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No momento em que o país alcança a montanha ‘alpina’ na casa de R$ 2 trilhões em impostos no primeiro semestre deste ano, a pergunta que não quer calar é: “para onde vai tal volume gigantesco de recursos, com que finalidade e quais são os critérios utilizados para o seu uso?”. 

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Escrito por Marcello Sigwalt Publicado em 26/06/2026 às 15:03 Atualizado em 26/06/2026 às 17:20
A qualidade do uso dos recursos arrecadados pelo governo é o primeiro questionamento que vem à tona, quando se trata do tempo recorde da marca de R$ 2 trilhões, apontada pelo Impostômetro, no primeiro semestre de 2026
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Como medida da voracidade arrecadatória federal, em 2026, a cifra astronômica será atingida no próximo sábado (27), seis dias antes que no ano anterior (3 de julho). Outro dado que atesta a ferocidade do ‘Leão tupiniquim’ dá conta de que marca idêntica só foi registrada em 2015 no dia 9 de dezembro daquele ano.

As informações constam do Impostômetro, painel mantido pela Associação Comercial de São Paulo (ACSP), ao revelar que esta foi a primeira vez que o patamar foi registrado, ainda, no primeiro semestre.

Disparada da carga tributária é insuficiente, face às despesas federais

Mas mais impressionante do que as proporções faraônicas da ‘bolada fiscalista’ é a contradição tipicamente tupiniquim: mesmo com a disparada da carga tributária, muito próxima dos 34% do PIB, a dinheirama não é suficiente para que Brasília consiga cumprir o princípio do ‘republicano’ equilíbrio fiscal. De acordo com a plataforma ‘Gasto Brasil’, de acompanhamento das despesas públicas, os gastos não financeiros do setor público já somam a bagatela de R$ 2,7 trilhões, ou seja, R$ 700 bilhões a mais do que a arrecadação federal.

Para a ACSP, a antecipação da marca tributária foi possível pela combinação de três fatores fundamentais: atividade econômica, inflação e aumento da base tributária. Este trinômio, por sua vez, decorre de medidas diversas, a exemplo da tributação de fundos exclusivos e offshores; mudanças nas subvenções estaduais; retomada da cobrança sobre combustíveis; reoneração da folha; alta do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras); aumento da tributação sobre juros sobre capital próprio; fim de benefícios para o setor de eventos e a incidência sobre apostas esportivas, entre outros.

Inflação ascendente pressiona preços de bens e serviços

Segundo o economista do Instituto de Economia Gastão Vidigal, da ACSP, Ulisses Ruiz de Gamboa, “o aquecimento da atividade econômica amplia a base de arrecadação. Ao mesmo tempo, a inflação pressiona os preços de bens e serviços e, como grande parte dos impostos incide sobre os preços, a arrecadação acompanha esse movimento”.

Colocando o ‘dedo na ferida’ – o descompasso entre receitas e despesas – do presidente da ACSP é direto: “A arrecadação cresce, mas o gasto público cresce em ritmo ainda maior. Esse descompasso é o nó central das dificuldades fiscais do país”, diz.

Brasil apresenta um dos piores retornos de impostos do planeta

Do ponto de vista de interesse do cidadão, porém, a constatação é inevitável: o Brasil apresenta um dos piores retornos de impostos do planeta, apontam rankings internacionais da área econômica. Nesse aspecto, os seguintes tópicos evidenciam a ‘má qualidade’ do gasto no país:

Despesas obrigatórias: o Orçamento é engessado por gastos engessados com a Previdência e folha de pagamentos, deixando pouco espaço discricionário para infraestrutura.

Aumento do custeio: gastos fora do teto da regra fiscal, subsídios a setores específicos e expansão de custeio continuam pressionando o Tesouro Nacional.

Críticas de controle: órgãos como o Tribunal de Contas da União (TCU) alertam para a falta de transparência em manobras orçamentárias, o que afeta a eficiência e a entrega efetiva de saúde, educação e segurança.  

Outra variável, não menos relevante, que ajuda a explicar a demanda crescente de recursos pela União é a baixa eficácia dos programas federais de transferência de renda – como o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada (BPC) — que apresentam um paradoxo: a despeito de se mostrarem ‘altamente eficazes’ no combate à extrema pobreza e no incentivo ao consumo local, estes padecem da falta de eficiência administrativa, de coordenação e de “portas de saída”.  

Entre os acertos dos programas de transferência, destaque para:

Redução da miséria monetária: estudos mostram que programas como o Bolsa Família reduzem a pobreza extrema em até 20%. O dinheiro é transferido diretamente para a ponta, movimentando o comércio e gerando empregos indiretos em municípios pequenos.

Retorno indireto: diferente de outros gastos públicos (como o custeio da máquina pública), a transferência de renda tem alto multiplicador econômico. Cada real investido retorna rapidamente para a economia na forma de consumo básico de alimentos e serviços.

Erros que implicam ‘gargalos graves na gestão dos recursos…

Apagão de controle e desorganização: uma auditoria histórica do [Tribunal de Contas da União (TCU)] revelou que o Brasil soma 914 programas de transferência de renda espalhados por estados e municípios. Desse total, mais de 60% são geridos por planilhas eletrônicas ou controles manuais, sem nenhuma integração automática com o [Cadastro Único (CadÚnico)].  

Duplicação de benefícios e filas: a falta de cruzamento de dados faz com que famílias recebam múltiplos benefícios similares de esferas diferentes (município, estado e federação), enquanto quase 1 milhão de famílias elegíveis aguardam na fila de espera do Bolsa Família sem assistência alguma.  

Beneficiários não localizados: fiscalizações do TCU identificaram um alto percentual de beneficiários não localizados e a sobrecarga nos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS), limitando a fiscalização de fraudes ou atualizações cadastrais.  

Inexistência de portas de saída: críticos e economistas ressaltam que o desenho atual foca quase exclusivamente no alívio imediato da pobreza, mas falha em integrar os beneficiários a programas robustos de qualificação profissional e inclusão produtiva. Isso perpetua a dependência do benefício por gerações.

Pressão fiscal elevada: o custo dessas transferências somado à Previdência ultrapassa a barreira de R$ 1 trilhão. Isso pressiona a inflação pelo lado do gasto público e reduz severamente a capacidade do governo de investir em infraestrutura, saúde e educação.

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Marcello Sigwalt

Sou um profissional de comunicação, especializado em Economia, Política, Meio Ambiente, Ciência & Tecnologia, Educação, Esporte e Polícia, nas quais exerci as funções de editor, repórter, consultor de comunicação e assessor de imprensa. Destaco as atividades de edição e reportagem, mediante o uso de linguagem informativa e fluente que estimule o debate, a reflexão e a consciência crítica. No período de 2003-2011, em Brasília, atuei como assessor de imprensa no Congresso Nacional (na Câmara dos Deputados e no Senado federal); consultor de comunicação do Projeto de Gestão Ambiental Rural (PGAR), do Ministério do Meio Ambiente e das Nações Unidas, em 2006; editor da Assessoria de Comunicação do Ministério de Ciência e Tecnologia (Ascom/MCTI), em 2012. Como repórter especial, assinei a capa das revistas: Veja (prisão do senador Luiz Estevão, 2000); Galileu (Peritos criminais, 2010) e Conjuntura Econômica-FGV (Comércio exterior do Brasil e Crise Argentina, 2002). Atuei como editor-assistente do Portal iG para as eleições de 2010. Em 2013, cobri a cobertura do seminário internacional sobre energia, para a Câmara de Comércio Americana do Rio de Janeiro (Amcham-Rio). De 2014 a 2015, atuei como repórter especial da revista Desafios do Desenvolvimento (Ipea); repórter da revista Brasil Energia Petróleo (RJ) e editor do site Janus Investimentos (SP), em 2018 e 2019, e redator e editor do site Capitalist. De 2022 a 2025, fui editor de Economia do jornal Correio da Manhã (RJ). Atualmente, produzo conteúdo para os sites Linkedin e Substack.

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