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O oceano absorve um quarto das nossas emissões de carbono, mas cientistas alertam que o colapso de uma corrente vital do Atlântico pode inverter esse papel e transformar o mar em motor do aquecimento global

Publicado em 15/04/2026 às 20:16
O colapso da AMOC pode transformar o oceano em fonte de carbono e acelerar o aquecimento global. A corrente pode não se recuperar nos níveis atuais.
O colapso da AMOC pode transformar o oceano em fonte de carbono e acelerar o aquecimento global. A corrente pode não se recuperar nos níveis atuais.
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Um estudo publicado na Communications Earth & Environment revela que o colapso da AMOC, a corrente que inclui a Corrente do Golfo, pode transformar o Oceano Austral de sumidouro em fonte de carbono, liberando CO₂ e adicionando até 0,27°C de aquecimento global extra. Com o CO₂ atmosférico atual em 430 ppm, a corrente pode não se recuperar após um colapso.

O oceano tem sido o maior aliado da humanidade contra o aquecimento global, absorvendo cerca de um quarto de todas as emissões de dióxido de carbono que produzimos. Mas uma nova pesquisa publicada na Communications Earth & Environment mostra que esse papel pode se inverter de forma catastrófica. Cientistas do Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto Climático (PIK) simularam o que aconteceria se a Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (AMOC) entrasse em colapso, e os resultados são preocupantes: o Oceano Austral deixaria de absorver carbono e passaria a liberá-lo, adicionando entre 0,17°C e 0,27°C de aquecimento global além do que já está em curso.

A AMOC é o sistema de correntes profundas do Oceano Atlântico que inclui a famosa Corrente do Golfo, responsável pelas temperaturas relativamente amenas no norte da Europa. No último século, essa circulação tem se enfraquecido por causa do derretimento de geleiras, da redução do gelo polar e do aumento das temperaturas oceânicas, todos efeitos da crise climática. O estudo do PIK não apenas confirma o enfraquecimento, mas demonstra que, nos níveis atuais de CO₂ atmosférico, um colapso da AMOC poderia ser irreversível, transformando o oceano que nos protege do aquecimento global em mais um fator que o acelera.

O que é a AMOC e por que ela importa para o aquecimento global

A Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico funciona como uma esteira transportadora oceânica que move águas quentes da superfície do Atlântico em direção ao norte e águas frias e profundas de volta ao sul. Esse movimento é impulsionado pela diferença de salinidade e temperatura entre as massas de água, e desempenha um papel fundamental na regulação do clima do planeta. Sem a AMOC, o norte da Europa perderia o efeito amenizador da Corrente do Golfo, e os padrões de chuva e temperatura de todo o planeta seriam alterados.

Para o aquecimento global, a AMOC tem uma função que vai além da regulação térmica. A circulação ajuda a transportar carbono da superfície para as profundezas do oceano, onde ele fica armazenado por séculos, longe da atmosfera. Quando a AMOC funciona normalmente, o oceano absorve CO₂ de forma eficiente. Quando ela enfraquece ou colapsa, esse mecanismo de sequestro de carbono falha, e as águas profundas ricas em carbono que normalmente ficam isoladas podem subir à superfície e liberar o CO₂ de volta à atmosfera, intensificando o aquecimento global.

O que as simulações revelaram sobre o colapso e o aquecimento global

Os pesquisadores do PIK simularam diferentes cenários forçando o colapso da AMOC pela adição de água doce ao oceano, o que altera a salinidade e interrompe a circulação. No nível pré-industrial de CO₂ de 280 partes por milhão (ppm), a AMOC se recuperou quando a adição de água doce parou, demonstrando que, em condições de baixa concentração de carbono, o sistema é resiliente. A corrente pode colapsar temporariamente, mas consegue se reiniciar quando a perturbação cessa.

O cenário muda dramaticamente quando os níveis de CO₂ aumentam. Em concentrações de 350 ppm, que correspondem ao nível atmosférico registrado pela última vez em 1988, a AMOC colapsou e não se recuperou. Hoje, a concentração atmosférica de CO₂ está em 430 ppm, muito acima do limiar identificado pelo estudo. O autor principal, Da Nian, explicou que “concentrações mais altas de CO₂ alteram fundamentalmente a estabilidade da AMOC, empurrando o sistema para um regime biestável onde a AMOC poderia enfraquecer ao longo de centenas de anos antes de mudar para, e permanecer em, um estado colapsado”. Uma vez que a corrente para, ela não volta, e o aquecimento global se intensifica.

Como o colapso da AMOC transforma o oceano em fonte de aquecimento global

O mecanismo pelo qual o colapso da AMOC acelera o aquecimento global é indireto, mas poderoso. Quando a circulação para de funcionar, a mistura de águas no Oceano Austral se intensifica, trazendo águas profundas ricas em carbono para a superfície. Esse carbono, que estava armazenado nas profundezas por séculos, é então liberado para a atmosfera na forma de CO₂. O coautor Matteo Willeit explicou que “esta mudança nas temperaturas é causada por uma grande liberação de carbono do Oceano Austral, devido à mistura intensificada que traz águas profundas ricas em carbono para a superfície”.

O resultado é um ciclo de retroalimentação perigoso. O aquecimento global derrete geleiras e altera a salinidade do oceano, o que enfraquece a AMOC. A AMOC enfraquecida libera mais carbono, o que intensifica o aquecimento global, que por sua vez derrete mais geleiras e enfraquece ainda mais a circulação. O estudo estima que o colapso por si só adicionaria entre 0,17°C e 0,27°C de aquecimento global extra, um valor que parece pequeno isoladamente, mas que se soma a um planeta que já ultrapassou 1°C de aumento em relação à era pré-industrial.

Os efeitos regionais que o colapso traria além do aquecimento global

O estudo não prevê apenas aquecimento global generalizado. Sob um cenário com CO₂ em 450 ppm, a Antártida veria as temperaturas subirem 6°C, enquanto as temperaturas do Ártico cairiam 7°C devido à interrupção da transferência de calor que a AMOC normalmente realiza. Esse contraste extremo entre os polos redesenharia os padrões climáticos de todo o planeta, afetando chuvas, secas, tempestades e a produção agrícola em praticamente todos os continentes.

O norte da Europa seria uma das regiões mais atingidas. Sem o efeito amenizador da Corrente do Golfo, países como Reino Unido, Noruega, Suécia e Islândia enfrentariam invernos significativamente mais frios, em um paradoxo em que o aquecimento global produz resfriamento regional severo em algumas das áreas mais desenvolvidas do planeta. Esse cenário não é ficção científica: a AMOC já está enfraquecida, e o debate entre os cientistas não é se ela pode colapsar, mas quando isso pode acontecer.

O que o estudo significa para o futuro do aquecimento global

O diretor do PIK e coautor Johan Rockström resumiu a gravidade da descoberta em termos diretos. “O oceano tem sido nosso maior aliado, absorvendo um quarto das emissões de CO₂ feitas pelo homem. Nosso estudo mostra como um colapso da AMOC poderia virar o Oceano Austral de um sumidouro de carbono para uma fonte de carbono”, disse. A mensagem é que o oceano não é um recurso ilimitado de absorção de carbono, e que forçá-lo além de seus limites pode transformá-lo de protetor em agressor climático.

O fato de que a AMOC não se recupera em concentrações de CO₂ acima de 350 ppm, e de que o mundo já está em 430 ppm, torna o problema urgente. “Simplificando, o aumento das emissões hoje aumenta o risco de uma resposta climática mais forte no futuro”, concluiu Rockström. Para o aquecimento global, o colapso da AMOC não seria apenas mais um problema na lista: seria o momento em que o maior aliado da humanidade contra as mudanças climáticas troca de lado.

Cientistas alertam que o colapso de uma corrente do Atlântico pode transformar o oceano em motor do aquecimento global. Você acha que ainda dá tempo de evitar esse cenário? Como essa notícia muda sua percepção sobre o clima? Deixe sua opinião nos comentários.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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