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Cientistas extraíram 228 metros de lama e rocha sob 523 metros de gelo Antártico — maior núcleo de sedimentos já recuperado revela 23 milhões de anos de história climática do planeta

Escrito por Douglas Avila
Publicado em 09/05/2026 às 18:30
Atualizado em 09/05/2026 às 18:36
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Enquanto navios de pesquisa internacional mal retiram 10 metros de sedimentos sob uma camada de gelo flutuante, uma equipe global perfurou 228 metros de lama e rocha sob o gelo Antártico.

De fato, o núcleo é 22 vezes mais longo que qualquer um já coletado. Foi extraído sob 523 metros de gelo na Antártica Ocidental.

Conforme reportou a Phys.org em fevereiro de 2026, o feito ocorreu no acampamento de campo profundo de Crary Ice Rise. A operação foi concluída em janeiro daquele ano.

De fato, o cilindro de rocha extraído contém um registro contínuo de 23 milhões de anos de história climática do planeta. Inclui períodos em que a Terra esteve mais de 2°C acima do nível pré-industrial.

Equipe perfurando núcleo de sedimentos sob a camada de gelo Antártico
Equipe internacional opera sonda no acampamento Crary Ice Rise para extrair núcleo de sedimentos sob 523 m de gelo.

O programa internacional responsável pelo feito é o SWAIS2C — sigla para “Sensitivity of the West Antarctic Ice Sheet to 2°C”. Reúne universidades dos EUA, Reino Unido, Suíça e Alemanha.

Segundo a Universidade de Exeter, a perfuração começou em 2024 e foi finalizada em janeiro de 2026.

“Esse é o registro contínuo mais longo já recuperado abaixo de uma camada de gelo continental”, afirmou Molly Patterson, co-cientista-chefe do projeto e pesquisadora da Binghamton University, em comunicado oficial.

Como o núcleo de sedimentos foi extraído sob 523 metros de gelo

O acampamento de Crary Ice Rise fica numa elevação interna na borda da camada de gelo da Antártica Ocidental. Ali, os engenheiros tiveram que perfurar primeiro o gelo, depois o leito rochoso submerso.

Conforme a ETH Zurich, a temperatura na superfície de operação variou entre -25°C e -45°C durante o trabalho.

De fato, o equipamento usado é uma sonda de cabo desenvolvida especificamente para essa missão. O sistema atravessou camada de gelo e depois leito sedimentar contínuo.

Por isso, o registro fica selado e estratificado, sem contaminação de águas superficiais. Cada milímetro corresponde a alguns anos de deposição geológica intacta.

  • 523 metros de gelo perfurados — primeira camada atravessada pela sonda
  • 228 metros de núcleo recuperado — recorde absoluto sob camada de gelo
  • 22x maior que cores anteriores — recorde anterior era inferior a 10 metros
  • 23 milhões de anos de registro — abrange Mioceno, Plioceno, Pleistoceno e Holoceno
  • 4 países envolvidos — EUA, Reino Unido, Alemanha e Suíça

Por que esse núcleo é o mais importante já extraído

O cilindro recuperado contém marcadores geoquímicos de períodos em que a Terra esteve mais quente que hoje. Igualmente, tem evidências de retração e avanço da camada de gelo Antártica em ciclos.

Comparação visual entre o novo núcleo de sedimentos e cores anteriores
Diferença de escala: novo núcleo de 228 m versus cores anteriores de menos de 10 m.

Conforme a Imperial College London, o material será analisado em laboratórios em quatro países nos próximos 24 meses.

Análises iniciais mostram camadas alternadas de matéria depositada em mar aberto e em ambiente coberto por gelo. Isso indica que a Antártica Ocidental retraiu e avançou múltiplas vezes.

Como resultado, modelos de previsão de retração polar ganharão dados de calibração inéditos. Hoje, esses modelos dependem de dados indiretos como sondas de gelo e satélites.

O que o estudo revela sobre o derretimento do gelo Antártico

A camada de gelo da Antártica Ocidental cobre 1,9 milhão de km². Contém água suficiente para elevar o nível dos oceanos em 3,3 metros se derretesse completamente.

Como resultado, o recorde de extração ajuda a calcular o cronograma realista do derretimento.

De acordo com a EurekAlert, o estudo já identificou episódios de retração rápida em períodos com temperatura global similar à projetada para o século 22.

Por isso, esses dados servem como referência para projeções de cenários atuais. A geologia profunda registra exatamente o que aconteceu nas últimas vezes em que o planeta esquentou.

Igualmente, o material pode trazer evidências de antigas correntes oceânicas e padrões atmosféricos. Esses elementos influenciam diretamente o regime de chuvas no hemisfério sul.

Impacto científico e a logística da próxima fase

O cilindro foi removido do acampamento via aeronave Twin Otter equipada com esquis especiais. Cada segmento foi transportado em câmara refrigerada para preservar o sedimento intacto.

Conforme reporta a Interesting Engineering, o material chegou aos laboratórios em fevereiro de 2026. As primeiras lâminas estão sendo preparadas em câmaras escuras congeladas.

De fato, análises de microfósseis e isótopos podem demorar até 5 anos para serem publicadas. Cada subseção exige técnicas de datação independentes.

Esse trabalho é comparável ao primeiro dos cores antárticos, como o EPICA Dome C, que extraiu gelo de 800 mil anos atrás em 2004.

Por outro lado, EPICA Dome C analisou apenas o gelo — sem alcançar o leito rochoso. O programa SWAIS2C foi o primeiro a integrar gelo e leito num só trabalho.

Igualmente, a região do Crary Ice Rise nunca havia sido explorada com sondagem profunda. Sua localização estratégica facilitou a logística aérea durante o verão polar.

Como os sedimentos antárticos se comparam a outros cores polares

O Brasil mantém o programa PROANTAR com bases científicas na Antártica, mas não opera sondas de subsuperfície dessa escala. A presença brasileira concentra-se em biologia, oceanografia e atmosfera.

Igualmente, parceiros como o Brasil podem se beneficiar do compartilhamento de dados públicos do SWAIS2C. Os arquivos serão liberados após 36 meses do término da análise.

Equipe SWAIS2C do projeto antártico de núcleo de sedimentos
Pesquisadores do SWAIS2C celebram a recuperação do material sob a camada de gelo Antártica.

Conforme reporta o Click Petróleo e Gás sobre o Oceano Austral, mudanças no oceano e na criosfera são interligadas.

De acordo com pesquisadores do programa de exploração polar dos EUA, esses núcleos guardam o maior banco de dados climático conhecido.

Ressalvas e o que ainda não foi divulgado

No entanto, o SWAIS2C não divulgou ainda dados quantitativos sobre velocidade de retração da camada de gelo. As análises iniciais são apenas qualitativas.

Apesar disso, especialistas alertam que o trabalho de datação radiométrica pode ajustar estimativas. Cada amostra precisa de validação cruzada antes de virar publicação científica formal.

Contudo, o feito de engenharia é incontestável. Extrair 228 metros de núcleo de sedimentos sob mais de meio quilômetro de gelo permanecerá como marco até que algum projeto futuro consiga superar.

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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