Como medida da voracidade arrecadatória federal, em 2026, a cifra astronômica será atingida no próximo sábado (27), seis dias antes que no ano anterior (3 de julho). Outro dado que atesta a ferocidade do ‘Leão tupiniquim’ dá conta de que marca idêntica só foi registrada em 2015 no dia 9 de dezembro daquele ano.
As informações constam do Impostômetro, painel mantido pela Associação Comercial de São Paulo (ACSP), ao revelar que esta foi a primeira vez que o patamar foi registrado, ainda, no primeiro semestre.
Disparada da carga tributária é insuficiente, face às despesas federais
Mas mais impressionante do que as proporções faraônicas da ‘bolada fiscalista’ é a contradição tipicamente tupiniquim: mesmo com a disparada da carga tributária, muito próxima dos 34% do PIB, a dinheirama não é suficiente para que Brasília consiga cumprir o princípio do ‘republicano’ equilíbrio fiscal. De acordo com a plataforma ‘Gasto Brasil’, de acompanhamento das despesas públicas, os gastos não financeiros do setor público já somam a bagatela de R$ 2,7 trilhões, ou seja, R$ 700 bilhões a mais do que a arrecadação federal.
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Para a ACSP, a antecipação da marca tributária foi possível pela combinação de três fatores fundamentais: atividade econômica, inflação e aumento da base tributária. Este trinômio, por sua vez, decorre de medidas diversas, a exemplo da tributação de fundos exclusivos e offshores; mudanças nas subvenções estaduais; retomada da cobrança sobre combustíveis; reoneração da folha; alta do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras); aumento da tributação sobre juros sobre capital próprio; fim de benefícios para o setor de eventos e a incidência sobre apostas esportivas, entre outros.
Inflação ascendente pressiona preços de bens e serviços
Segundo o economista do Instituto de Economia Gastão Vidigal, da ACSP, Ulisses Ruiz de Gamboa, “o aquecimento da atividade econômica amplia a base de arrecadação. Ao mesmo tempo, a inflação pressiona os preços de bens e serviços e, como grande parte dos impostos incide sobre os preços, a arrecadação acompanha esse movimento”.
Colocando o ‘dedo na ferida’ – o descompasso entre receitas e despesas – do presidente da ACSP é direto: “A arrecadação cresce, mas o gasto público cresce em ritmo ainda maior. Esse descompasso é o nó central das dificuldades fiscais do país”, diz.
Brasil apresenta um dos piores retornos de impostos do planeta
Do ponto de vista de interesse do cidadão, porém, a constatação é inevitável: o Brasil apresenta um dos piores retornos de impostos do planeta, apontam rankings internacionais da área econômica. Nesse aspecto, os seguintes tópicos evidenciam a ‘má qualidade’ do gasto no país:
Despesas obrigatórias: o Orçamento é engessado por gastos engessados com a Previdência e folha de pagamentos, deixando pouco espaço discricionário para infraestrutura.
Aumento do custeio: gastos fora do teto da regra fiscal, subsídios a setores específicos e expansão de custeio continuam pressionando o Tesouro Nacional.
Críticas de controle: órgãos como o Tribunal de Contas da União (TCU) alertam para a falta de transparência em manobras orçamentárias, o que afeta a eficiência e a entrega efetiva de saúde, educação e segurança.
Outra variável, não menos relevante, que ajuda a explicar a demanda crescente de recursos pela União é a baixa eficácia dos programas federais de transferência de renda – como o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada (BPC) — que apresentam um paradoxo: a despeito de se mostrarem ‘altamente eficazes’ no combate à extrema pobreza e no incentivo ao consumo local, estes padecem da falta de eficiência administrativa, de coordenação e de “portas de saída”.
Entre os acertos dos programas de transferência, destaque para:
Redução da miséria monetária: estudos mostram que programas como o Bolsa Família reduzem a pobreza extrema em até 20%. O dinheiro é transferido diretamente para a ponta, movimentando o comércio e gerando empregos indiretos em municípios pequenos.
Retorno indireto: diferente de outros gastos públicos (como o custeio da máquina pública), a transferência de renda tem alto multiplicador econômico. Cada real investido retorna rapidamente para a economia na forma de consumo básico de alimentos e serviços.
Erros que implicam ‘gargalos graves na gestão dos recursos…
Apagão de controle e desorganização: uma auditoria histórica do [Tribunal de Contas da União (TCU)] revelou que o Brasil soma 914 programas de transferência de renda espalhados por estados e municípios. Desse total, mais de 60% são geridos por planilhas eletrônicas ou controles manuais, sem nenhuma integração automática com o [Cadastro Único (CadÚnico)].
Duplicação de benefícios e filas: a falta de cruzamento de dados faz com que famílias recebam múltiplos benefícios similares de esferas diferentes (município, estado e federação), enquanto quase 1 milhão de famílias elegíveis aguardam na fila de espera do Bolsa Família sem assistência alguma.
Beneficiários não localizados: fiscalizações do TCU identificaram um alto percentual de beneficiários não localizados e a sobrecarga nos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS), limitando a fiscalização de fraudes ou atualizações cadastrais.
Inexistência de portas de saída: críticos e economistas ressaltam que o desenho atual foca quase exclusivamente no alívio imediato da pobreza, mas falha em integrar os beneficiários a programas robustos de qualificação profissional e inclusão produtiva. Isso perpetua a dependência do benefício por gerações.
Pressão fiscal elevada: o custo dessas transferências somado à Previdência ultrapassa a barreira de R$ 1 trilhão. Isso pressiona a inflação pelo lado do gasto público e reduz severamente a capacidade do governo de investir em infraestrutura, saúde e educação.
