O Brasil tem um dos melhores ventos de mar do mundo e a promessa de atrair cerca de R$ 1 trilhão em investimentos nas próximas décadas, mas a energia eólica offshore segue parada no cais à espera de uma assinatura que o governo adia desde o ano passado.
A conta é daquelas que impressionam. O setor estima que a exploração de parques eólicos no mar aberto pode movimentar R$ 1 trilhão ao longo dos próximos anos, transformando o litoral brasileiro numa das novas fronteiras globais de energia limpa. O problema é que, entre a promessa e o primeiro aerogerador fincado no oceano, existe um vazio regulatório que ninguém conseguiu preencher até agora.
Confesso que acompanho esse assunto há um tempo com uma sensação de déjà vu. A cada seis meses o mercado repete que o Brasil está prestes a destravar a eólica offshore, e a cada seis meses o leilão que daria a largada oficial escorrega para mais adiante.
O que exatamente está travado
O marco legal da geração de energia no mar foi aprovado em 2025, e isso deveria ter sido o sinal verde. Só que uma lei sozinha não coloca turbina nenhuma para girar. O que falta agora, segundo o próprio setor, é sair do campo jurídico e entrar no operacional: as regras detalhadas de como as áreas marítimas serão cedidas e, principalmente, o leilão de cessão dessas áreas.
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Sem esse pregão, nenhuma empresa consegue garantir onde vai instalar seus parques, e sem essa garantia ninguém libera bilhões em capital. “O mercado está ansioso pela publicação do leilão de cessão de áreas”, resume Marco Wobeto, executivo da fabricante de turbinas Mingyang no Brasil e nas Américas, um dos nomes que mais têm cobrado pressa das autoridades.

O primeiro passo já saiu, mas é tímido
Não é que nada tenha andado. Em junho, o Ibama concedeu a primeira licença prévia para um projeto eólico offshore no Brasil, no município de Areia Branca, no Rio Grande do Norte. O empreendimento prevê a instalação de apenas dois aerogeradores, com potência somada de 24,5 megawatts, um número modesto perto do trilhão prometido, mas simbólico por ser o primeiro carimbo ambiental do gênero no país.
É o tipo de avanço que mostra que a engrenagem existe, só está girando devagar. Enquanto a Europa já tem parques com centenas de turbinas cravadas no fundo do mar, o Brasil ainda discute como sair da estaca zero, e faz isso sentado sobre um potencial eólico marinho que estudos apontam entre os maiores do planeta.

Por que a demora custa caro
Cada ano de atraso tem preço. A regulamentação, segundo o setor, poderia destravar bilhões em investimentos imediatos e colocar o país no radar das grandes fabricantes globais de turbinas, que hoje decidem onde montar fábricas e cadeias de fornecimento. Se o Brasil demora, esse capital simplesmente vai para outro lugar do mundo que tenha regras mais claras.
A montagem desses parques, aliás, é uma obra em si. Ela depende de navios especiais de instalação, embarcações gigantescas capazes de erguer torres de dezenas de metros em pleno oceano, e de portos preparados para receber peças do tamanho de um prédio. É uma cadeia industrial inteira que só nasce quando há previsibilidade, e é exatamente a previsibilidade que ainda não chegou.

Um leilão que pode ficar para 2027
A expectativa mais realista hoje é de que o primeiro leilão de áreas fique para 2027, o que na prática empurra os primeiros parques comerciais para o fim da década. Para um setor que se acostumou a promessas, é mais uma data no horizonte.
Fico pensando no contraste. De um lado, um dos maiores potenciais eólicos marinhos do mundo e uma fila de investidores batendo à porta. Do outro, uma assinatura que não sai. O Brasil tem o vento, tem o mar e tem o interesse do capital. Falta destravar o papel, e o relógio do R$ 1 trilhão segue correndo.
Você acha que o Brasil vai finalmente destravar a energia eólica no mar ou vai perder essa onda de investimentos?
