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O novo mistério nas Bermudas não tem nada a ver com o Triângulo – tem a ver com o fundo do mar.

Escrito por Fabio Lucas Carvalho
Publicado em 18/12/2025 às 15:39
Camada rochosa de 20 km sob as Bermudas, detectada por 396 terremotos, explica elevação oceânica estável há mais de 30 milhões de anos
Camada rochosa de 20 km sob as Bermudas, detectada por 396 terremotos, explica elevação oceânica estável há mais de 30 milhões de anos
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Descoberta de camada rochosa de 20 quilômetros sob as Bermudas, identificada por análise de 396 terremotos, explica elevação oceânica mantida há 30 a 35 milhões de anos sem pluma mantélica ativa.

Pesquisadores identificaram sob as Bermudas uma camada rochosa de 20 quilômetros de espessura, detectada por análise sísmica de 396 terremotos, capaz de sustentar a elevação do fundo do mar há mais de 30 milhões de anos sem atividade vulcânica ativa, alterando modelos geológicos clássicos.

O arquipélago das Bermudas abriga sob o fundo do Atlântico Norte uma estrutura geológica incomum, distinta da crosta oceânica e do manto, que sustenta a elevação regional mesmo após o fim do vulcanismo ocorrido entre 30 e 35 milhões de anos atrás.

A descoberta resulta de um estudo conduzido por pesquisadores da Carnegie Institution for Science e da Universidade de Yale, publicado na revista Geophysical Research Letters, com base em análises sísmicas detalhadas realizadas a partir da estação BBSR, instalada nas Bermudas.

Diferentemente de arquipélagos como Havaí ou Galápagos, associados a pontos quentes ativos, as Bermudas não apresentam evidências de pluma mantélica atual, embora permaneçam sobre uma elevação oceânica estável, condição considerada anômala pela geofísica há décadas.

O novo trabalho identifica uma camada adicional sob a crosta oceânica, descrita como uma estrutura interna da placa tectônica, com cerca de 20 quilômetros de espessura, que atua como suporte mecânico para o relevo submarino.

Segundo os autores, essa camada funciona como uma base flutuante, impedindo o afundamento progressivo do fundo oceânico, comportamento esperado após o encerramento da atividade vulcânica responsável pela formação inicial do arquipélago.

Uma anomalia sísmica sob a crosta oceânica

A identificação da estrutura ocorreu por meio da análise de ondas sísmicas geradas por terremotos distantes, método utilizado para investigar regiões inacessíveis do interior terrestre, onde perfurações diretas são inviáveis tecnicamente.

Os pesquisadores aplicaram a técnica de função receptora do tipo P-para-S, que analisa a conversão de ondas sísmicas ao atravessar interfaces entre materiais com propriedades físicas distintas no interior do planeta.

Foram examinados dados de 396 terremotos com magnitude igual ou superior a 5,5, registrados em diferentes regiões do mundo e captados pela estação sísmica localizada nas Bermudas.

A análise revelou quatro interfaces principais abaixo da ilha, sendo a mais profunda correspondente à camada anômala situada a aproximadamente 20 quilômetros de profundidade sob a crosta oceânica local.

Essa estrutura não havia sido detectada em levantamentos sísmicos convencionais anteriores, nem registrada em modelos globais de formação de ilhas oceânicas, tornando o achado um caso sem precedentes.

De acordo com o estudo, a camada apresenta propriedades físicas compatíveis com rocha magmática solidificada, distinta tanto da crosta oceânica superior quanto do manto litosférico subjacente.

Subplacagem magmática e diferença de densidade

Os autores classificam a estrutura como uma camada de subplacagem, formada por material magmático que não alcançou a superfície durante o período de atividade vulcânica, permanecendo aprisionado sob a crosta.

Em ilhas vulcânicas mais estudadas, como Havaí ou Reunião, camadas semelhantes costumam apresentar espessuras entre 5 e 10 quilômetros, valor significativamente inferior ao observado nas Bermudas.

No caso bermudense, a camada atinge cerca de 20 quilômetros, o dobro das espessuras normalmente associadas a processos de subplacagem em ambientes oceânicos comparáveis.

O artigo publicado na Geophysical Research Letters indica que a densidade dessa camada é aproximadamente 50 kg-m³ menor que a do manto litosférico que foi deslocado durante sua formação.

Essa diferença de densidade confere flutuabilidade suficiente para sustentar a elevação do fundo do mar sem necessidade de calor adicional proveniente de uma pluma mantélica ativa.

Com isso, o estudo demonstra que uma anomalia térmica atual não é condição obrigatória para manter ondulações oceânicas de longa duração, contrariando pressupostos tradicionais da geodinâmica.

Origem associada ao vulcanismo antigo

As evidências sísmicas indicam que a camada se formou durante o período de maior atividade vulcânica na região, há mais de 30 milhões de anos, quando o arquipélago emergiu no Atlântico.

Durante esse estágio, o magma ascendente teria se acumulado na base da crosta, solidificando-se antes de alcançar a superfície, formando uma espécie de almofada rochosa interna.

Após o resfriamento, essa estrutura permaneceu estável, sem sinais de colapso, compactação ou afundamento significativo ao longo de dezenas de milhões de anos, segundo os dados analisados.

Estudos geoquímicos recentes, mencionados no trabalho, apontam que o magma associado às Bermudas era rico em voláteis e originado de regiões profundas do manto terrestre.

Esse magma profundo possivelmente se relaciona a processos antigos ligados à fragmentação do supercontinente Pangeia, o que ajuda a explicar sua composição e comportamento atípicos.

A capacidade desse material de modificar as rochas circundantes teria contribuído para a formação de uma camada espessa e mecanicamente eficiente, capaz de sustentar o relevo submarino.

Persistência da elevação oceânica

Um dos principais enigmas geológicos das Bermudas sempre foi a permanência da elevação oceânica mesmo após o encerramento do vulcanismo regional, ocorrido entre 30 e 35 milhões de anos atrás.

Em contextos semelhantes, a interrupção da atividade magmática costuma levar ao resfriamento e ao afundamento gradual da crosta, processo que não se verificou sob o arquipélago.

A presença da camada de subplacagem oferece uma explicação coerente para essa persistência, atuando como suporte estrutural independente de fontes térmicas atuais.

Os registros sísmicos não indicam sinais de atividade mantélica contemporânea sob as Bermudas, reforçando a hipótese de que a sustentação decorre exclusivamente da estrutura sólida identificada.

Essa constatação amplia a compreensão sobre mecanismos alternativos de manutenção do relevo oceânico ao longo de escalas de tempo geológicas extensas.

Limitações e extensão da estrutura

Apesar da robustez dos dados, o estudo reconhece limitações inerentes ao uso de uma única estação sísmica para caracterizar a estrutura em escala regional.

Com base nos modelos interpretativos, os pesquisadores estimam que a camada possa se estender entre 50 e 100 quilômetros além da ilha principal, embora essa dimensão ainda não possa ser confirmada com precisão.

A ausência de uma rede sísmica mais ampla impede a determinação exata dos limites laterais da estrutura e sua continuidade sob o fundo oceânico adjacente.

Mesmo assim, os autores destacam que as propriedades observadas são suficientes para explicar a elevação regional detectada e sua estabilidade ao longo de milhões de anos.

Novos levantamentos sísmicos em áreas próximas poderão esclarecer a extensão real da camada e verificar se estruturas semelhantes existem em outros pontos do Atlântico.

Um caso único na geodinâmica oceânica

Até o momento, não há registros de camadas com características semelhantes sob outros arquipélagos oceânicos conhecidos, segundo enfatiza o estudo publicado.

Embora algumas ilhas nos oceanos Pacífico e Índico apresentem indícios de subplacagem, nenhuma exibe uma estrutura tão espessa, estável e com densidade suficientemente baixa para sustentar elevação prolongada.

Os autores afirmam que as Bermudas representam, por ora, um caso único documentado desse tipo de configuração geológica interna.

Essa singularidade levanta a possibilidade de que outros sistemas oceânicos considerados anômalos possam ser reinterpretados à luz de mecanismos semelhantes, ainda não detectados.

A equipe envolvida no estudo já iniciou análises em regiões com elevações oceânicas inexplicadas, buscando identificar padrões comparáveis ao observado nas Bermudas.

Além das narrativas populares

O achado desloca o foco dos mistérios associados às Bermudas do campo da especulação para o da geologia profunda, revelando processos complexos ocultos sob o fundo do mar.

A camada de 20 quilômetros de espessura representa um registro físico de eventos ocorridos há dezenas de milhões de anos, preservado sob a crosta oceânica atual.

Mais do que explicar a origem do arquipélago, a descoberta fornece informações relevantes sobre o comportamento do manto, da crosta e das placas tectônicas em contextos oceânicos antigos.

O estudo reforça que regiões consideradas bem conhecidas ainda podem abrigar estruturas desconhecidas, acessíveis apenas por meio de técnicas geofísicas avançadas.

Ao revelar uma estrutura invisível que sustenta o relevo das Bermudas, a pesquisa amplia o entendimento sobre a dinâmica interna do planeta e mostra que alguns dos maiores enigmas geológicos permanecem ocultos, bem abaixo da superfíce oceânica.

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Fabio Lucas Carvalho

Jornalista especializado em uma ampla variedade de temas, como carros, tecnologia, política, indústria naval, geopolítica, energia renovável e economia. Atuo desde 2015 com publicações de destaque em grandes portais de notícias. Minha formação em Gestão em Tecnologia da Informação pela Faculdade de Petrolina (Facape) agrega uma perspectiva técnica única às minhas análises e reportagens. Com mais de 10 mil artigos publicados em veículos de renome, busco sempre trazer informações detalhadas e percepções relevantes para o leitor.

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