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Em uma cidade do Nordeste brasileiro, 1.200 moradores vivem uma pesadelo silencioso: o chão está se abrindo perto de casas, ruas e prédios, enquanto crateras gigantes avançam sobre bairros inteiros

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Escrito por Noel Budeguer Publicado em 04/07/2026 às 19:09 Atualizado em 04/07/2026 às 19:11
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As voçorocas que avançam no interior do Nordeste expõem uma crise urbana marcada por solo frágil, chuvas intensas, ocupação desordenada e falhas de drenagem. O problema ameaça cerca de 1.200 moradores e coloca centenas de casas em áreas de alto risco.
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As voçorocas que avançam no interior do Nordeste expõem uma crise urbana marcada por solo frágil, chuvas intensas, ocupação desordenada e falhas de drenagem. O problema ameaça cerca de 1.200 moradores e coloca centenas de casas em áreas de alto risco.

A terra está cedendo.

Em Buriticupu, no interior do Maranhão, enormes voçorocas avançam perto de casas, ruas e prédios, criando uma das imagens urbanas mais impactantes do país. O problema não nasceu agora. Segundo o Serviço Geológico do Brasil, o processo erosivo é acompanhado desde 2014, mas se arrasta há décadas e ganhou força com chuvas, solo arenoso, ocupação desordenada e falta de drenagem adequada.

O dado mais forte aparece no Decreto nº 002/2025 da Prefeitura de Buriticupu. O município declarou calamidade pública em áreas afetadas por erosões e apontou cerca de 1.200 pessoas, em aproximadamente 250 moradias, vivendo em situação de alto risco.

O que são as crateras que avançam pela cidade

Voçoroca avança ao lado de casas e ruas no interior do Nordeste brasileiro, expondo o risco de erosão urbana que ameaça moradores e transforma bairros inteiros em áreas vulneráveis.
Voçoroca avança ao lado de casas e ruas no interior do Nordeste brasileiro, expondo o risco de erosão urbana que ameaça moradores e transforma bairros inteiros em áreas vulneráveis.

Apesar de chamadas popularmente de crateras, as formações são voçorocas, erosões profundas provocadas principalmente pela ação da água da chuva sobre solos frágeis e desprotegidos.

O Serviço Geológico do Brasil explica que o fenômeno pode avançar rapidamente, especialmente no período chuvoso. Em Buriticupu, o terreno tem substrato arenoso e muito friável, condição que facilita o crescimento de erosões de pequena, média e grande proporção.

Essa combinação ajuda a entender por que a paisagem mudou tanto. O que começa como uma abertura no solo pode se transformar em um grande barranco, engolindo trechos de ruas e deixando casas à beira do vazio.

1.200 moradores vivem sob risco em áreas afetadas

O decreto municipal cita bairros como Caeminha, Centro, Vila Isaías, Santos Dumont, Eco Buriti, Terra Bela, Sagrima e Terceira Vicinal entre as áreas atingidas. A situação levou a Prefeitura a autorizar medidas emergenciais, como evacuação em caso de risco iminente, uso de propriedades particulares em situação de perigo público e contratação emergencial para obras e serviços ligados ao desastre.

Os números variam conforme a fonte e o ano analisado. O Serviço Geológico do Brasil já havia apontado, em avaliação de 2018, cerca de 1,4 mil pessoas em dez localidades de alto risco geológico. Já o decreto de 2025 fala em 1.200 pessoas e cerca de 250 moradias em alto risco.

De 26 a 33 voçorocas, conforme os levantamentos

Voçoroca gigante avança em área verde próxima a bairros residenciais no Nordeste brasileiro, mostrando a dimensão da erosão que ameaça casas, ruas e moradores em áreas de risco.
Voçoroca gigante avança em área verde próxima a bairros residenciais no Nordeste brasileiro, mostrando a dimensão da erosão que ameaça casas, ruas e moradores em áreas de risco.

Em 2023 e 2025, fontes oficiais e reportagens citavam 26 voçorocas em Buriticupu, algumas com até 600 metros de extensão e 70 metros de profundidade, segundo informações reunidas pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional.

Em 2026, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas informou que o município já somava 33 crateras. Técnicos analisaram cerca de 25 pontos com processos erosivos ativos para preparar diagnóstico e recomendações de contenção.

Um estudo sobre a evolução espacial das voçorocas entre 2014 e 2022 apontou crescimento de 74,76% no comprimento total e de 104,01% na área degradada. A mesma pesquisa identificou risco à integridade de edificações em 18 voçorocas.

Chuvas, solo frágil e cidade sem drenagem adequada

A explicação não está em um único fator. Estudos citados pela Revista GeoUECE relacionam o avanço das voçorocas à erodibilidade do solo, ao relevo irregular, à impermeabilização de vias, ao direcionamento de águas pluviais e esgoto para encostas e à ocupação de áreas vulneráveis.

A Agência Brasil ouviu o professor Marcelino Farias, da Universidade Federal do Maranhão, que classificou Buriticupu como um caso de mau uso do solo urbano. A avaliação aponta para uma mistura perigosa: terreno frágil, desmatamento, falta de planejamento e ausência de projetos eficientes de drenagem.

O resultado aparece no cotidiano dos moradores. Casas ficam próximas de bordas instáveis, ruas perdem continuidade e famílias vivem com medo de que uma nova chuva amplie as rachaduras no terreno.

Obras, Justiça e pressão por respostas

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O Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional reconheceu a situação de emergência em fevereiro de 2025, permitindo que o município solicitasse recursos federais para ações de defesa civil. A pasta informou ainda o repasse de R$ 32,9 milhões, em agosto de 2024, para ações de defesa civil, projetos e obras de drenagem em Buriticupu.

Na esfera judicial, o Ministério Público do Maranhão ajuizou Ação Civil Pública em 2022. Em 2025, a Justiça determinou medidas como isolamento e sinalização das áreas de risco, atualização do cadastro das famílias, aluguel social para moradores em risco iminente e plano de obras.

Em 2026, o Ministério Público informou que a Justiça negou novo prazo à Prefeitura e exigiu comprovação das obrigações, com previsão de multa em caso de descumprimento.

Buriticupu é mais que uma cidade marcada por buracos gigantes. O caso mostra como a falta de planejamento urbano, drenagem e proteção ambiental pode transformar a chuva em ameaça permanente, empurrando famílias para uma convivência diária com o risco de ver o próprio bairro desaparecer aos poucos.

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Noel Budeguer

Sou jornalista argentino baseado no Rio de Janeiro, com foco em energia e geopolítica, além de tecnologia e assuntos militares. Produzo análises e reportagens com linguagem acessível, dados, contexto e visão estratégica sobre os movimentos que impactam o Brasil e o mundo. 📩 Contato: noelbudeguer@gmail.com

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