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Plataforma de 100 metros sem motor, sem quilha e operando de ponta-cabeça gira 90 graus no oceano, afunda 75 metros e deriva ao redor da Antártida por dois anos impulsionado pela corrente mais poderosa do planeta para estudar o maior sumidouro de carbono da Terra, ainda pouco compreendido pela ciência para modelagem climática precisa

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Escrito por Valdemar Medeiros Publicado em 30/03/2026 às 15:32 Atualizado em 30/03/2026 às 15:36
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Polar POD é plataforma oceânica de 100 metros que deriva na Antártida para medir CO₂ e calor, podendo redefinir modelos climáticos globais
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Polar POD é plataforma oceânica de 100 metros que deriva na Antártida para medir CO₂ e calor, podendo redefinir modelos climáticos globais

Há uma ironia no centro da climatologia moderna: o Oceano Austral, responsável por absorver cerca de 40% de todo o dióxido de carbono emitido pela humanidade, é também o menos estudado do planeta. Segundo dados de pesquisas recentes conduzidas por instituições como a NASA e a Universidade do Havaí, esse oceano desempenha papel central na regulação do clima global, mas permanece com lacunas críticas de medição durante a maior parte do ano.

É nesse contexto que surge o Polar POD, uma plataforma oceanográfica habitada desenvolvida pelo Ifremer em parceria com o CNRS, o CNES e liderada pelo explorador francês Jean-Louis Étienne. Com 100 metros de altura, cerca de 1.000 toneladas e operação vertical com até 75 metros submersos, a estrutura foi projetada para operar nas regiões mais hostis do planeta e coletar dados contínuos sobre carbono, temperatura e dinâmica oceânica.

Projeto Polar POD: plataforma oceânica de 100 metros inspirada no FLIP para medir CO₂

O Polar POD, sigla para Polar Platform Ocean Drifter, representa uma evolução direta do conceito do FLIP americano. Assim como seu antecessor, a estrutura é rebocada na horizontal até a área de operação e, em seguida, gira para a posição vertical por meio de enchimento de tanques de lastro.

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A diferença fundamental está no modo de operação após a verticalização. Ao contrário do FLIP, o Polar POD não permanece ancorado nem possui propulsão. Ele é liberado para derivar livremente, sendo conduzido pela Corrente Circumpolar Antártica.

Essa abordagem transforma a própria força do oceano no motor da missão científica, permitindo cobertura contínua de regiões onde medições são praticamente inexistentes.

Oceano Austral e clima global: como a Antártida absorve CO₂ e calor da atmosfera

O Oceano Austral exerce papel crítico na regulação climática. Estudos indicam que ele absorve entre 60% e 90% do excesso de calor retido na atmosfera pelos gases de efeito estufa.

Além disso, a produção biológica da região captura aproximadamente 3 bilhões de toneladas de carbono por ano, equivalente a cerca de um quarto das emissões globais anuais.

A Corrente Circumpolar Antártica atua como eixo central desse processo, conectando os oceanos Atlântico, Índico e Pacífico. Essa circulação promove a troca de águas profundas e superficiais, permitindo a absorção e o sequestro de carbono em escala planetária.

A ausência de medições contínuas nesse sistema compromete diretamente a precisão dos modelos climáticos globais.

Funcionamento do Polar POD: plataforma deriva na Corrente Circumpolar Antártica

Após ser rebocado até o ponto inicial próximo à África do Sul, o Polar POD será inserido na Corrente Circumpolar Antártica, onde passará a derivar livremente.

A velocidade média da corrente é de cerca de 1,8 km/h, permitindo uma circunavegação completa da Antártida em aproximadamente 18 meses, cobrindo cerca de 24 mil quilômetros.

O plano prevê até três anos de operação contínua, com coleta ininterrupta de dados em todas as estações do ano, incluindo o inverno austral, período atualmente pouco estudado.

Estrutura do Polar POD: 75 metros submersos garantem estabilidade extrema no oceano

Com 75 metros submersos, o Polar POD opera abaixo da zona de maior influência das ondas superficiais. Seu período de oscilação vertical é de aproximadamente 60 segundos, muito superior ao período típico das ondas da região, que gira em torno de 21 segundos. Isso garante estabilidade excepcional mesmo em condições extremas conhecidas como “furiosos cinquenta”.

Essa estabilidade permite medições de alta precisão em um ambiente onde navios convencionais não conseguem operar com segurança.

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A estrutura habitável do Polar POD fica localizada a cerca de 20 metros acima da linha d’água e foi projetada para acomodar oito pessoas. A equipe inclui marinheiros responsáveis pela navegação passiva e ajuste de velas, cientistas encarregados das medições e um cozinheiro.

O suporte logístico é feito pelo navio Persévérance, que realiza trocas de tripulação e reabastecimento a cada dois meses. A vida a bordo exige adaptação a um ambiente vertical incomum, onde pisos e paredes mudam de orientação após a transição inicial.

Energia do Polar POD: turbinas eólicas e painéis solares substituem motores

O Polar POD não possui motor. Toda a energia é gerada por seis turbinas eólicas de 3,2 kW cada, complementadas por painéis solares.

Essa configuração elimina ruídos mecânicos, criando um ambiente ideal para medições acústicas e estudos de mamíferos marinhos.

A ausência de propulsão e vibração torna a plataforma extremamente silenciosa, um fator crítico para pesquisas oceânicas avançadas.

Durante a missão, o Polar POD realizará medições contínuas de:

  • Trocas de CO₂ entre oceano e atmosfera
  • Temperatura e salinidade
  • Biodiversidade marinha por sensores acústicos
  • Presença de microplásticos e poluentes
  • Calibração de dados de satélites

O programa envolve 43 instituições científicas de 12 países, com dados disponibilizados em formato aberto para a comunidade global. A escala e continuidade dessas medições podem redefinir a compreensão científica sobre o clima da Terra.

Construção: projeto de 28 milhões de euros enfrenta atrasos

O projeto começou a ser desenvolvido em 2010 e teve sua construção formalizada em 2022, com orçamento estimado de 28 milhões de euros, além de 13 milhões para operação. A produção envolve os estaleiros Piriou e a empresa 3C Metal, responsáveis pela estrutura e montagem.

No entanto, impasses políticos e financeiros na França interromperam o avanço do projeto em 2024, adiando o lançamento para pelo menos 2027.

Segundo informações divulgadas em 2025, o projeto enfrenta um conflito entre o Ifremer e os estaleiros responsáveis pela construção, relacionado a custos. A paralisação ocorre mesmo com o navio de apoio já pronto e o programa científico estruturado.

Esse cenário evidencia o impacto de decisões políticas e financeiras em projetos científicos de grande escala.

Importância do Polar POD para modelos climáticos globais e previsão do aquecimento

Os modelos climáticos atuais dependem de dados incompletos sobre o Oceano Austral, especialmente durante o inverno. A ausência dessas informações gera incertezas significativas nas projeções de aquecimento global.

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O Polar POD foi projetado para preencher essa lacuna, operando continuamente em condições extremas e fornecendo dados inéditos. A diferença entre estimativas e medições diretas pode redefinir previsões climáticas nas próximas décadas.

O conceito central do Polar POD é simples, mas poderoso: usar o próprio ambiente como meio de deslocamento. Ao derivar com a corrente mais intensa do planeta, a plataforma cobre áreas vastas sem necessidade de propulsão.

Essa abordagem permite medições contínuas em regiões onde navios e sensores tradicionais não conseguem operar. Se entrar em operação, o Polar POD pode se tornar uma das ferramentas mais importantes já criadas para estudar o clima da Terra.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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