1. Início
  2. / Curiosidades
  3. / Navio de 3 bilhões de dólares foi construído para fazer o que a física dizia ser impossível e consegue arrancar plataformas de petróleo inteiras do oceano em apenas 10 segundos com precisão cirúrgica
Tempo de leitura 5 min de leitura Comentários 2 comentários

Navio de 3 bilhões de dólares foi construído para fazer o que a física dizia ser impossível e consegue arrancar plataformas de petróleo inteiras do oceano em apenas 10 segundos com precisão cirúrgica

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 19/04/2026 às 15:55
Atualizado em 19/04/2026 às 15:58
Assista o vídeoO navio Pioneering Spirit custou US$ 3 bilhões e arranca plataformas inteiras do Mar do Norte em segundos. A Allseas construiu a embarcação mais capaz do planeta.
O navio Pioneering Spirit custou US$ 3 bilhões e arranca plataformas inteiras do Mar do Norte em segundos. A Allseas construiu a embarcação mais capaz do planeta.
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
126 pessoas reagiram a isso.
Reagir ao artigo

O Pioneering Spirit, construído pela Allseas por US$ 3 bilhões, é o maior navio de içamento do planeta e opera no Mar do Norte removendo plataformas de petróleo inteiras do oceano em segundos, com dezesseis braços hidráulicos e posicionamento dinâmico de nível máximo.

A holandesa Allseas projetou e construiu o Pioneering Spirit para resolver uma equação que a engenharia offshore considerava insolúvel: retirar plataformas de petróleo inteiras do Mar do Norte de uma só vez, sem desmontá-las em pedaços. O navio, que entrou em operação em 2016 após anos de construção e um investimento de US$ 3 bilhões, pesa cerca de 400 mil toneladas sem carga e pode alcançar 900 mil quando opera com capacidade plena. O abertura central da embarcação se estende por 122 metros, espaço onde caberia o Titanic com sobra nas laterais. São 571 tripulantes a bordo, entre engenheiros, soldadores e operadores de equipamentos submarinos, formando uma comunidade autossuficiente no meio do oceano.

O problema que o navio enfrenta vai além do peso das estruturas. A plataforma está ancorada no leito marinho e permanece estática, enquanto o Pioneering Spirit flutua sobre ondas que nunca param de se mover. Se a embarcação oscilar centímetros com uma onda enquanto seus braços já estiverem conectados à estrutura, o impacto seria o de uma massa de centenas de milhares de toneladas colidindo contra a plataforma. Para evitar esse cenário, os engenheiros da Allseas desenvolveram uma tecnologia sem equivalente em nenhum outro navio do mundo.

O motivo pelo qual mais de 600 plataformas precisam sair do Mar do Norte

O navio Pioneering Spirit custou US$ 3 bilhões e arranca plataformas inteiras do Mar do Norte em segundos. A Allseas construiu a embarcação mais capaz do planeta.

As águas do Mar do Norte abrigam centenas de instalações petrolíferas, muitas delas com mais de cinco décadas de uso. A legislação internacional exige que, quando um poço se esgota, toda a estrutura seja removida do oceano, e o método convencional para isso consumia anos: frotas de guindastes cortavam a plataforma em seções menores e as retiravam uma por uma. Cada jornada de trabalho naquelas águas geladas custa fortunas, e o risco de acidentes, tempestades e falhas estruturais cresce a cada dia de operação.

A demanda pelo descomissionamento está longe de diminuir. Até 2040, mais de seiscentas estruturas no Mar do Norte precisarão ser desativadas e removidas, e o setor não podia seguir dependendo de operações que devoravam orçamentos e cronogramas por anos. A Allseas propôs algo que ninguém havia tentado: um único navio capaz de se posicionar ao redor da plataforma, envolvê-la com braços mecânicos e separá-la do fundo do mar de uma vez, eliminando meses de corte e içamento fragmentado. Foi a aposta mais cara da história da Allseas e do setor offshore inteiro.

A tecnologia que impede o navio de esmagar a plataforma

O navio Pioneering Spirit custou US$ 3 bilhões e arranca plataformas inteiras do Mar do Norte em segundos. A Allseas construiu a embarcação mais capaz do planeta.

O coração do Pioneering Spirit é o mecanismo que a Allseas desenvolveu para absorver o movimento do mar antes que ele chegue à plataforma. Os dezesseis braços que executam o levantamento operam como amortecedores de escala industrial, e não como cabos fixos, graças a um arranjo que combina pressão de gás nitrogênio com circuitos de fluido sob compressão extrema. Quando a embarcação desce com uma onda, os cilindros de nitrogênio absorvem a energia. Quando ela sobe, devolvem. O efeito é uma compensação contínua que isola a plataforma das oscilações do navio.

Enquanto isso, equipamentos ópticos de alta precisão verificam a distância entre as duas estruturas várias vezes por segundo. Doze propulsores sob o casco giram em todos os ângulos sem interrupção, mantendo a embarcação exatamente na posição calculada contra correntes que tentam deslocá-la o tempo todo. O nível de exatidão alcançado é o mais alto da engenharia naval, classificado como DP3: uma embarcação de centenas de milhares de toneladas estabilizada com variação inferior à largura de um computador portátil aberto. Para alimentar o mecanismo de levantamento, um volume de fluido sob pressão equivalente a uma piscina olímpica percorre o circuito permanentemente. Se qualquer vedação ceder durante a operação, a pressão transforma o líquido num jato com força para perfurar chapas metálicas.

A operação Brent Delta: o recorde que o navio estabeleceu em 2017

O teste definitivo do Pioneering Spirit aconteceu em 2017, a quase 200 quilômetros do litoral mais próximo. A plataforma Brent Delta, operada pela Shell por quatro décadas, precisava ser retirada inteira, e sua parte superior pesava 24 mil toneladas, massa comparável à de um edifício de quinze pavimentos apoiado sobre o oceano. Antes da chegada do navio, robôs operados remotamente já haviam seccionado as pernas da estrutura no fundo do mar, deixando apenas conexões provisórias como último vínculo com o leito marinho.

O navio manobrou sua abertura central ao redor das colunas da plataforma com poucos metros de tolerância. Os braços se estenderam, percorreram suas guias até os pontos de fixação e travaram, fundindo navio e plataforma num corpo só. O sistema aguardou o intervalo de menor agitação entre duas ondas e liberou toda a força acumulada nos cilindros de nitrogênio. Em menos de quinze segundos, as 24 mil toneladas se soltaram do fundo e ficaram suspensas no ar. O navio rumou ao porto de Hartlepool carregando a estrutura, estabelecendo o recorde de maior içamento já executado em águas abertas. Pelo procedimento tradicional, a mesma remoção teria levado cerca de dois anos.

O navio que também fabrica gasodutos no fundo do mar

Assista o vídeo
Vídeo do YouTube

Fora das operações de descomissionamento, o Pioneering Spirit assume uma segunda função completamente diferente: fabricar e lançar dutos submarinos. Dentro do casco, equipamentos automáticos soldam seções de tubulação em sequência ininterrupta, e os trechos prontos descem pela rampa de popa até atingir o leito oceânico a profundidades de até dois quilômetros. Foi dessa forma que a embarcação contribuiu para a construção do TurkStream, gasoduto que cruza o Mar Negro ao longo de mais de novecentos quilômetros.

No dia de maior rendimento registrado, o navio instalou seis quilômetros de tubulação em apenas 24 horas. Uma única embarcação desempenhando duas atividades radicalmente distintas, ambas num patamar que nenhum outro navio consegue reproduzir. O Pioneering Spirit não é o maior em comprimento, nem o mais veloz, nem o mais conhecido. É o mais capaz. E na engenharia offshore, onde cada segundo de operação custa fortunas e cada erro pode ser irreversível, capacidade é a única medida que conta.

E você, conhecia a existência do Pioneering Spirit? Acha impressionante que um navio consiga arrancar uma plataforma inteira do oceano em segundos? Deixe sua opinião nos comentários.

Inscreva-se
Notificar de
guest
2 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
José Mauricio
José Mauricio
24/04/2026 14:45

Um navio impressionante.

Sandro Lessa
Sandro Lessa
23/04/2026 18:48

Trabalho embarcado, conheço bem o mundo offshore, faço leituras sobre a área em sites e revistas especializados mas não conhecia essa embarcação. Um verdadeiro mastordonte dos mares.

Tags
Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

Compartilhar em aplicativos
Baixar aplicativo
Ir para o vídeo em destaque
2
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x