Novos dados da missão MAVEN mostram como a perda progressiva da atmosfera marciana, causada por vento solar, pulverização catódica e escape de hidrogênio, explica a transição de Marte de um planeta com lagos, rios e possíveis mares para o deserto frio e rarefeito observado hoje
A NASA apresentou novos resultados da missão MAVEN mostrando que Marte perdeu sua atmosfera ao longo de bilhões de anos por escape contínuo para o espaço, processo que explica a transição de um planeta com água líquida para um deserto vermelho e altera a compreensão sobre sua antiga habitabilidade.
Os dados mais recentes da missão MAVEN da NASA indicam que a atmosfera marciana vem escapando para o espaço há bilhões de anos, processo diretamente ligado à transformação do planeta de um ambiente úmido para o cenário árido observado atualmente.
As medições relacionam o passado aquático de Marte a mecanismos ativos na alta atmosfera, onde partículas energéticas do vento solar interagem com gases superiores, removendo progressivamente os elementos que sustentavam água líquida na superfície.
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Esse conjunto de observações reforça a hipótese de que Marte já foi um mundo mais parecido com a Terra, com céu mais denso e água superficial estável, antes de perder grande parte de sua proteção atmosférica.
O trabalho é liderado por Shannon Curry, física planetária da Universidade do Colorado em Boulder e investigadora principal da missão MAVEN da NASA, que estuda como vento solar e radiação removem atmosferas planetárias ao longo do tempo.
Segundo a NASA, Marte possui atualmente cerca de metade do tamanho da Terra, com raio de 3.392 quilômetros, e apresenta um dia com duração média de 24,6 horas, valor próximo ao terrestre.
O planeta completa uma órbita em torno do Sol a cada 687 dias terrestres, o que faz com que suas estações sejam mais longas devido ao eixo de rotação inclinado, característica semelhante à da Terra.
Marte orbita, em média, a uma distância de 1,5 unidade astronômica do Sol, medida padrão baseada na distância entre a Terra e o Sol, com a luz solar levando aproximadamente 13 minutos para alcançar sua atmosfera superior.
Essas condições atuais contrastam com evidências geológicas de um passado marcado por água líquida, incluindo vales fluviais, bacias lacustres e um sistema de cânions com mais de 4.800 quilômetros esculpidos na crosta marciana.
Imagens orbitais analisadas pela NASA mostram que essas estruturas são difíceis de explicar sem longos períodos de fluxo de água superficial sob uma atmosfera significativamente mais densa do que a existente hoje.
Na região equatorial, o rover Curiosity da NASA perfurou rochas sedimentares na Baía de Yellowknife, localizada dentro da Cratera Gale, revelando folhelhos argilosos de granulação fina.
Essas rochas registram a existência de um lago de longa duração com pH neutro, baixo teor de sal e a presença de ingredientes químicos básicos que micróbios simples poderiam ter utilizado.
De acordo com a NASA, essas características indicam condições ambientais compatíveis com formas elementares de vida microbiana, semelhantes às encontradas em ambientes aquáticos antigos da Terra.
Mais ao norte, o rover Perseverance explora atualmente um antigo delta na Cratera Jezero, formado por sedimentos depositados onde um rio alimentava um lago de cratera no passado.
Os cientistas selecionaram Jezero como local de pouso porque deltas costumam preservar moléculas orgânicas e grãos muito finos, capazes de registrar vestígios de possível vida microbiana antiga.
Em conjunto, os registros da Cratera Gale e da Cratera Jezero sustentam o cenário de que grandes massas de água estagnada cobriram partes de Marte por longos períodos.
Com uma atmosfera mais espessa e maior quantidade de vapor de água, esses lagos e possíveis pequenos mares teriam conferido ao planeta uma aparência azulada quando observado do espaço.
A NASA destaca que condições como água neutra, salinidade moderada e disponibilidade de energia química são consideradas básicas para muitos micróbios na Terra, reforçando o interesse astrobiológico.
Encontrar essa combinação em rochas marcianas mantém os pesquisadores focados em identificar outras pistas ambientais preservadas nas proximidades dessas antigas formações aquáticas.
Os geólogos interpretam os sedimentos estratificados em Gale e Jezero como registros de ciclos repetidos de umidade e seca ao longo do tempo geológico marciano.
Essas camadas ajudam a reconstruir a transição climática do planeta, desde períodos com água superficial estável até fases em que o clima começou a secar de forma progressiva.
Perda da proteção magnética e exposição ao vento solar
No início de sua história, Marte provavelmente possuía uma magnetosfera global, região moldada por um campo magnético capaz de desviar partículas carregadas vindas do Sol, segundo a NASA.
Essa proteção teria limitado a erosão atmosférica, permitindo a manutenção de uma atmosfera densa e condições favoráveis à presença de água líquida na superfície.
Quando a magnetosfera desapareceu há mais de 4 bilhões de anos, a atmosfera superior ficou exposta à força total do vento solar, intensificando os processos de escape.
Um dos principais mecanismos identificados é a pulverização atmosférica, na qual partículas energéticas colidem com átomos da atmosfera e os lançam para o espaço.
Em Marte, esse processo envolve principalmente íons pesados do vento solar, que colidem com a atmosfera superior ao longo das linhas do campo magnético remanescente.
Ao mesmo tempo, observações da MAVEN mostram que moléculas de água que alcançam camadas superiores da atmosfera se quebram, liberando hidrogênio que escapa para o espaço.
Esse escape de hidrogênio ocorre com maior intensidade durante tempestades de poeira globais e em determinadas épocas do ano marciano, segundo dados da NASA.
Um estudo recente citado pela agência indica que essas variações na perda de hidrogênio dominam atualmente a fuga contínua de água de Marte, influenciando sua evolução climática.
Pulverização catódica observada diretamente
Em uma análise recente, Curry e seus colegas utilizaram medições de argônio da MAVEN para mapear regiões onde a pulverização catódica ocorre na atmosfera marciana.
Os resultados mostram que íons pesados do vento solar estão ativamente arrancando átomos da atmosfera, confirmando diretamente um processo antes inferido apenas por proporções isotópicas.
“Esses resultados estabelecem o papel da pulverização catódica na perda da atmosfera de Marte e na determinação da história da água em Marte”, afirmou Shannon Curry, segundo a NASA.
O comentário conecta processos sutis na alta atmosfera a mudanças climáticas extremas registradas em vales secos e antigos leitos de lagos na superfície do planeta.
Ao combinar a taxa atual de erosão atmosférica com modelos que consideram um vento solar mais intenso do Sol jovem, os pesquisadores avaliam que grande parte da atmosfera original foi removida.
Essa perda teria reduzido a pressão na superfície a níveis insuficientes para que a água líquida permanecesse estável por longos períodos, acelerando a desertificação do planeta.
Atmosfera rarefeita e clima extremo atual
Atualmente, a atmosfera de Marte é extremamente fina e composta majoritariamente por dióxido de carbono, com pequenas quantidades de nitrogênio, argônio e oxigênio.
Com tão pouca atmosfera acima da superfície, o céu apresenta coloração enevoada e avermelhada devido à poeira em suspensão, conforme descrito pela NASA.
A radiação proveniente do espaço atinge a superfície com maior intensidade do que na Terra, já que a proteção atmosférica e magnética é limitada.
As temperaturas superficiais variam amplamente, com máximas próximas a 70 graus Fahrenheit em dias raros e mínimos de cerca de -225 graus Fahrenheit nas regiões polares.
Mesmo perto do equador ao meio-dia, um termômetro próximo ao solo pode indicar cerca de 75 graus Fahrenheit, enquanto outro à altura da cabeça mal alcança o ponto de congelamento, segundo a NASA.
Marte não possui mais um campo magnético global ativo atravessando seu núcleo, restando apenas áreas da crosta fortemente magnetizadas nas terras altas do sul.
Essas regiões são consideradas relíquias de uma época em que o interior do planeta era mais ativo, antes da perda da magnetosfera global.
Implicações para habitabilidade e estudos futuros
A história delineada pelos dados da MAVEN descreve um planeta que começou com lagos azuis e possivelmente pequenos mares, mas perdeu gradualmente as condições necessárias para mantê-los.
A NASA avalia que a habitabilidade em Marte provavelmente se restringiu ao período anterior à dispersão da maior parte da atmosfera, quando sistemas como Gale e Jezero ainda estavam ativos.
Os rovers Curiosity e Perseverance, junto com a sonda MAVEN, buscam determinar por quanto tempo essa janela de condições favoráveis permaneceu aberta.
Eles analisam a composição química de rochas sedimentares, sais e a estrutura da alta atmosfera para entender a duração e a estabilidade desses ambientes antigos.
Caso futuras análises revelem bioassinaturas convincentes, isso indicaria não apenas que a vida existiu em Marte, mas que houve tempo suficiente para seu desenvolvimento.
Compreender como Marte passou de um mundo azul a um deserto vermelho também auxilia pesquisadores a avaliar a capacidade de exoplanetas manterem atmosferas e água superficial.
Segundo a NASA, o caso marciano demonstra que climas planetários aparentemente estáveis podem ser frágeis quando o equilíbrio entre proteção magnética, atividade solar e calor interno é perdido, lição central para a ciência planetária moderna.

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