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No Brasil, pescadores viram “faxineiros” dos manguezais e removem 46 toneladas de lixo para tentar ressuscitar berçários naturais sufocados por plástico, pneus, sofás e mais de 1 milhão de itens descartados nas baías de Guanabara e Sepetiba

Escrito por Ana Alice
Publicado em 04/06/2026 às 23:19
Atualizado em 04/06/2026 às 23:23
Assista o vídeoPescadores retiram 46 toneladas de lixo de manguezais no Rio e ajudam a proteger berçários naturais da Baía de Guanabara. (Imagem: Ilustrativa)
Pescadores retiram 46 toneladas de lixo de manguezais no Rio e ajudam a proteger berçários naturais da Baía de Guanabara. (Imagem: Ilustrativa)
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Operação de limpeza em manguezais do Rio reúne pescadores, catadores e comunidades tradicionais em áreas pressionadas por resíduos, com toneladas removidas e registros que mostram a dimensão do lixo nos berçários naturais costeiros.

Pescadores e catadores de caranguejo retiraram mais de 46 toneladas de resíduos de áreas de manguezal nas baías de Guanabara e de Sepetiba, no Rio de Janeiro, em uma operação que combina limpeza ambiental, geração de renda temporária e apoio à conservação de ecossistemas costeiros usados como área de reprodução e abrigo por diferentes espécies.

A ação, chamada Operação LimpaOca, integra o Projeto Do Mangue ao Mar e é conduzida pela ONG Guardiões do Mar, em convênio com a Transpetro.

Entre junho de 2024 e julho de 2025, o trabalho alcançou 13 hectares de manguezais, sendo quatro na Baía de Guanabara e nove na Baía de Sepetiba, segundo dados divulgados pela iniciativa e pela Agência Brasil.

Além do peso recolhido, a quantidade de objetos descartados também chama atenção.

Conforme levantamento publicado sobre a operação, a força-tarefa retirou mais de 1 milhão de itens desses ambientes, entre embalagens plásticas, pneus, tecidos, vidro, borracha, madeira, materiais de pesca e outros resíduos encontrados nas áreas de mangue.

Manguezais funcionam como berçários naturais

Os manguezais são descritos por pesquisadores e órgãos ambientais como áreas de reprodução, alimentação e abrigo para peixes, crustáceos, moluscos e aves.

Por isso, esses ambientes são frequentemente chamados de berçários naturais, já que abrigam fases iniciais do ciclo de vida de diversas espécies.

A estrutura formada pelas raízes ajuda a reter sedimentos, proteger margens e criar refúgios para organismos aquáticos.

Em áreas costeiras, esse tipo de vegetação também contribui para reduzir processos de erosão e manter a dinâmica natural entre rios, marés e fauna associada.

Quando resíduos se acumulam nesses locais, a circulação da água pode ser prejudicada, e animais ficam expostos a materiais cortantes, fragmentos plásticos e objetos que podem causar aprisionamento.

Sacolas, garrafas e pedaços de tecido, por exemplo, podem ficar presos às raízes e dificultar o desenvolvimento da vegetação.

Nesse contexto, a retirada do lixo tem efeito ambiental e social.

A operação reduz a presença de resíduos no manguezal, diminui riscos para quem trabalha nesses espaços e melhora as condições de circulação de pessoas e animais em áreas usadas pela pesca artesanal e pela catação de caranguejo.

Baía de Guanabara concentra área chamada “Ilha de Lixo”

Na Baía de Guanabara, uma das frentes da operação ocorre na chamada “Ilha de Lixo”, área identificada pela concentração de plásticos, pneus, sofás e outros materiais descartados.

O ponto fica a cerca de 20 quilômetros dos manguezais da Área de Proteção Ambiental de Guapimirim, na Região Metropolitana do Rio.

Somente nessa região, foram recolhidos 42.886 quilos de resíduos.

O trabalho contou com 84 pescadores e catadores de caranguejo de comunidades do entorno, entre elas Saracuruna, em Duque de Caxias, além de Suruí e Guia de Pacobaíba, em Magé.

A Baía de Sepetiba também recebeu ações da Operação LimpaOca.

Na Ilha da Madeira, outro ponto da Região Metropolitana, os trabalhadores recolheram 3.177 quilos de resíduos, com participação de 21 caiçaras.

Os números indicam que a maior parte do material retirado até julho de 2025 estava concentrada na Baía de Guanabara.

A região recebe influência de áreas urbanas densamente povoadas, rios e canais que transportam resíduos até o ambiente costeiro, fator apontado por especialistas como um dos desafios para a gestão ambiental da baía.

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Plástico lidera resíduos retirados dos manguezais

Entre os materiais identificados na operação, o plástico foi o mais frequente em volume de peso.

Foram 38.347 quilos desse tipo de resíduo, incluindo embalagens, garrafas, sacolas e fragmentos espalhados pelo manguezal.

Os produtos têxteis somaram 3.277 quilos.

A borracha, categoria que inclui pneus e materiais semelhantes, chegou a 1.977 quilos.

Já o vidro respondeu por 1.264 quilos, enquanto a madeira totalizou 662 quilos.

A operação também registrou 21 quilos de materiais de pesca e 4 quilos de metal.

Embora apareçam em menor quantidade na medição por peso, esses itens exigem atenção por causa do risco de ferimentos e da possibilidade de permanecerem presos à vegetação ou ao solo lodoso do mangue.

O trabalho de remoção depende do conhecimento de quem circula nesses ambientes.

Pescadores e catadores conhecem a variação da maré, os trechos de acesso mais difícil, os pontos onde o solo oferece risco e as áreas em que os resíduos costumam se acumular.

Limpeza gera renda durante o defeso do caranguejo-uçá

A operação também tem impacto econômico para comunidades tradicionais.

Os participantes recebem uma bolsa-auxílio custeada pela Transpetro, o que garante uma fonte temporária de renda em períodos nos quais a captura do caranguejo-uçá é proibida.

O defeso do caranguejo-uçá ocorre entre outubro e dezembro, quando a atividade fica suspensa para proteger o ciclo reprodutivo da espécie.

Para famílias que dependem da catação e da pesca artesanal, a interrupção representa uma mudança direta na renda mensal.

Com a participação na limpeza, pescadores e catadores atuam em uma atividade ligada ao próprio território de trabalho.

A iniciativa reduz a retirada do crustáceo durante o período de proteção e mantém parte dos trabalhadores vinculada a ações de conservação do manguezal.

O gerente operacional do Projeto Do Mangue ao Mar, Rodrigo Gaião, afirmou que a retirada do lixo contribui para que o ambiente realize seus serviços ecossistêmicos de forma mais eficiente.

Segundo ele, a participação de pescadores e catadores também fortalece a sociobiodiversidade e a economia das comunidades envolvidas.

Conhecimento tradicional ajuda na coleta de resíduos

A Operação LimpaOca foi idealizada em 2001 pelo catador de caranguejo Adílio Campos, da Ilha de Itaoca, e passou a ser mantida como uma ação contínua pela ONG Guardiões do Mar.

Para o presidente da organização, Pedro Belga, a iniciativa não se limita à retirada de resíduos.

Ele afirma que o projeto também promove boas práticas e troca de conhecimento com trabalhadores que dependem diretamente do manguezal para viver.

Ao comentar a relação entre conservação e renda, Belga resumiu: “Sem mangue, sem peixe”.

A segurança aparece como outro efeito prático da limpeza.

A retirada de ferro, seringas, vidros e objetos cortantes reduz a exposição de pescadores, catadores e moradores a materiais que podem causar acidentes durante a circulação no mangue.

Alaido Malafaia, da Cooperativa Manguezal Fluminense, relatou a presença de espécies como colhereiros-rosas, golfinhos e lontras na região.

Segundo ele, esses animais dependem da conservação do ambiente, assim como as comunidades que vivem da pesca e da catação.

Turismo comunitário e educação ambiental no mangue

A limpeza dos manguezais também é apontada por representantes locais como uma condição importante para atividades de educação ambiental e turismo de base comunitária.

Rafael dos Santos, presidente da Associação de Catadores de Caranguejo de Magé, afirma que um manguezal com menos resíduos recebe melhor visitantes interessados em observar espécies como o caranguejo-uçá.

Segundo ele, a operação remove tanto objetos grandes quanto resíduos menores, espalhados em áreas internas do mangue.

Esse tipo de limpeza exige deslocamento por trechos de difícil acesso e atenção ao material que fica misturado ao solo, às raízes e à vegetação.

A presença de pescadores e catadores na operação também permite registrar mudanças percebidas no cotidiano do manguezal.

Esses trabalhadores acompanham a variação das marés, a presença de animais, os locais de maior acúmulo de lixo e os efeitos da poluição sobre as áreas de pesca e catação.

Esse conhecimento local pode complementar ações técnicas de conservação, especialmente em regiões onde o monitoramento contínuo depende da participação das comunidades.

A operação, nesse sentido, aproxima trabalho tradicional, limpeza ambiental e observação direta do ecossistema.

A permanência de resíduos nos manguezais não afeta apenas a paisagem.

Ela interfere em áreas usadas por espécies aquáticas, aves e crustáceos, além de dificultar a atividade de trabalhadores que dependem desses ambientes.

Em uma região onde o lixo urbano chega aos berçários naturais pela maré, pelos rios e pelo descarte irregular, parte da recuperação dos manguezais também depende da forma como as cidades lidam com seus resíduos.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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