O Brasil, um dos maiores produtores de alimentos do planeta, depende do exterior para quase tudo o que aduba as suas lavouras: cerca de 85% dos fertilizantes usados no país são importados. A dependência coloca o agronegócio nacional, motor das exportações brasileiras, à mercê de fornecedores estrangeiros como Rússia, Canadá, China e Marrocos e das turbulências do mercado internacional.
É um paradoxo que assusta o setor. O país que alimenta boa parte do mundo não consegue produzir em casa o insumo básico que faz a sua agricultura funcionar. Cada saca de soja ou milho colhida no Brasil carrega, escondido, um pedaço de nitrogênio, fósforo e potássio que veio de navio do outro lado do planeta.
Uma dependência perigosa
Os números explicam o tamanho do risco. Os fertilizantes são divididos em três grandes grupos, conhecidos pela sigla NPK: nitrogênio, fósforo e potássio. O Brasil importa a maior parte dos três, com destaque para o potássio, do qual depende de fora em proporção ainda maior, comprando volumes enormes de poucos países.
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Essa concentração é o ponto fraco. Quando um grande fornecedor enfrenta crise, guerra ou sanção, o preço do fertilizante dispara no mundo todo, e o produtor brasileiro sente no bolso quase imediatamente. Foi o que aconteceu em crises geopolíticas recentes, quando o custo dos insumos subiu de forma brutal e apertou a margem do agricultor.
O risco não é só de preço, é de abastecimento.

Por que o Brasil não produz
A explicação mistura geologia e história. O país tem reservas limitadas de alguns minerais usados na fabricação de fertilizantes, e os projetos para explorá-las esbarraram, ao longo das décadas, em falta de investimento, questões ambientais e a concorrência do produto importado, muitas vezes mais barato. Com isso, a indústria nacional de fertilizantes encolheu em vez de crescer.
O resultado é um gigante agrícola com um pé de barro. À medida que a produção de grãos bate recordes a cada safra, a demanda por fertilizante cresce junto, e a conta com o exterior aumenta. Reduzir essa vulnerabilidade virou questão de segurança nacional para o agronegócio.

O impacto no preço da comida
Essa dependência não fica só no campo: ela chega à mesa do brasileiro. O fertilizante é um dos maiores custos da produção agrícola, e quando ele encarece, o preço de produzir soja, milho, arroz e feijão sobe junto. Mais cedo ou mais tarde, parte dessa alta é repassada ao consumidor na forma de comida mais cara no supermercado.
Por isso, a vulnerabilidade dos fertilizantes é tratada como questão estratégica, e não apenas agrícola. Um país que depende do exterior para adubar as suas lavouras fica exposto, em última instância, a ver a própria segurança alimentar oscilar ao sabor de guerras e crises distantes, sobre as quais não tem nenhum controle.
A corrida para virar o jogo
Governo e iniciativa privada tentam reduzir a dependência por vários caminhos. Um deles é aproveitar o gás natural nacional, matéria-prima para a produção de fertilizantes nitrogenados, reativando e construindo fábricas que transformam o gás em ureia e amônia. A ampliação da oferta de gás, inclusive no Nordeste, abre espaço para esse tipo de indústria.
Outra frente é a mineração de potássio e fosfato em solo brasileiro, com projetos que buscam destravar reservas conhecidas, algumas na Amazônia, em meio a debates ambientais. Há ainda o estímulo a fertilizantes alternativos e ao uso mais eficiente do insumo, para que o produtor precise de menos para colher o mesmo.

Reverter 85% de importação, no entanto, é tarefa de longo prazo. Especialistas avaliam que o país levará anos para construir uma cadeia nacional capaz de reduzir de forma significativa a dependência externa. Enquanto isso, o agronegócio brasileiro segue exposto às oscilações de um mercado global que, em boa parte, foge ao seu controle.
