O avanço da safra pelo Norte do país revela entraves logísticos que se repetem em corredores estratégicos e afetam a rotina nas estradas, os custos do transporte e a operação dos portos em um dos principais eixos do agronegócio.
Caminhoneiros que transportaram soja para o porto de Miritituba, no sudoeste do Pará, relataram espera de até três dias para descarregar, falta de água potável, ausência de banheiros e filas na BR-163 durante o pico do escoamento da safra.
No fim de fevereiro, a retenção chegou a cerca de 45 quilômetros, segundo relatos reunidos em reportagem exibida pelo g1 em 15 de março de 2026.
Porto de Miritituba e filas na BR-163 durante a safra
O episódio ocorreu em um dos principais pontos de saída de grãos do chamado Arco Norte, corredor usado por cargas que saem de Mato Grosso em direção aos terminais do Pará.
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Durante a colheita da soja, o aumento do fluxo de caminhões costuma pressionar os acessos rodoviários e a capacidade de recepção dos portos da região.
Na rotina de espera, os motoristas disseram ter permanecido horas, e em alguns casos dias, parados antes de chegar ao terminal.

Um dos relatos reproduzidos na cobertura do caso resume a falta de estrutura: “Banho era no igarapé, banheiro era o mato. Não tem o que fazer”, afirmou o caminhoneiro Álvaro José Dancini, segundo o g1.
Outro motorista relatou ter ficado cerca de 40 horas na rodovia e mais 12 horas dentro do porto até concluir a descarga.
Nesse período, alimentação, higiene e descanso dependeram do que cada profissional levava no caminhão ou conseguia encontrar em estabelecimentos próximos, de acordo com os depoimentos.
Impacto da fila no frete e na rotina dos caminhoneiros
Além das condições de permanência, a espera afeta o faturamento dos transportadores.
Em muitas operações, o frete não remunera o tempo excedente de fila.
Com isso, o caminhoneiro permanece parado sem nova viagem, enquanto seguem as despesas com alimentação, manutenção e combustível.
Segundo representantes do setor ouvidos na cobertura do caso, esse tipo de retenção se repete nos meses de colheita, quando o volume de caminhões aumenta de forma concentrada nas rotas de exportação.
A combinação entre safra elevada e capacidade limitada de recepção ajuda a explicar os congestionamentos nos acessos portuários.
Safra de soja 2025/26 pressiona a logística do Arco Norte
O cenário de 2026 coincidiu com mais uma projeção recorde para a produção de soja.
No sexto levantamento da safra 2025/26, divulgado em 13 de março, a Companhia Nacional de Abastecimento estimou a colheita brasileira em 177,8 milhões de toneladas.
Para o total de grãos, a projeção foi de 353,4 milhões de toneladas.
Com maior volume para escoar, cresce também a demanda por transporte e por estrutura de descarga nos terminais do Norte.
Miritituba integra uma rota que ganhou relevância nos últimos anos por encurtar distâncias para parte da produção do Centro-Oeste destinada à exportação, segundo agentes do setor logístico e entidades do agronegócio.
Ainda assim, a ampliação do fluxo de cargas não elimina os gargalos operacionais.
Em 23 de fevereiro de 2026, a Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso informou ter registrado fila de 25 quilômetros em Miritituba durante visita técnica ao corredor logístico.
Antes disso, em 29 de janeiro, o telejornal Bom Dia Pará mostrou congestionamento de 30 quilômetros em Itaituba, também ligado ao acesso aos portos da região.
Gargalos da infraestrutura e dependência do transporte rodoviário
Os registros indicam que o problema não se limita a um episódio isolado.
Na avaliação de entidades do setor, a repetição das filas durante a safra mostra a dificuldade de absorver, em janelas curtas, um volume elevado de caminhões com destino aos terminais do Arco Norte.
A dependência do transporte rodoviário também aparece entre os fatores apontados para esse quadro.
De acordo com o Plano Nacional de Logística, o modal rodoviário responde por 65% do transporte de cargas em tonelada-quilômetro útil no Brasil.
Quando há retenção em trechos estratégicos, os efeitos se espalham pela cadeia de escoamento.
Os custos não recaem apenas sobre o motorista.
Segundo especialistas em logística, atrasos prolongados em pontos de descarga podem elevar despesas de transporte, afetar a programação de embarques e pressionar contratos ao longo da cadeia.
Em setores voltados à exportação, essas variações têm impacto sobre a eficiência da operação.
Dados da Confederação Nacional do Transporte ajudam a dimensionar outro aspecto do problema.
Em 2025, a entidade informou que somente 12,3% da malha rodoviária brasileira é pavimentada.
A CNT também apontou que deficiências no pavimento aumentam, em média, o custo operacional do transporte rodoviário.
Armazenagem agrícola e capacidade de escoamento da safra
A armazenagem é outro ponto citado por especialistas e órgãos oficiais.
No primeiro semestre de 2025, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística informou que a capacidade nacional de armazenamento agrícola chegou a 231,1 milhões de toneladas.
O volume, embora maior que o registrado no levantamento anterior, permanece abaixo da produção total de grãos projetada pela Conab para a safra 2025/26.
Na prática, essa diferença reduz a margem para reter parte da produção fora das estradas e concentra o envio de cargas no período da colheita.
Com menos espaço disponível para estocagem, aumenta a tendência de deslocamento simultâneo de caminhões rumo aos portos, especialmente nas semanas de maior intensidade da safra.
Para especialistas em infraestrutura, o gargalo combina fatores rodoviários, portuários e de armazenagem.
O aumento da produção exige não apenas acesso viário, mas também pátios, áreas de apoio, organização de fluxo e capacidade de recebimento compatível com o volume transportado.

