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A Argentina já deu uma surra no agro brasileiro, enchia o mundo de comida e parecia imbatível: mas algo aconteceu e destruiu tudo

Escrito por Fabio Lucas Carvalho
Publicado em 24/12/2025 às 10:47
Atualizado em 24/12/2025 às 10:55
Como a Argentina passou de potência agrícola global a país em crise, perdendo competitividade no agro após décadas de decisões econômicas equivocadas.
Como a Argentina passou de potência agrícola global a país em crise, perdendo competitividade no agro após décadas de decisões econômicas equivocadas.
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A trajetória da Argentina mostra como um país que liderou o agro mundial, superou o Brasil por décadas e foi símbolo de prosperidade conseguiu desmontar sua própria base produtiva por escolhas macroeconômicas erradas, afetando renda, produção e segurança alimentar

A Argentina já figurou entre as economias mais ricas do planeta, liderou exportações agrícolas e simbolizou prosperidade. Hoje enfrenta hiperinflação, pobreza crescente e perda de competitividade, tentando reencontrar o rumo após décadas de decisões macroeconômicas equivocadas.

O início do século XX e o auge argentino

No começo do século XX, a Argentina possuía renda per capita comparável à da Alemanha e superior à de Espanha, Itália e Suíça. Era a maior economia da América do Sul e a sexta maior do mundo.

O país ganhou o título de celeiro do mundo sem exageros. Exportava alimentos para Europa, África e Ásia de forma contínua, sustentado por solos profundos, clima temperado, chuvas previsíveis e elevada produtividade agrícola.

A relação estratégica com o Reino Unido impulsionou o setor pecuário. Durante décadas, quase metade da carne consumida em Londres saiu dos portos argentinos, transportada por navios frigoríficos modernos.

Trigo, milho, lã, carne bovina e lácteos consolidaram a liderança agrícola. Os frigoríficos argentinos estavam entre os mais avançados do hemisfério sul, integrados a uma logística eficiente e inovadora.

O Porto de Rosário tornou-se corredor estratégico de exportação de grãos. A infraestrutura era apoiada por uma extensa malha ferroviária, uma das maiores do mundo nos anos 1920.

Hoje, apenas um terço dessa malha permanece operacional. Essa deterioração resume o chamado custo argentino, marcado por logística deficiente, energia cara, alta tributação e instabilidade regulatória constante.

O início da ruptura econômica

Apesar dos problemas estruturais, a Argentina manteve competitividade dentro da porteira até o final do século XX. A ruptura começou nos anos 2000, com mudanças profundas na política econômica.

Em 2002, foram criadas as retenções, impostos sobre exportações agrícolas. Anunciadas como temporárias, tornaram-se permanentes, repetindo um padrão comum em políticas fiscais emergenciais.

Na soja, as retenções chegaram a 33%. O produtor era penalizado justamente nos momentos de melhor margem, comprometendo investimento, previsibilidade e expansão da produção agrícola.

Somaram-se controles cambiais rígidos, burocracia para exportar e um câmbio artificial. Em vários períodos, o dólar oficial valia apenas um terço do dólar paralelo negociado no mercado.

Entre 2002 e 2023, a inflação acumulada superou 70.000%. Esse ambiente corroeu margens, desorganizou investimentos e destruiu a confiança de produtores, empresas e investidores internacionais.

Impactos diretos no agronegócio

Antes das intervenções, soja e milho cresciam cerca de 7% ao ano. Após as mudanças, o crescimento caiu para 2% e posteriormente ficou próximo de zero.

A participação argentina no complexo soja-milho caiu de 23% para 17%. No mesmo período, o Brasil avançou de 17% para 40%, ocupando o espaço deixado pelo concorrente regional.

Entre 2002 e 2023, a Argentina deixou de produzir aproximadamente 95 milhões de toneladas de soja, 60 milhões de milho e 33 milhões de trigo, gerando perdas superiores a US$ 3 bilhões anuais.

O símbolo máximo da crise ocorreu em 2023, quando o país precisou importar soja. O antigo maior parque mundial de esmagamento operou com mais de 50% de ociosidade.

A frota de tratores encolheu 20%. A renovação de máquinas atingiu o menor nível em cinco décadas, refletindo insegurança econômica e dificuldade de acesso a capital.

Efeitos sociais e produtivos

Em regiões tradicionais como Córdoba e Santa Fé, propriedades encerraram atividades. O rebanho bovino, praticamente estagnado desde os anos 1970, deixou de crescer.

O consumo de carne, que já se aproximou de 100 quilos por pessoa ao ano, caiu pela metade. Essa redução expressa empobrecimento real e insegurança alimentar crescente.

Nos anos 1970, a pobreza era cerca de 4%. Atualmente, aproxima-se de 40%, representando quase dez vezes mais pessoas em situação de vulnerabilidade econômica.

O tripé macroeconômico e o erro estrutural

O tripé macroeconômico sustenta economias estáveis: câmbio flutuante, responsabilidade fiscal e metas de inflação. A Argentina desmontou dois desses pilares.

O país passou a gastar mais do que arrecadava, ampliando déficits e dívida pública. Ao mesmo tempo, abandonou o câmbio flutuante, tentando definir artificialmente o valor da moeda.

Sem esses pilares, a economia perdeu referência, previsibilidade e confiança. Experiências semelhantes fracassaram historicamente, independentemente do contexto político ou social.

No Brasil, o tripé ainda existe, apesar de desequilíbrios fiscais. A manutenção do câmbio flutuante tem sido decisiva para evitar crises cambiais mais profundas.

Produzir nunca foi o problema

Entre 2017 e 2021, segundo o CEPEA, o custo operacional da soja na Argentina foi de US$ 269 por hectare, o mais baixo entre grandes produtores.

No Brasil, o custo supera US$ 50 por hectare. A produtividade por trabalhador argentino sempre foi elevada, mostrando que o problema não estava dentro da fazenda.

O gargalo estava fora da porteira, na macroeconomia instável, na política errática e na insegurança jurídica, que travavam decisões de plantio, venda e investimento.

Produzir bem sem conseguir vender com previsibilidade é um risco sistêmico. O caso argentino ilustra como políticas macroeconômicas podem destruir cadeias produtivas eficientes.

Brasil e Argentina, caminhos opostos

Enquanto a Argentina enfrentava retração, o Brasil expandiu o milho safrinha, consolidou o Cerrado, desenvolveu o Matopiba e investiu em tecnologia agrícola.

Agricultura de precisão, conectividade rural, geotecnologia, manejo climático e uso de drones impulsionaram produtividade e competitividade brasileira.

Hoje, o Brasil responde por cerca de 65% da produção agrícola da América do Sul. A Argentina participa com aproximadamente 26%, refletindo trajetórias econômicas divergentes.

Mesmo com decisões equivocadas ao longo do tempo, o Brasil demonstrou maior resiliência estrutural, sustentada pela escala do agronegócio e capacidade de adaptação.

O governo Milei e as tentativas de ajuste

O presidente Javier Milei herdou um país com inflação de 140%, reservas internacionais esgotadas e empobrecimento generalizado.

Medidas de ajuste fiscal e reorganização econômica recolocaram o agronegócio no centro da estratégia nacional, por ser o setor capaz de gerar divisas rapidamente.

A geração de divisas significa exportar, trazer dólares e reconstruir confiança econômica. Sinais recentes indicam melhora, embora os desafios estruturais permaneçam enormes.

A Argentina tenta retornar aos trilhos, mas ainda está distante de recuperar o protagonismo perdido no cenário latino-americano e global.

Lições para o Brasil

A trajetória argentina oferece um alerta claro. Decisões macroeconômicas equivocadas têm efeitos duradouros sobre produção, renda, investimento e segurança alimentar.

Mais do que disputas políticas, o que define o futuro econômico são juros, câmbio, responsabilidade fiscal e segurança jurídica, fatores que impactam diretamente o bolso da população.

Observar os erros do vizinho é fundamental para evitar repeti-los. A economia responde a fundamentos, não a discursos, e o agronegócio sente esses efeitos primeiro.

Em anos eleitorais, entender propostas econômicas é decisivo. A história argentina mostra que desmontar pilares macroeconômicos cobra um preço alto, prolongado e socialmente doloroso.

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Fabio Lucas Carvalho

Jornalista especializado em uma ampla variedade de temas, como carros, tecnologia, política, indústria naval, geopolítica, energia renovável e economia. Atuo desde 2015 com publicações de destaque em grandes portais de notícias. Minha formação em Gestão em Tecnologia da Informação pela Faculdade de Petrolina (Facape) agrega uma perspectiva técnica única às minhas análises e reportagens. Com mais de 10 mil artigos publicados em veículos de renome, busco sempre trazer informações detalhadas e percepções relevantes para o leitor.

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