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No Cerrado brasileiro, os campos de murundus espalham milhares de montes de até 20 metros de diâmetro e mais de 1,5 metro de altura em padrões quase regulares sobre solos encharcados, e a explicação mais aceita aponta para térmitas remodelando o terreno por séculos até criar uma paisagem que parece desenhada do alto

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 11/04/2026 às 13:45
Atualizado em 11/04/2026 às 20:52
Assista o vídeoCampos de murundus no Cerrado formam padrões geométricos com montes de até 20 metros, resultado de processos naturais subterrâneos e dinâmica hídrica do solo.
Campos de murundus no Cerrado formam padrões geométricos com montes de até 20 metros, resultado de processos naturais subterrâneos e dinâmica hídrica do solo.
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Campos de murundus no Cerrado formam padrões geométricos com montes de até 20 metros, resultado de processos naturais subterrâneos e dinâmica hídrica do solo.

Em estudos consolidados pela Embrapa e por pesquisas publicadas em periódicos científicos como o Journal of Tropical Ecology e a revista Geomorphology, pesquisadores passaram a descrever com mais precisão os campos de murundus como uma das paisagens geomorfológicas mais singulares do Cerrado brasileiro. Nessas áreas, pequenas elevações convexas de solo se repetem pela paisagem e podem estar associadas a processos subterrâneos e biogênicos, sobretudo à atividade de cupins ao longo de muitas gerações, combinada às condições locais do terreno.

Essas formações aparecem principalmente em áreas com drenagem deficiente e variações sazonais de umidade, onde os murundus funcionam como porções ligeiramente mais altas e melhor drenadas do que as depressões ao redor. É essa relação entre solo saturado nas partes baixas e relevo elevado nos montículos que ajuda a explicar por que os campos de murundus se destacam até em imagens aéreas, formando um padrão repetitivo de elevações arredondadas ao longo da paisagem.

Localizados em diferentes áreas do Brasil Central, esses campos são compostos por murundus que podem variar de 0,1 a 1,5 metro de altura e de 0,2 a mais de 20 metros de diâmetro, segundo descrições da própria Embrapa para formações savânicas com murundus. A formulação mais segura hoje é a de que essas estruturas não decorrem de um único mecanismo isolado, mas da interação entre solo, água, relevo e atividade biológica acumulada ao longo de extensos períodos.

Murundus podem ultrapassar 20 metros de diâmetro e dominar grandes áreas do Cerrado

Os murundus apresentam variações significativas de tamanho, podendo atingir mais de 20 metros de diâmetro e alturas próximas de 1,5 metro. Em determinadas regiões, essas estruturas se concentram em grande número, cobrindo extensas áreas.

A distribuição desses montes não ocorre de forma aleatória. Em muitos casos, observa-se um espaçamento relativamente regular, o que sugere a presença de mecanismos naturais de organização espacial.

A escala do fenômeno é um dos aspectos mais impressionantes, com campos inteiros compostos por centenas ou milhares de elevações distribuídas de forma relativamente uniforme, criando um padrão visual marcante quando observado do alto.

Solo encharcado e dinâmica hídrica explicam formação dos campos de murundus

Os campos de murundus estão diretamente associados a áreas com características hidrológicas específicas. O solo dessas regiões apresenta baixa drenagem e tende a acumular água durante períodos chuvosos.

Esse ambiente favorece a diferenciação do relevo. Enquanto áreas mais baixas permanecem alagadas, os murundus se destacam como elevações relativamente secas, funcionando como ilhas dentro de um sistema sazonalmente inundado.

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A presença constante de umidade influencia a estrutura do solo e a distribuição da vegetação, contribuindo para a manutenção dessas elevações ao longo do tempo.

Processos subterrâneos de reorganização do solo são apontados como fator-chave na formação dos murundus

Uma das hipóteses mais aceitas para explicar a formação dos murundus envolve processos subterrâneos que alteram a estrutura do solo ao longo do tempo.

Esses processos são capazes de redistribuir partículas, modificar a compactação do terreno e influenciar a infiltração de água. Com o passar das décadas ou séculos, essa dinâmica pode levar ao acúmulo gradual de material, formando elevações que se destacam da superfície original.

Esse mecanismo ocorre de forma contínua e cumulativa, o que explica a presença de estruturas com dimensões significativas em ambientes onde outros processos erosivos são limitados.

Interação entre fatores biológicos, hidrológicos e geomorfológicos cria padrões organizados

A formação dos murundus não pode ser atribuída a um único fator isolado. O fenômeno resulta da interação entre múltiplos processos naturais que atuam simultaneamente.

A dinâmica envolve alterações na umidade do solo, redistribuição de materiais, crescimento diferencial da vegetação e processos de compactação e erosão. Essa combinação cria um sistema complexo capaz de gerar padrões espaciais amplos e organizados.

Vista aérea do campo de murundus na Estação Ecológica de Santa Bárbara em junho de 2021 – Google Earth

Esses padrões são semelhantes aos observados em outros fenômenos naturais auto-organizados, nos quais pequenas interações locais resultam em estruturas de grande escala.

Vegetação diferenciada nos murundus reforça padrão visual observado do alto

Outro aspecto importante dos campos de murundus é a diferença na vegetação entre as áreas elevadas e as áreas ao redor.

Como os murundus permanecem relativamente mais secos, eles sustentam tipos de vegetação distintos daqueles encontrados nas áreas alagadas. Essa diferenciação cria um contraste visual que acentua o padrão das elevações na paisagem.

Em imagens aéreas, os murundus aparecem como pontos distribuídos sobre um fundo mais homogêneo, reforçando a percepção de organização espacial.

Campos de murundus se conectam a fenômenos globais de auto-organização da natureza

Os campos de murundus apresentam semelhanças com outros fenômenos naturais que exibem padrões organizados, como formações circulares em regiões áridas e estruturas geométricas em ambientes extremos.

Em todos esses casos, há um elemento comum: a auto-organização de sistemas naturais sob condições limitantes. No Cerrado, o fator predominante é a dinâmica da água no solo.

A comparação com fenômenos internacionais reforça a ideia de que padrões geométricos podem surgir naturalmente a partir de interações repetidas ao longo do tempo.

Origem dos murundus ainda é debatida pela ciência e envolve múltiplos processos

Apesar dos avanços nas pesquisas, ainda não existe consenso absoluto sobre a origem exata dos murundus. Algumas hipóteses atribuem maior peso a processos geomorfológicos, enquanto outras destacam a atuação de processos subterrâneos na reorganização do solo.

Essa divergência ocorre porque o fenômeno envolve múltiplos fatores que atuam simultaneamente, dificultando a identificação de uma única causa predominante.

Trilhas feitas pelo gado em campo de murundus na Terra Indígena Wedezé, no Mato Grosso. (Foto: James R. Welch/Funai)

Os campos de murundus demonstram que a natureza é capaz de gerar estruturas altamente organizadas sem qualquer planejamento externo. O que parece um padrão artificial é, na verdade, resultado de processos naturais que se repetem ao longo de longos períodos.

Milhares de elevações distribuídas com relativa regularidade indicam que sistemas naturais podem atingir níveis de organização comparáveis a estruturas projetadas.

Agora queremos saber: esses padrões naturais indicam organização emergente ou apenas resultado de processos físicos acumulados?

Os campos de murundus do Cerrado revelam uma paisagem moldada por processos lentos, porém altamente eficientes, na reorganização do solo e da vegetação.

Na sua visão, esses padrões são apenas consequência de interações naturais ou indicam um nível mais profundo de organização dos sistemas ambientais?

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Hércules
Hércules
14/04/2026 00:26

Acredito que esses murundus são decorrentes de cupinzeiros antigos e persistentes que criaram essa forma para sobreviver ao excesso de umidade característico dessa região. Isso explica o afastamento quase que padrão entre essas inúmeras colônias e o fato da vegetação diferenciada nesses montículos é recorrente da melhor fertilidade do solo ocasionada por esses insetos.

João Marcelo de rezende
João Marcelo de rezende
Em resposta a  Hércules
15/04/2026 21:56

Estudei campo de murunduns durante minha graduacao em engenharia florestal na UnB nos anos 90, no DF.
Os estudei sob o aspecto floristico, tendo catalogado mais de 600 especies nativas do bioma cerrado em área de 260 hectares ( Parque Boca da Mata) situado em uma área urbana remanescente de vegetação nativa.
A grande riqueza de espécies se deve pela característica de ambiente seco e úmido ocupando uma mesma área de forma homogênea.
Ver o artigo do periódico do herbário Ezechias Paulo Heringer, do jardim botânico de Brasília. 2004.

Fonte
Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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