As voçorocas que avançam no interior do Nordeste expõem uma crise urbana marcada por solo frágil, chuvas intensas, ocupação desordenada e falhas de drenagem. O problema ameaça cerca de 1.200 moradores e coloca centenas de casas em áreas de alto risco.
A terra está cedendo.
Em Buriticupu, no interior do Maranhão, enormes voçorocas avançam perto de casas, ruas e prédios, criando uma das imagens urbanas mais impactantes do país. O problema não nasceu agora. Segundo o Serviço Geológico do Brasil, o processo erosivo é acompanhado desde 2014, mas se arrasta há décadas e ganhou força com chuvas, solo arenoso, ocupação desordenada e falta de drenagem adequada.
O dado mais forte aparece no Decreto nº 002/2025 da Prefeitura de Buriticupu. O município declarou calamidade pública em áreas afetadas por erosões e apontou cerca de 1.200 pessoas, em aproximadamente 250 moradias, vivendo em situação de alto risco.
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O que são as crateras que avançam pela cidade

Apesar de chamadas popularmente de crateras, as formações são voçorocas, erosões profundas provocadas principalmente pela ação da água da chuva sobre solos frágeis e desprotegidos.
O Serviço Geológico do Brasil explica que o fenômeno pode avançar rapidamente, especialmente no período chuvoso. Em Buriticupu, o terreno tem substrato arenoso e muito friável, condição que facilita o crescimento de erosões de pequena, média e grande proporção.
Essa combinação ajuda a entender por que a paisagem mudou tanto. O que começa como uma abertura no solo pode se transformar em um grande barranco, engolindo trechos de ruas e deixando casas à beira do vazio.
1.200 moradores vivem sob risco em áreas afetadas
O decreto municipal cita bairros como Caeminha, Centro, Vila Isaías, Santos Dumont, Eco Buriti, Terra Bela, Sagrima e Terceira Vicinal entre as áreas atingidas. A situação levou a Prefeitura a autorizar medidas emergenciais, como evacuação em caso de risco iminente, uso de propriedades particulares em situação de perigo público e contratação emergencial para obras e serviços ligados ao desastre.
Os números variam conforme a fonte e o ano analisado. O Serviço Geológico do Brasil já havia apontado, em avaliação de 2018, cerca de 1,4 mil pessoas em dez localidades de alto risco geológico. Já o decreto de 2025 fala em 1.200 pessoas e cerca de 250 moradias em alto risco.
De 26 a 33 voçorocas, conforme os levantamentos

Em 2023 e 2025, fontes oficiais e reportagens citavam 26 voçorocas em Buriticupu, algumas com até 600 metros de extensão e 70 metros de profundidade, segundo informações reunidas pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional.
Em 2026, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas informou que o município já somava 33 crateras. Técnicos analisaram cerca de 25 pontos com processos erosivos ativos para preparar diagnóstico e recomendações de contenção.
Um estudo sobre a evolução espacial das voçorocas entre 2014 e 2022 apontou crescimento de 74,76% no comprimento total e de 104,01% na área degradada. A mesma pesquisa identificou risco à integridade de edificações em 18 voçorocas.
Chuvas, solo frágil e cidade sem drenagem adequada
A explicação não está em um único fator. Estudos citados pela Revista GeoUECE relacionam o avanço das voçorocas à erodibilidade do solo, ao relevo irregular, à impermeabilização de vias, ao direcionamento de águas pluviais e esgoto para encostas e à ocupação de áreas vulneráveis.
A Agência Brasil ouviu o professor Marcelino Farias, da Universidade Federal do Maranhão, que classificou Buriticupu como um caso de mau uso do solo urbano. A avaliação aponta para uma mistura perigosa: terreno frágil, desmatamento, falta de planejamento e ausência de projetos eficientes de drenagem.
O resultado aparece no cotidiano dos moradores. Casas ficam próximas de bordas instáveis, ruas perdem continuidade e famílias vivem com medo de que uma nova chuva amplie as rachaduras no terreno.
Obras, Justiça e pressão por respostas
O Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional reconheceu a situação de emergência em fevereiro de 2025, permitindo que o município solicitasse recursos federais para ações de defesa civil. A pasta informou ainda o repasse de R$ 32,9 milhões, em agosto de 2024, para ações de defesa civil, projetos e obras de drenagem em Buriticupu.
Na esfera judicial, o Ministério Público do Maranhão ajuizou Ação Civil Pública em 2022. Em 2025, a Justiça determinou medidas como isolamento e sinalização das áreas de risco, atualização do cadastro das famílias, aluguel social para moradores em risco iminente e plano de obras.
Em 2026, o Ministério Público informou que a Justiça negou novo prazo à Prefeitura e exigiu comprovação das obrigações, com previsão de multa em caso de descumprimento.
Buriticupu é mais que uma cidade marcada por buracos gigantes. O caso mostra como a falta de planejamento urbano, drenagem e proteção ambiental pode transformar a chuva em ameaça permanente, empurrando famílias para uma convivência diária com o risco de ver o próprio bairro desaparecer aos poucos.

