Tijolos 2.0 criados por Nzambi Matee misturam plástico e areia, passam por aquecimento e prensagem, receberam licença oficial e viraram pavimentação, blocos e peças urbanas em Nairóbi
Os tijolos 2.0 surgiram no Quênia como uma resposta dupla a dois problemas gigantes: o lixo plástico acumulado nas cidades e a necessidade de materiais de construção mais acessíveis. A engenheira de materiais Nzambi Matee fundou a empresa Gjenge Makers para transformar resíduos plásticos em blocos e elementos urbanos, como pavimentos, azulejos e até tampas de bueiro, usando uma receita que troca descarte por infraestrutura.
Na prática, os tijolos 2.0 são feitos ao misturar plástico com areia, aquecer e comprimir até formar blocos sólidos. Com as proporções corretas, a estimativa é que esses blocos sejam cinco vezes mais resistentes do que tijolos tradicionais, com a vantagem adicional de manter certo grau de flexibilidade, o que reduz a chance de rachaduras em uso cotidiano.
Como os tijolos 2.0 são fabricados com plástico e areia
O processo dos tijolos 2.0 foi refinado por tentativa e erro até atingir as propriedades desejadas. Primeiro, o plástico é misturado à areia em proporções específicas. Em seguida, a mistura é alimentada em uma extrusora, onde é aquecida até o plástico atingir o ponto de fusão sem se degradar quimicamente.
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Depois, o material aquecido é despejado em moldes e uma prensa hidráulica compacta tudo para gerar alta densidade e o formato final. Ao esfriar, os blocos são removidos e formam um lote pronto para uso. É uma linha industrial simples na aparência, mas calibrada para manter consistência e resistência.
Por que a resistência e a flexibilidade viraram o diferencial

Um dos argumentos mais fortes dos tijolos 2.0 é a resistência. A empresa afirma que os blocos podem ser cinco vezes mais resistentes do que os tijolos tradicionais quando a mistura está na proporção correta. Além disso, há um ganho funcional: o material não racha com tanta facilidade porque conserva flexibilidade.
Outro dado citado é a resistência térmica, com ponto de fusão acima de 350 graus Celsius, o que ajuda a manter a forma em condições normais de uso em pavimentação urbana. Isso importa em ruas e calçadas, onde o material precisa aguentar calor e uso constante.
Onde os tijolos 2.0 já estão sendo usados
O projeto não ficou no laboratório. Os tijolos 2.0 já são usados em espaços públicos e podem servir para pavimentar ruas, calçadas, pátios e estacionamentos, além de aplicações decorativas, já que podem ser produzidos em cores diferentes.
A proposta é substituir, em várias situações, o que tradicionalmente seria feito com tijolo convencional, mas usando um material que reaproveita resíduos plásticos de alto volume.
O ponto que destrava tudo: licença oficial para uso urbano e residencial
Boa parte das alternativas ao tijolo tradicional esbarra no mesmo problema: falta de aprovação oficial. O diferencial dos tijolos 2.0 da Gjenge Makers é que eles obtiveram as licenças necessárias do Escritório de Normas do Quênia, o que permite uso em projetos urbanos e residenciais no país.
Isso muda o status do material. Ele deixa de ser “solução interessante” e vira um produto que pode entrar em obra sem ficar preso a testes informais.
Que tipos de plástico entram na mistura
Os tijolos 2.0 usam plásticos comuns que muitas vezes ficam de fora do ciclo formal de reciclagem. Entre eles estão PEAD, PEBD e PP, materiais presentes em sacolas, embalagens, frascos de detergente, cordas, baldes e vários recipientes que normalmente vão para o lixo comum.
Um dado apresentado pela startup é que, desde 2020, cerca de 200 toneladas de resíduos plásticos foram usadas para criar materiais de construção. Isso dá dimensão do potencial de escala, mesmo ainda sendo pequeno diante do volume total de lixo gerado.
O impacto social por trás da tecnologia
Além da engenharia, os tijolos 2.0 também carregam um componente social. A empresa afirma gerar empregos diretos e indiretos para mais de 600 pessoas, ligadas à coleta, seleção e fabricação, com grande participação de mulheres e jovens que enfrentam dificuldade de entrar em outras atividades econômicas.
Esse tipo de estrutura conecta economia circular, planejamento urbano e inclusão social em um mesmo projeto. Não é só reciclar, é criar uma cadeia de trabalho em torno do resíduo.
O desafio que continua existindo mesmo com tijolos 2.0 funcionando
Mesmo com licenças e uso real, existe um obstáculo que sempre aparece quando um material novo tenta virar padrão: custo por unidade, escala industrial e resistência de setores tradicionais.
Uma coisa é o produto funcionar; outra é ele se consolidar como alternativa dominante em uma indústria acostumada a materiais baratos e amplamente disponíveis.
Ainda assim, os tijolos 2.0 já provaram um ponto essencial: dá para transformar plástico descartado em infraestrutura urbana com desempenho técnico e validação oficial, e fazer isso em escala crescente.
E você, se a sua cidade adotasse tijolos 2.0 com plástico reciclado em calçadas e ruas, você confiaria mais na resistência ou ficaria com receio do material por ser feito de resíduos?


Excelente ideia colocada na prática.
Parabéns a todos os envolvidos nesse projeto.
A ideia é maravilhosa e tem grande possibilidade de vingar, se comparar a grande quantidade de resido retirado do lixo que contamina o Todo o Mundo.
Somos todos feitos de resíduos, e o que fazemos com os que produzimos faz a diferença entre sobreviver e prosperar.