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Com 30,8 metros de diâmetro e dois canhões de 279 mm, o monitor Novgorod foi o navio de guerra circular que a Rússia construiu em 1873 para carregar artilharia pesada com pouco calado — mas cada disparo fazia o casco girar descontroladamente, transformando o experimento naval em um dos projetos mais estranhos da história marítima

Escrito por Débora Araújo
Publicado em 16/03/2026 às 15:03
Atualizado em 16/03/2026 às 15:06
Com 30,8 metros de diâmetro e dois canhões de 279 mm, o monitor Novgorod foi o navio de guerra circular que a Rússia construiu em 1873 para carregar artilharia pesada com pouco calado — mas cada disparo fazia o casco girar descontroladamente, transformando o experimento naval em um dos projetos mais estranhos da história marítima
Com 30,8 metros de diâmetro e dois canhões de 279 mm, o monitor Novgorod foi o navio de guerra circular que a Rússia construiu em 1873 para carregar artilharia pesada com pouco calado — mas cada disparo fazia o casco girar descontroladamente, transformando o experimento naval em um dos projetos mais estranhos da história marítima
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Em 1873, a Rússia lançou o Novgorod, um navio de guerra circular de 30,8 metros armado com canhões de 279 mm. O experimento naval girava ao disparar e virou um dos projetos mais curiosos da história.

Entre os experimentos mais incomuns já realizados na engenharia naval está o curioso Russian monitor Novgorod, um navio de guerra circular construído pela Rússia no século XIX. Diferente de qualquer embarcação militar convencional, o Novgorod tinha um casco redondo, com 30,8 metros de diâmetro, lembrando mais um prato gigante flutuando no mar do que um navio de guerra tradicional.

O projeto nasceu de uma ideia aparentemente lógica do almirante russo Andrei Alexandrovich Popov, que acreditava que um casco circular poderia oferecer vantagens matemáticas e estruturais importantes. Em teoria, um navio redondo permitiria transportar armas extremamente pesadas sem precisar de grande profundidade de calado, algo fundamental para operar em águas rasas.

A proposta parecia promissora no papel. No entanto, quando o navio entrou em serviço, uma série de problemas inesperados revelou que a física do mundo real era bem menos favorável do que os cálculos sugeriam.

O contexto histórico: o Tratado de Paris e as limitações da Rússia no Mar Negro

A origem do projeto do Novgorod está diretamente ligada à política internacional do século XIX. Após a Treaty of Paris (1856), que encerrou a Guerra da Crimeia, a Rússia foi proibida de manter uma frota naval militar convencional no Black Sea.

Essa restrição representava uma enorme limitação estratégica. O Mar Negro era vital para a segurança russa e para o acesso ao Mediterrâneo. Sem poder construir navios de guerra tradicionais, os estrategistas russos começaram a buscar alternativas que contornassem as restrições do tratado.

Foi nesse contexto que surgiu a ideia de desenvolver embarcações de defesa costeira incomuns, capazes de carregar grandes canhões para proteger portos e cidades costeiras sem se enquadrar exatamente na definição de uma frota naval convencional.

A lógica matemática por trás do casco circular

O almirante Andrei Popov acreditava que um navio circular poderia resolver vários problemas ao mesmo tempo. Em teoria, um casco redondo ofereceria três vantagens principais:

  • maior estabilidade para carregar armas pesadas
  • menor profundidade de calado
  • maior área de convés em relação ao deslocamento

Essas características permitiriam instalar canhões muito grandes em um navio relativamente compacto. O resultado foi um tipo de embarcação que ficou conhecido informalmente como “popovka”, nome derivado do próprio sobrenome do almirante. O Novgorod foi o primeiro grande exemplo desse conceito.

As características técnicas do monitor Novgorod

Quando finalmente foi concluído em 1873, o Novgorod apresentava características únicas para a época. Entre os principais dados técnicos estavam:

  • diâmetro do casco: 30,8 metros
  • deslocamento aproximado: 2.500 toneladas
  • propulsão: seis hélices independentes
  • sistema de caldeiras: oito caldeiras a vapor

O armamento principal consistia em dois canhões de 279 mm, montados em uma torre central. Para compensar a forma incomum do casco, o navio utilizava múltiplos propulsores que teoricamente permitiriam controlar melhor sua direção. A ideia era que a embarcação pudesse girar no próprio eixo para apontar seus canhões, algo que parecia inovador para a época.

O problema inesperado: o navio girava ao disparar

Nos testes de mar, rapidamente ficou claro que o projeto enfrentava dificuldades sérias. Quando um dos canhões principais era disparado, o enorme recuo transferia força diretamente para o casco circular. Em vez de permanecer estável, o navio começava a girar sobre si mesmo.

Esse efeito tornava extremamente difícil manter a mira após o disparo. Os seis propulsores instalados no navio deveriam ajudar a compensar esse movimento, mas na prática não tinham potência suficiente para neutralizar a rotação causada pelo disparo dos canhões. O resultado era uma embarcação que literalmente girava ao disparar sua própria artilharia.

Dificuldade de navegação e problemas contra correntes

Outro problema apareceu durante a navegação. O formato circular criava enorme resistência hidrodinâmica. O navio tinha dificuldade para avançar contra correntes marítimas ou ventos mais fortes. Enquanto navios tradicionais utilizam cascos alongados para reduzir a resistência da água, o casco redondo do Novgorod apresentava comportamento muito menos eficiente.

Em condições adversas, o navio simplesmente não conseguia manter velocidade suficiente para se deslocar de maneira eficaz. Além disso, em águas agitadas, o casco curto e largo fazia o navio balançar de forma desconfortável.

Participação na Guerra Russo-Turca de 1877

Apesar das limitações, o Novgorod acabou sendo utilizado durante a Russo-Turkish War (1877–1878). No entanto, sua atuação foi muito diferente da esperada. Devido à dificuldade de navegação e à baixa velocidade, o navio não conseguia perseguir ou interceptar embarcações inimigas.

Em vez disso, foi mantido ancorado próximo à cidade de Odessa, funcionando mais como uma plataforma de dissuasão defensiva. Sua presença tinha valor simbólico e psicológico, mas sua utilidade prática em combate era bastante limitada.

O entusiasmo do czar e o iate circular

Curiosamente, o projeto do navio circular chamou a atenção do Alexander II of Russia. O czar ficou fascinado com a ideia e decidiu encomendar um iate imperial baseado no mesmo conceito. Esse novo navio foi construído em estaleiros da Escócia e chegou a realizar testes de mar.

Contudo, o resultado também não foi animador. O desempenho da embarcação circular era tão limitado que o iate acabou sendo utilizado principalmente como navio auxiliar. Em vez de transportar a família imperial em viagens luxuosas, ele passou grande parte da vida carregando carvão.

Um experimento naval que entrou para a história

Apesar de suas falhas, o Novgorod permanece como um exemplo fascinante de inovação e experimentação na história naval. O navio demonstrou que ideias aparentemente perfeitas em teoria podem enfrentar desafios inesperados quando confrontadas com as leis da física e da engenharia prática.

Com 30,8 metros de diâmetro e dois canhões de 279 mm, o monitor Novgorod foi o navio de guerra circular que a Rússia construiu em 1873 para carregar artilharia pesada com pouco calado — mas cada disparo fazia o casco girar descontroladamente, transformando o experimento naval em um dos projetos mais estranhos da história marítima

Projetos experimentais como esse eram relativamente comuns no século XIX, quando a tecnologia naval passava por rápidas transformações com a introdução de motores a vapor, cascos metálicos e novos sistemas de artilharia.

O legado do estranho navio circular russo

Hoje, o Novgorod é frequentemente citado como um dos navios de guerra mais estranhos já construídos. Sua história ilustra bem como pressões políticas e limitações estratégicas podem levar a soluções criativas — ainda que nem sempre bem-sucedidas. Mesmo com suas limitações, o projeto representou uma tentativa ousada de repensar completamente o design de navios militares.

No final, o experimento do navio circular russo tornou-se um curioso capítulo da história naval, lembrado não por suas vitórias em combate, mas por mostrar até onde a engenharia militar estava disposta a ir em busca de novas ideias.

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Débora Araújo

Débora Araújo é redatora no Click Petróleo e Gás, com mais de dois anos de experiência em produção de conteúdo e mais de mil matérias publicadas sobre tecnologia, mercado de trabalho, geopolítica, indústria, construção, curiosidades e outros temas. Seu foco é produzir conteúdos acessíveis, bem apurados e de interesse coletivo. Sugestões de pauta, correções ou mensagens podem ser enviadas para contato.deboraaraujo.news@gmail.com

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