de 138 milhões de brasileiros consomem conteúdo de áudio pela internet. Emissoras tradicionais transmitem via aplicativos com qualidade superior ao sinal analógico. O conteúdo continua sendo consumido — apenas mudou de plataforma. O rádio como meio continua ativo. O rádio como objeto físico tornou-se dispensável.
Entre 2016 e 2022, o rádio manteve presença estável nos lares brasileiros. A partir de 2023, o comportamento mudou de forma abrupta. Dois anos consecutivos de queda acelerada indicam um ponto de inflexão típico de substituição tecnológica.
Esse padrão é recorrente: tecnologias permanecem estáveis por anos até que uma mudança de hábito acelere sua substituição em pouco tempo.
Norte e Nordeste ainda mantêm importância do rádio em contextos específicos
A queda não ocorre de forma homogênea no país. Em regiões com menor cobertura de internet, especialmente no Norte e no Nordeste, o rádio ainda desempenha funções críticas. Em áreas rurais, apenas 65,8% dos domicílios possuem acesso à rede móvel para internet ou telefonia.
Nesses contextos, o rádio continua essencial para comunicação local, alertas e acesso à informação. Mesmo assim, a tendência geral é de redução gradual, acompanhando a expansão da conectividade.
O fenômeno observado com o rádio já ocorreu com outro dispositivo doméstico: o telefone fixo. Em 2016, 32,6% dos domicílios tinham telefone fixo. Em 2024, esse número caiu para 7,5%.
A função permaneceu, mas o aparelho desapareceu. O mesmo padrão se aplica ao rádio: a utilidade foi mantida, mas o hardware dedicado deixou de ser necessário.
Smart TV e celular consolidam nova lógica de consumo de áudio
A integração de funções em poucos dispositivos redefiniu o consumo doméstico. O celular concentra mobilidade, personalização e acesso instantâneo. A Smart TV concentra o consumo coletivo dentro da casa.
Ambos substituem múltiplos aparelhos antigos — rádio, aparelho de som, DVD player — em uma única interface conectada. Esse processo não é apenas tecnológico. É comportamental.
Apesar dos avanços, há limitações nos dados disponíveis. O IBGE não distingue, dentro do consumo de áudio digital, quantos usuários estão ouvindo rádio ao vivo e quantos estão consumindo playlists ou podcasts.
Isso impede uma medição precisa da audiência real do rádio como meio. Mas não há dúvida sobre o principal ponto: o aparelho físico perdeu relevância estrutural.
O que esperar do rádio nos próximos anos no Brasil
A tendência é de continuidade na queda da presença do rádio físico nos domicílios. A Região Sul ainda apresenta níveis mais altos, mas deve seguir o mesmo padrão. O meio rural, atualmente acima de 50%, deve cruzar essa linha nos próximos anos.
O comportamento observado indica que a substituição não será revertida. A mudança registrada pelo IBGE em 2024 não representa o fim do rádio, mas o fim da necessidade de possuir um aparelho dedicado para acessá-lo.
Milhões de domicílios deixaram de ter rádio sem perder acesso ao conteúdo. A transição foi silenciosa porque foi funcionalmente invisível para o usuário. O celular e a Smart TV já cumpriam esse papel.
Esse é o padrão das grandes mudanças tecnológicas: o objeto desaparece, mas a função permanece. E, em 2024, o Brasil registrou exatamente esse momento.
