O voo aconteceu em dezembro de 2021, na chamada Operação Cruzeiro, e validou pela primeira vez no Brasil a chamada propulsão hipersônica aspirada, capaz de queimar hidrogênio em pleno fluxo supersônico. Agora a empresa catarinense Mac Jee desenvolve o foguete acelerador que deve levar a próxima geração do projeto ao voo, previsto para 2027.
A 30 quilômetros de altitude e a quase 7 mil quilômetros por hora, o demonstrador 14-X da Força Aérea Brasileira testou em Alcântara um motor scramjet sem peças móveis, em um experimento que marca a entrada do país em um seleto grupo internacional de nações com capacidade de ensaio em voo dessa tecnologia. O programa, conduzido pelo Instituto de Estudos Avançados, da própria FAB, mira no longo prazo o ousado patamar de Mach 10 e acaba de receber investimento histórico de R$ 93 milhões da Finep.
O ensaio de 2021 não foi um voo de míssil nem uma exibição militar pronta para operação. Trata-se de um demonstrador tecnológico, parte do chamado Projeto PropHiper, voltado à pesquisa em propulsão hipersônica aspirada, área em que pouquíssimos países conseguem testar em ambiente real. O nome 14-X é uma homenagem ao 14-Bis de Santos Dumont, de 1906, com a letra X representando a meta de chegar a 14 vezes a velocidade do som no horizonte mais distante do programa.
O que foi feito na Operação Cruzeiro
Em 14 de dezembro de 2021, o Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão, abrigou o primeiro voo-teste do motor scramjet brasileiro, batizado de Operação Cruzeiro. O demonstrador 14-X S foi acoplado ao topo de um Veículo Acelerador Hipersônico baseado no foguete de sondagem VSB-30, da Agência Espacial Brasileira, e levado a mais de 30 quilômetros de altitude para que o motor experimental atingisse as condições de operação.
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Naquele voo, o conjunto alcançou velocidade próxima a Mach 6, equivalente a cerca de 7.350 quilômetros por hora, com apogeu suborbital de 160 quilômetros e trajetória de aproximadamente 200 quilômetros até cair em uma área segura no Oceano Atlântico. Foi a primeira vez que uma aeronave brasileira validou em ambiente real a combustão supersônica do scramjet, considerada uma das engenharias mais complexas que a humanidade tenta resolver.
Por que o scramjet é tão difícil
Para entender a dificuldade, vale entender como o motor funciona. Em foguetes convencionais, é preciso levar a bordo tanto o combustível quanto o oxidante, o que faz com que mais da metade da massa lançada não seja útil. O scramjet, sigla em inglês para supersonic combustion ramjet, dispensa o oxidante: ele usa o próprio oxigênio da atmosfera, capturado em velocidade supersônica, para queimar o hidrogênio injetado em uma câmara sem peças móveis.
O desafio é manter a combustão estável em um fluxo de ar que entra no motor em velocidade superior à do som. É algo equivalente a tentar acender e manter uma chama dentro de um furacão a 7 mil quilômetros por hora, com temperaturas externas que ultrapassam 2.000 graus Celsius, mais quentes do que a lava de muitos vulcões. Só um punhado de países tem tido sucesso em colocar essa tecnologia para funcionar em condições reais de voo.
Mach 6 já feito, Mach 10 como meta
É importante separar com cuidado o que já foi feito do que ainda está por vir. O voo de 2021 alcançou Mach 6, marco histórico para a engenharia brasileira. A meta final do programa, no entanto, é mais ambiciosa: chegar a algo entre Mach 10 e Mach 14, ou seja, cerca de 12 mil a 17 mil quilômetros por hora, em fases sucessivas de desenvolvimento. Para isso, será preciso vencer barreiras térmicas, estruturais e de materiais que ainda exigem anos de pesquisa.
O programa PropHiper é dividido em quatro fases, todas detalhadas pela própria FAB. A primeira, do 14-X S, foi concluída em 2021. A segunda, do 14-X SP, prevê a demonstração do impulso real do scramjet, e não apenas a combustão. A terceira, do 14-X W, mira o voo planado e controlado em regime hipersônico, com sistemas de guiamento. A quarta e final, do 14-X WP, contempla um veículo plenamente autônomo no chamado padrão waverider, no qual o próprio formato da fuselagem aproveita a onda de choque como sustentação.
O foguete acelerador feito pela Mac Jee
Como o scramjet só funciona em alta velocidade, é preciso um foguete auxiliar para levar o veículo ao ponto certo de operação. Esse é justamente o papel do RATO-14X, sigla em inglês para Rocket Assisted Take-Off, ou decolagem assistida por foguete. O desenvolvimento está a cargo da empresa brasileira Mac Jee, em parceria com o IEAv, com a Orbital Engenharia e com a participação do Instituto Tecnológico de Aeronáutica, o ITA, em acordo divulgado no início de 2026.
O RATO-14X deve ter cerca de 14 metros de comprimento e aproximadamente 15 toneladas de massa, capaz de acelerar o demonstrador a velocidades em torno de Mach 8, até as condições ideais de partida do scramjet. O lançador também pode, no futuro, integrar foguetes maiores, eventualmente usados para colocar satélites em órbita, o que conecta o programa diretamente à agenda mais ampla de soberania espacial do Brasil.
Investimento histórico de R$ 93 milhões
Em 2024, a Financiadora de Estudos e Projetos, a Finep, anunciou um aporte considerado histórico para a área de defesa: R$ 93 milhões destinados ao desenvolvimento do foguete hipersônico nacional, valor citado por publicações como Hora do Povo e Sociedade Militar. No mesmo período, o projeto foi incluído como tecnologia crítica no programa Nova Indústria Brasil, com meta de 50% de autonomia nacional até 2033.
O salto institucional veio em dezembro de 2025, com a assinatura, publicada no Diário Oficial da União, de um acordo de cooperação técnica de 36 meses entre a Força Aérea Brasileira e a Mac Jee, mobilizando mais de 40 engenheiros, pesquisadores e técnicos especializados. Em fevereiro de 2026, o ITA também assinou parceria com a empresa, ampliando ainda mais a base científica e industrial envolvida no projeto, com perspectiva de envolver cerca de 500 profissionais até o primeiro voo do lançador, previsto para o fim de 2027 em Alcântara.
Um seleto grupo de nações com testes hipersônicos
Com o êxito da Operação Cruzeiro, o Brasil passou a integrar um conjunto restrito de países que conseguiram levar a propulsão hipersônica aspirada a um teste real de voo. Estados Unidos, Rússia e China estão claramente à frente, com programas mais maduros, e Índia, França, Austrália e Japão também conduzem pesquisas em estágios avançados. Cada fonte combina esses nomes de maneira ligeiramente diferente, dependendo do critério usado, se motor scramjet em voo, se mísseis operacionais ou se demonstradores experimentais.
O que diferencia o caso brasileiro é o caráter eminentemente civil e estratégico do programa, conduzido em torno de pesquisa e formação de engenheiros, não em torno de armas em uso. A FAB e o IEAv falam em propulsão hipersônica aspirada como tecnologia capaz de servir tanto a futuras aeronaves rápidas, quanto a sistemas de acesso ao espaço com menor custo, beneficiando o programa espacial brasileiro como um todo.
Por que essa pauta importa para o leitor do CPG
Para o público de petróleo, gás e infraestrutura, o 14-X é mais do que uma curiosidade aeroespacial. Ele simboliza a aposta do Brasil em tecnologias críticas, com cadeia industrial nacional, empregos qualificados e potencial dual de uso, em uma área dominada por poucas potências mundiais. A combinação de hidrogênio como combustível, de materiais avançados resistentes a temperaturas extremas e de manufatura de precisão também conversa com debates atuais sobre transição energética e indústria de alta complexidade.
Além disso, o programa fortalece a posição estratégica do Centro de Lançamento de Alcântara, ativo nacional que vem sendo discutido em acordos internacionais como porta de entrada do Brasil para o mercado global de lançamentos espaciais. Cada teste bem-sucedido em Alcântara amplia a relevância da base e do entorno econômico maranhense, com impactos que vão da formação técnica regional à atração de investimentos em empresas de defesa e aeroespacial no país.
O 14-X é, ao mesmo tempo, conquista científica concreta e promessa de longo prazo. A Mach 6 já alcançada em 2021 mostra que a engenharia brasileira é capaz de operar em condições que pouquíssimos países do mundo conseguem replicar. Os R$ 93 milhões da Finep e a entrada da Mac Jee, do ITA e da Orbital Engenharia no projeto, somados ao calendário do RATO-14X até 2027, dão ao programa uma estrutura inédita. Resta acompanhar se o cronograma se cumpre e se as próximas fases entregam os saltos esperados rumo ao patamar de Mach 10 e além.
E você, sabia que o Brasil já testou em voo um motor scramjet a quase 7 mil quilômetros por hora? Acredita que o país tem condições reais de chegar a Mach 10 com tecnologia nacional na próxima década? Deixe seu comentário, conte como vê o programa PropHiper e compartilhe a matéria com quem se interessa por defesa, aeroespacial, ciência e tecnologia.


Resta saber se o Tio Sam não vai embassar esse projeto. Seria bom se o estado Brasileiro abraçasse a causa como parte de um projeto estratégico de defesa. Parabéns aos envolvidos.
Com certeza temos competência para tal, basta que haja investimento responsável do Estado.
Gostaria nos próximos anos ver esse projeto pronto agregando a ele olgivas nucleares, aí sim ele seria perfeito