A trajetória da Argentina mostra como um país que liderou o agro mundial, superou o Brasil por décadas e foi símbolo de prosperidade conseguiu desmontar sua própria base produtiva por escolhas macroeconômicas erradas, afetando renda, produção e segurança alimentar
A Argentina já figurou entre as economias mais ricas do planeta, liderou exportações agrícolas e simbolizou prosperidade. Hoje enfrenta hiperinflação, pobreza crescente e perda de competitividade, tentando reencontrar o rumo após décadas de decisões macroeconômicas equivocadas.
O início do século XX e o auge argentino
No começo do século XX, a Argentina possuía renda per capita comparável à da Alemanha e superior à de Espanha, Itália e Suíça. Era a maior economia da América do Sul e a sexta maior do mundo.
O país ganhou o título de celeiro do mundo sem exageros. Exportava alimentos para Europa, África e Ásia de forma contínua, sustentado por solos profundos, clima temperado, chuvas previsíveis e elevada produtividade agrícola.
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A relação estratégica com o Reino Unido impulsionou o setor pecuário. Durante décadas, quase metade da carne consumida em Londres saiu dos portos argentinos, transportada por navios frigoríficos modernos.
Trigo, milho, lã, carne bovina e lácteos consolidaram a liderança agrícola. Os frigoríficos argentinos estavam entre os mais avançados do hemisfério sul, integrados a uma logística eficiente e inovadora.
O Porto de Rosário tornou-se corredor estratégico de exportação de grãos. A infraestrutura era apoiada por uma extensa malha ferroviária, uma das maiores do mundo nos anos 1920.
Hoje, apenas um terço dessa malha permanece operacional. Essa deterioração resume o chamado custo argentino, marcado por logística deficiente, energia cara, alta tributação e instabilidade regulatória constante.
O início da ruptura econômica
Apesar dos problemas estruturais, a Argentina manteve competitividade dentro da porteira até o final do século XX. A ruptura começou nos anos 2000, com mudanças profundas na política econômica.
Em 2002, foram criadas as retenções, impostos sobre exportações agrícolas. Anunciadas como temporárias, tornaram-se permanentes, repetindo um padrão comum em políticas fiscais emergenciais.
Na soja, as retenções chegaram a 33%. O produtor era penalizado justamente nos momentos de melhor margem, comprometendo investimento, previsibilidade e expansão da produção agrícola.
Somaram-se controles cambiais rígidos, burocracia para exportar e um câmbio artificial. Em vários períodos, o dólar oficial valia apenas um terço do dólar paralelo negociado no mercado.
Entre 2002 e 2023, a inflação acumulada superou 70.000%. Esse ambiente corroeu margens, desorganizou investimentos e destruiu a confiança de produtores, empresas e investidores internacionais.
Impactos diretos no agronegócio
Antes das intervenções, soja e milho cresciam cerca de 7% ao ano. Após as mudanças, o crescimento caiu para 2% e posteriormente ficou próximo de zero.
A participação argentina no complexo soja-milho caiu de 23% para 17%. No mesmo período, o Brasil avançou de 17% para 40%, ocupando o espaço deixado pelo concorrente regional.
Entre 2002 e 2023, a Argentina deixou de produzir aproximadamente 95 milhões de toneladas de soja, 60 milhões de milho e 33 milhões de trigo, gerando perdas superiores a US$ 3 bilhões anuais.
O símbolo máximo da crise ocorreu em 2023, quando o país precisou importar soja. O antigo maior parque mundial de esmagamento operou com mais de 50% de ociosidade.
A frota de tratores encolheu 20%. A renovação de máquinas atingiu o menor nível em cinco décadas, refletindo insegurança econômica e dificuldade de acesso a capital.
Efeitos sociais e produtivos
Em regiões tradicionais como Córdoba e Santa Fé, propriedades encerraram atividades. O rebanho bovino, praticamente estagnado desde os anos 1970, deixou de crescer.
O consumo de carne, que já se aproximou de 100 quilos por pessoa ao ano, caiu pela metade. Essa redução expressa empobrecimento real e insegurança alimentar crescente.
Nos anos 1970, a pobreza era cerca de 4%. Atualmente, aproxima-se de 40%, representando quase dez vezes mais pessoas em situação de vulnerabilidade econômica.
O tripé macroeconômico e o erro estrutural
O tripé macroeconômico sustenta economias estáveis: câmbio flutuante, responsabilidade fiscal e metas de inflação. A Argentina desmontou dois desses pilares.
O país passou a gastar mais do que arrecadava, ampliando déficits e dívida pública. Ao mesmo tempo, abandonou o câmbio flutuante, tentando definir artificialmente o valor da moeda.
Sem esses pilares, a economia perdeu referência, previsibilidade e confiança. Experiências semelhantes fracassaram historicamente, independentemente do contexto político ou social.
No Brasil, o tripé ainda existe, apesar de desequilíbrios fiscais. A manutenção do câmbio flutuante tem sido decisiva para evitar crises cambiais mais profundas.
Produzir nunca foi o problema
Entre 2017 e 2021, segundo o CEPEA, o custo operacional da soja na Argentina foi de US$ 269 por hectare, o mais baixo entre grandes produtores.
No Brasil, o custo supera US$ 50 por hectare. A produtividade por trabalhador argentino sempre foi elevada, mostrando que o problema não estava dentro da fazenda.
O gargalo estava fora da porteira, na macroeconomia instável, na política errática e na insegurança jurídica, que travavam decisões de plantio, venda e investimento.
Produzir bem sem conseguir vender com previsibilidade é um risco sistêmico. O caso argentino ilustra como políticas macroeconômicas podem destruir cadeias produtivas eficientes.
Brasil e Argentina, caminhos opostos
Enquanto a Argentina enfrentava retração, o Brasil expandiu o milho safrinha, consolidou o Cerrado, desenvolveu o Matopiba e investiu em tecnologia agrícola.
Agricultura de precisão, conectividade rural, geotecnologia, manejo climático e uso de drones impulsionaram produtividade e competitividade brasileira.
Hoje, o Brasil responde por cerca de 65% da produção agrícola da América do Sul. A Argentina participa com aproximadamente 26%, refletindo trajetórias econômicas divergentes.
Mesmo com decisões equivocadas ao longo do tempo, o Brasil demonstrou maior resiliência estrutural, sustentada pela escala do agronegócio e capacidade de adaptação.
O governo Milei e as tentativas de ajuste
O presidente Javier Milei herdou um país com inflação de 140%, reservas internacionais esgotadas e empobrecimento generalizado.
Medidas de ajuste fiscal e reorganização econômica recolocaram o agronegócio no centro da estratégia nacional, por ser o setor capaz de gerar divisas rapidamente.
A geração de divisas significa exportar, trazer dólares e reconstruir confiança econômica. Sinais recentes indicam melhora, embora os desafios estruturais permaneçam enormes.
A Argentina tenta retornar aos trilhos, mas ainda está distante de recuperar o protagonismo perdido no cenário latino-americano e global.
Lições para o Brasil
A trajetória argentina oferece um alerta claro. Decisões macroeconômicas equivocadas têm efeitos duradouros sobre produção, renda, investimento e segurança alimentar.
Mais do que disputas políticas, o que define o futuro econômico são juros, câmbio, responsabilidade fiscal e segurança jurídica, fatores que impactam diretamente o bolso da população.
Observar os erros do vizinho é fundamental para evitar repeti-los. A economia responde a fundamentos, não a discursos, e o agronegócio sente esses efeitos primeiro.
Em anos eleitorais, entender propostas econômicas é decisivo. A história argentina mostra que desmontar pilares macroeconômicos cobra um preço alto, prolongado e socialmente doloroso.

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