Enquanto navios de pesquisa internacional mal retiram 10 metros de sedimentos sob uma camada de gelo flutuante, uma equipe global perfurou 228 metros de lama e rocha sob o gelo Antártico.
De fato, o núcleo é 22 vezes mais longo que qualquer um já coletado. Foi extraído sob 523 metros de gelo na Antártica Ocidental.
Conforme reportou a Phys.org em fevereiro de 2026, o feito ocorreu no acampamento de campo profundo de Crary Ice Rise. A operação foi concluída em janeiro daquele ano.
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De fato, o cilindro de rocha extraído contém um registro contínuo de 23 milhões de anos de história climática do planeta. Inclui períodos em que a Terra esteve mais de 2°C acima do nível pré-industrial.

O programa internacional responsável pelo feito é o SWAIS2C — sigla para “Sensitivity of the West Antarctic Ice Sheet to 2°C”. Reúne universidades dos EUA, Reino Unido, Suíça e Alemanha.
Segundo a Universidade de Exeter, a perfuração começou em 2024 e foi finalizada em janeiro de 2026.
“Esse é o registro contínuo mais longo já recuperado abaixo de uma camada de gelo continental”, afirmou Molly Patterson, co-cientista-chefe do projeto e pesquisadora da Binghamton University, em comunicado oficial.
Como o núcleo de sedimentos foi extraído sob 523 metros de gelo
O acampamento de Crary Ice Rise fica numa elevação interna na borda da camada de gelo da Antártica Ocidental. Ali, os engenheiros tiveram que perfurar primeiro o gelo, depois o leito rochoso submerso.
Conforme a ETH Zurich, a temperatura na superfície de operação variou entre -25°C e -45°C durante o trabalho.
De fato, o equipamento usado é uma sonda de cabo desenvolvida especificamente para essa missão. O sistema atravessou camada de gelo e depois leito sedimentar contínuo.
Por isso, o registro fica selado e estratificado, sem contaminação de águas superficiais. Cada milímetro corresponde a alguns anos de deposição geológica intacta.
- 523 metros de gelo perfurados — primeira camada atravessada pela sonda
- 228 metros de núcleo recuperado — recorde absoluto sob camada de gelo
- 22x maior que cores anteriores — recorde anterior era inferior a 10 metros
- 23 milhões de anos de registro — abrange Mioceno, Plioceno, Pleistoceno e Holoceno
- 4 países envolvidos — EUA, Reino Unido, Alemanha e Suíça
Por que esse núcleo é o mais importante já extraído
O cilindro recuperado contém marcadores geoquímicos de períodos em que a Terra esteve mais quente que hoje. Igualmente, tem evidências de retração e avanço da camada de gelo Antártica em ciclos.

Conforme a Imperial College London, o material será analisado em laboratórios em quatro países nos próximos 24 meses.
Análises iniciais mostram camadas alternadas de matéria depositada em mar aberto e em ambiente coberto por gelo. Isso indica que a Antártica Ocidental retraiu e avançou múltiplas vezes.
Como resultado, modelos de previsão de retração polar ganharão dados de calibração inéditos. Hoje, esses modelos dependem de dados indiretos como sondas de gelo e satélites.
O que o estudo revela sobre o derretimento do gelo Antártico
A camada de gelo da Antártica Ocidental cobre 1,9 milhão de km². Contém água suficiente para elevar o nível dos oceanos em 3,3 metros se derretesse completamente.
Como resultado, o recorde de extração ajuda a calcular o cronograma realista do derretimento.
De acordo com a EurekAlert, o estudo já identificou episódios de retração rápida em períodos com temperatura global similar à projetada para o século 22.
Por isso, esses dados servem como referência para projeções de cenários atuais. A geologia profunda registra exatamente o que aconteceu nas últimas vezes em que o planeta esquentou.
Igualmente, o material pode trazer evidências de antigas correntes oceânicas e padrões atmosféricos. Esses elementos influenciam diretamente o regime de chuvas no hemisfério sul.
Impacto científico e a logística da próxima fase
O cilindro foi removido do acampamento via aeronave Twin Otter equipada com esquis especiais. Cada segmento foi transportado em câmara refrigerada para preservar o sedimento intacto.
Conforme reporta a Interesting Engineering, o material chegou aos laboratórios em fevereiro de 2026. As primeiras lâminas estão sendo preparadas em câmaras escuras congeladas.
De fato, análises de microfósseis e isótopos podem demorar até 5 anos para serem publicadas. Cada subseção exige técnicas de datação independentes.
Esse trabalho é comparável ao primeiro dos cores antárticos, como o EPICA Dome C, que extraiu gelo de 800 mil anos atrás em 2004.
Por outro lado, EPICA Dome C analisou apenas o gelo — sem alcançar o leito rochoso. O programa SWAIS2C foi o primeiro a integrar gelo e leito num só trabalho.
Igualmente, a região do Crary Ice Rise nunca havia sido explorada com sondagem profunda. Sua localização estratégica facilitou a logística aérea durante o verão polar.
Como os sedimentos antárticos se comparam a outros cores polares
O Brasil mantém o programa PROANTAR com bases científicas na Antártica, mas não opera sondas de subsuperfície dessa escala. A presença brasileira concentra-se em biologia, oceanografia e atmosfera.
Igualmente, parceiros como o Brasil podem se beneficiar do compartilhamento de dados públicos do SWAIS2C. Os arquivos serão liberados após 36 meses do término da análise.

Conforme reporta o Click Petróleo e Gás sobre o Oceano Austral, mudanças no oceano e na criosfera são interligadas.
De acordo com pesquisadores do programa de exploração polar dos EUA, esses núcleos guardam o maior banco de dados climático conhecido.
Ressalvas e o que ainda não foi divulgado
No entanto, o SWAIS2C não divulgou ainda dados quantitativos sobre velocidade de retração da camada de gelo. As análises iniciais são apenas qualitativas.
Apesar disso, especialistas alertam que o trabalho de datação radiométrica pode ajustar estimativas. Cada amostra precisa de validação cruzada antes de virar publicação científica formal.
Contudo, o feito de engenharia é incontestável. Extrair 228 metros de núcleo de sedimentos sob mais de meio quilômetro de gelo permanecerá como marco até que algum projeto futuro consiga superar.

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