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No Brasil, caminhoneiros encaram fila de 45 km, até 3 dias sem água e sem banheiro para descarregar soja, enquanto a safra recorde escancara o colapso da logística brasileira

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Escrito por Ana Alice Publicado em 16/03/2026 às 23:48
Assista o vídeoMotoristas enfrentam fila de 45 km e até 3 dias sem água ou banheiro para descarregar soja no porto de Miritituba, no Pará.
Motoristas enfrentam fila de 45 km e até 3 dias sem água ou banheiro para descarregar soja no porto de Miritituba, no Pará.
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O avanço da safra pelo Norte do país revela entraves logísticos que se repetem em corredores estratégicos e afetam a rotina nas estradas, os custos do transporte e a operação dos portos em um dos principais eixos do agronegócio.

Caminhoneiros que transportaram soja para o porto de Miritituba, no sudoeste do Pará, relataram espera de até três dias para descarregar, falta de água potável, ausência de banheiros e filas na BR-163 durante o pico do escoamento da safra.

No fim de fevereiro, a retenção chegou a cerca de 45 quilômetros, segundo relatos reunidos em reportagem exibida pelo g1 em 15 de março de 2026.

Porto de Miritituba e filas na BR-163 durante a safra

O episódio ocorreu em um dos principais pontos de saída de grãos do chamado Arco Norte, corredor usado por cargas que saem de Mato Grosso em direção aos terminais do Pará.

Durante a colheita da soja, o aumento do fluxo de caminhões costuma pressionar os acessos rodoviários e a capacidade de recepção dos portos da região.

Na rotina de espera, os motoristas disseram ter permanecido horas, e em alguns casos dias, parados antes de chegar ao terminal.

Um dos relatos reproduzidos na cobertura do caso resume a falta de estrutura: “Banho era no igarapé, banheiro era o mato. Não tem o que fazer”, afirmou o caminhoneiro Álvaro José Dancini, segundo o g1.

Outro motorista relatou ter ficado cerca de 40 horas na rodovia e mais 12 horas dentro do porto até concluir a descarga.

Nesse período, alimentação, higiene e descanso dependeram do que cada profissional levava no caminhão ou conseguia encontrar em estabelecimentos próximos, de acordo com os depoimentos.

Impacto da fila no frete e na rotina dos caminhoneiros

Além das condições de permanência, a espera afeta o faturamento dos transportadores.

Em muitas operações, o frete não remunera o tempo excedente de fila.

Com isso, o caminhoneiro permanece parado sem nova viagem, enquanto seguem as despesas com alimentação, manutenção e combustível.

Segundo representantes do setor ouvidos na cobertura do caso, esse tipo de retenção se repete nos meses de colheita, quando o volume de caminhões aumenta de forma concentrada nas rotas de exportação.

A combinação entre safra elevada e capacidade limitada de recepção ajuda a explicar os congestionamentos nos acessos portuários.

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Safra de soja 2025/26 pressiona a logística do Arco Norte

O cenário de 2026 coincidiu com mais uma projeção recorde para a produção de soja.

No sexto levantamento da safra 2025/26, divulgado em 13 de março, a Companhia Nacional de Abastecimento estimou a colheita brasileira em 177,8 milhões de toneladas.

Para o total de grãos, a projeção foi de 353,4 milhões de toneladas.

Com maior volume para escoar, cresce também a demanda por transporte e por estrutura de descarga nos terminais do Norte.

Miritituba integra uma rota que ganhou relevância nos últimos anos por encurtar distâncias para parte da produção do Centro-Oeste destinada à exportação, segundo agentes do setor logístico e entidades do agronegócio.

Ainda assim, a ampliação do fluxo de cargas não elimina os gargalos operacionais.

Em 23 de fevereiro de 2026, a Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso informou ter registrado fila de 25 quilômetros em Miritituba durante visita técnica ao corredor logístico.

Antes disso, em 29 de janeiro, o telejornal Bom Dia Pará mostrou congestionamento de 30 quilômetros em Itaituba, também ligado ao acesso aos portos da região.

Gargalos da infraestrutura e dependência do transporte rodoviário

Os registros indicam que o problema não se limita a um episódio isolado.

Na avaliação de entidades do setor, a repetição das filas durante a safra mostra a dificuldade de absorver, em janelas curtas, um volume elevado de caminhões com destino aos terminais do Arco Norte.

A dependência do transporte rodoviário também aparece entre os fatores apontados para esse quadro.

De acordo com o Plano Nacional de Logística, o modal rodoviário responde por 65% do transporte de cargas em tonelada-quilômetro útil no Brasil.

Quando há retenção em trechos estratégicos, os efeitos se espalham pela cadeia de escoamento.

Os custos não recaem apenas sobre o motorista.

Segundo especialistas em logística, atrasos prolongados em pontos de descarga podem elevar despesas de transporte, afetar a programação de embarques e pressionar contratos ao longo da cadeia.

Em setores voltados à exportação, essas variações têm impacto sobre a eficiência da operação.

Dados da Confederação Nacional do Transporte ajudam a dimensionar outro aspecto do problema.

Em 2025, a entidade informou que somente 12,3% da malha rodoviária brasileira é pavimentada.

A CNT também apontou que deficiências no pavimento aumentam, em média, o custo operacional do transporte rodoviário.

@canalruraloficial

As péssimas condições de trafegabilidade na estrada que dá acesso aos terminais portuários de Miritituba provocam longas filas de caminhões carregados de soja e deixam o setor produtivo de Mato Grosso, em pleno pico da colheita da safra da oleaginosa, em estado de alerta. A preocupação é com o custo do frete e com a falta de caminhões em pleno pico da colheita do grão. Confira na reportagem de Pedro Silvestre e Israel Baumann.

♬ som original – Canal Rural

Armazenagem agrícola e capacidade de escoamento da safra

A armazenagem é outro ponto citado por especialistas e órgãos oficiais.

No primeiro semestre de 2025, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística informou que a capacidade nacional de armazenamento agrícola chegou a 231,1 milhões de toneladas.

O volume, embora maior que o registrado no levantamento anterior, permanece abaixo da produção total de grãos projetada pela Conab para a safra 2025/26.

Na prática, essa diferença reduz a margem para reter parte da produção fora das estradas e concentra o envio de cargas no período da colheita.

Com menos espaço disponível para estocagem, aumenta a tendência de deslocamento simultâneo de caminhões rumo aos portos, especialmente nas semanas de maior intensidade da safra.

Para especialistas em infraestrutura, o gargalo combina fatores rodoviários, portuários e de armazenagem.

O aumento da produção exige não apenas acesso viário, mas também pátios, áreas de apoio, organização de fluxo e capacidade de recebimento compatível com o volume transportado.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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