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Há 60 anos, agricultor vendeu o patrimônio para comprar fábrica parada de porcas, sofreu um golpe no primeiro mês e depois viu os filhos erguerem uma gigante metalúrgica em SC

Escrito por Geovane Souza
Publicado em 18/06/2026 às 11:09
Agricultor compra fábrica parada em Santa Catarina, supera início difícil e transforma pequena produção de porcas em grande metalúrgica nacional
Agricultor compra fábrica parada em Santa Catarina, supera início difícil e transforma pequena produção de porcas em grande metalúrgica nacional.
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A aposta de Ricardo Fey começou em uma sala pequena de Indaial, passou por um drama familiar logo no início e virou uma indústria com até 3 mil toneladas de capacidade mensal

Um agricultor de Santa Catarina decidiu, em 1966, abandonar a segurança da roça para apostar em um setor que ele praticamente não conhecia. Ricardo Fey vendeu o patrimônio agrícola da família e comprou uma pequena fábrica de porcas torneadas que estava com as atividades paralisadas em Indaial, no Vale do Itajaí.

A decisão parecia arriscada até para os padrões de quem já estava acostumado a trabalhar duro. Sem experiência em metalurgia, ele entrou em uma área que exigia máquinas, precisão técnica, fornecedores, clientes e conhecimento industrial.

O negócio começou em uma sala de aproximadamente 70 metros quadrados, com os dois filhos, Adolfo e Bertoldo, e apenas um funcionário. A produção inicial era de cerca de duas toneladas de porcas por mês, volume pequeno diante do que a empresa viria a se tornar.

Mas o primeiro mês trouxe um golpe inesperado. De acordo com a NSC Total, Ricardo Fey sofreu um AVC no 30º dia de funcionamento da empresa e ficou impossibilitado de trabalhar, deixando aos filhos a missão de manter viva a aposta que havia consumido o patrimônio da família.

A fábrica parada que virou aposta familiar em Indaial

A fábrica parada que virou aposta familiar em Indaial
A fábrica parada que virou aposta familiar em Indaial (Foto: Fey)

A origem da Fey ajuda a explicar por que a trajetória ainda chama atenção no setor industrial catarinense. A empresa não nasceu de um grande grupo, de capital estrangeiro ou de um plano sofisticado de expansão, mas de uma decisão familiar tomada em um momento de incerteza.

Ricardo Fey vinha de uma pequena cidade do interior de Santa Catarina e enxergou na fábrica parada uma oportunidade. Ao comprar o negócio, ele não estava apenas mudando de atividade econômica, mas tentando abrir caminho para que os filhos tivessem uma ocupação fora da agricultura.

Segundo registros da FIESC, a fábrica comprada produzia porcas usinadas e estava falida ou inativa quando passou para a família Fey. Isso tornava o desafio ainda maior, porque não bastava aprender metalurgia, era necessário recuperar uma operação que já havia perdido fôlego.

O começo foi simples e apertado. A estrutura de 70 metros quadrados exigia improviso, disciplina e capacidade de aprender na prática, algo comum em muitos casos de empreendedorismo industrial no interior do Brasil.

O AVC no primeiro mês mudou o comando da empresa

O episódio mais dramático da história ocorreu quando a fábrica ainda estava dando os primeiros passos. Com apenas 30 dias de operação, Ricardo Fey sofreu um AVC e não pôde mais assumir a rotina de trabalho que havia planejado para si.

Mesmo afastado da operação, ele viveu por mais cerca de 30 anos e acompanhou, ainda que à distância, a transformação da pequena fábrica em uma indústria de grande porte. O comando prático ficou com os filhos Adolfo e Bertoldo Fey.

A mudança forçada de liderança poderia ter encerrado a empresa ainda no início. Em vez disso, os filhos assumiram a operação e passaram a conduzir o negócio em uma fase na qual quase tudo dependia de persistência, aprendizado técnico e relacionamento com clientes.

Esse ponto é central na história porque mostra que a Fey não cresceu apenas por uma aposta inicial. O avanço ocorreu porque a segunda geração conseguiu transformar uma compra arriscada em um projeto industrial de longo prazo.

A primeira expansão veio em dois anos e preparou o salto tecnológico

A demanda começou a crescer rapidamente. Em dois anos, a pequena área inicial já não comportava a operação, e a fábrica foi ampliada para 412 metros quadrados, com a aquisição de novos tornos automáticos.

fábrica foi ampliada para 412 metros quadrados
Fábrica foi ampliada para 412 metros quadrados (Foto: Fey)

Esse avanço marcou a transição de uma produção quase artesanal para uma operação industrial mais estruturada. Na metalurgia, esse tipo de mudança é decisivo, porque produtividade, padronização e repetibilidade são essenciais para competir no fornecimento de peças.

O salto tecnológico mais importante veio em 1972. Naquele ano, a empresa importou dos Estados Unidos a primeira máquina conformadora de porcas a frio, equipamento que permitiu elevar a capacidade produtiva de forma significativa.

A conformação a frio é um processo usado para moldar peças metálicas sem a necessidade de aquecer o material até altas temperaturas. Na prática, isso pode ampliar a velocidade de fabricação, reduzir desperdícios e melhorar a padronização, fatores essenciais para quem deseja atender mercados mais exigentes.

A decisão de importar uma máquina desse tipo nos anos 1970 mostra que a Fey deixou cedo de pensar apenas como uma pequena oficina local. A empresa passou a investir em tecnologia para ganhar escala e disputar clientes em cadeias produtivas maiores.

A mudança para a BR-470 colocou a empresa em rota de crescimento

Com o aumento da produção, o espaço no centro de Indaial se tornou insuficiente. A saída foi construir uma nova unidade às margens da BR-470, uma rodovia estratégica para o Vale do Itajaí e para a logística industrial de Santa Catarina.

A primeira expansão veio em dois anos e preparou o salto tecnológico
A primeira expansão veio em dois anos e preparou o salto tecnológico. (Foto: Fey)

As atividades no novo endereço começaram em 1976. A escolha da localização foi importante porque colocou a empresa em uma área com mais possibilidade de expansão e melhor conexão para transporte de insumos e produtos acabados.

A estrutura inicial da nova unidade tinha cerca de 3,2 mil metros quadrados. Década após década, a fábrica foi crescendo até alcançar 15 mil metros quadrados no ano 2000, acompanhando a ampliação do portfólio e da demanda.

Em 2001, a empresa abriu outro capítulo com a construção de um novo pavilhão de 8 mil metros quadrados, também na BR-470. Cinco anos depois, em 2006, toda a operação foi transferida para esse complexo, que passou a concentrar a produção.

Hoje, conforme materiais institucionais da Fey e informações divulgadas pela imprensa catarinense, a empresa opera em uma estrutura superior a 40 mil metros quadrados e informa capacidade instalada de até 3 mil toneladas de produtos por mês.

De porcas para uma linha completa de fixadores industriais

A Fey começou produzindo pequenas porcas para reposição, mas a empresa ampliou sua atuação ao longo das décadas. Atualmente, o portfólio inclui porcas, parafusos, grampos de mola, pinos de centro e peças especiais de alto valor agregado.

Esses produtos fazem parte do universo dos fixadores, itens que parecem simples para o consumidor comum, mas são indispensáveis para veículos, máquinas, implementos agrícolas, motocicletas, tratores e diferentes equipamentos industriais.

Segundo informações institucionais da companhia, a Fey abastece mercados como automotivo, agrícola, tratores, motocicletas, distribuição geral e postos de molas. Essa diversificação ajudou a empresa a depender menos de um único nicho e a se posicionar como fornecedora para cadeias mais exigentes.

O setor automotivo, por exemplo, costuma exigir padronização, rastreabilidade, controle de qualidade e capacidade de fornecimento contínuo. Por isso, uma fabricante de fixadores que entra nessa cadeia precisa operar com nível técnico superior ao de uma simples produção de reposição.

A evolução também mostra como uma peça pequena pode sustentar uma indústria grande. Porcas, parafusos e grampos não chamam atenção no produto final, mas sem eles não há montagem segura, manutenção confiável nem escala produtiva.

O caso Fey ajuda a explicar a força industrial de Santa Catarina

A história da Fey não é apenas uma narrativa familiar. Ela também se conecta ao perfil industrial de Santa Catarina, estado conhecido por polos regionais fortes, empresas familiares longevas e presença relevante em setores como metalmecânico, têxtil, alimentos, cerâmica, máquinas e equipamentos.

De acordo com a FIESC, a indústria catarinense tem peso elevado na geração de empregos e na diversificação econômica do estado. Esse ambiente ajuda a explicar por que empresas médias e grandes conseguiram crescer fora dos grandes centros nacionais.

No caso da Fey, a localização no Vale do Itajaí também foi relevante. A região desenvolveu uma cultura industrial forte, com mão de obra treinada, fornecedores próximos, tradição empreendedora e conexão logística com outras áreas de Santa Catarina.

A trajetória, porém, também revela um ponto sensível. O crescimento da empresa veio acompanhado de decisões arriscadas, sucessão familiar, investimento pesado em máquinas e adaptação constante às exigências do mercado.

Por isso, o caso não deve ser lido apenas como uma história de sorte. A compra da fábrica parada abriu a porta, mas foram décadas de expansão, tecnologia e mudança de escala que transformaram a aposta do agricultor em uma operação industrial consolidada.

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Geovane Souza

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