A NASA destinou US$ 30 milhões à Katalyst para construir a nave LINK capaz de acoplar ao telescópio Swift e empurrá-lo de volta à órbita antes que o arrasto atmosférico intensificado pelo ciclo do Sol o faça reentrar na atmosfera, com lançamento previsto para junho de 2026 por foguete Pegasus XL.
A NASA prepara missão inédita para impedir que um telescópio espacial de duas décadas de operação se transforme em lixo incandescente ao reentrar na atmosfera terrestre. O Observatório Neil Gehrels Swift, lançado em novembro de 2004 e considerado ferramenta essencial para a observação de explosões de raios gama, está perdendo altitude porque o arrasto da atmosfera superior freia gradualmente sua velocidade orbital, e esse efeito foi intensificado pelo ciclo de atividade solar que atingiu pico em outubro de 2024 e provocou expansão das camadas mais altas da atmosfera. Estimativas da NASA indicavam em novembro de 2025 que havia 50% de probabilidade de o telescópio reentrar na atmosfera até junho de 2026 e 90% de chance de isso acontecer antes de 2027, cenário que transformou a operação de resgate em corrida contra o tempo.
A solução encontrada pela NASA é tão criativa quanto urgente. A agência espacial firmou parceria com a empresa privada Katalyst e destinou US$ 30 milhões para o desenvolvimento do LINK, espaçonave robótica projetada para se acoplar ao telescópio e empurrá-lo de volta a uma órbita mais elevada onde o arrasto atmosférico seja insuficiente para continuar derrubando-o. O LINK está em fase de testes desde 14 de abril no Centro de Voos Espaciais Goddard e deve ser lançado por um foguete Pegasus XL da Northrop Grumman, embora a data exata de lançamento ainda não tenha sido confirmada.
Por que o Sol está empurrando o telescópio para baixo

A explicação envolve física que conecta a atividade solar ao destino de satélites e equipamentos em órbita baixa. O Sol passa por ciclos de aproximadamente 11 anos em que sua atividade aumenta e diminui, e quando o ciclo atinge o pico, a radiação e as partículas emitidas pelo Sol aquecem a atmosfera superior da Terra, fazendo com que ela se expanda para altitudes maiores. Essa expansão aumenta a densidade do ar em faixas orbitais onde antes o espaço era praticamente vazio, e o telescópio Swift, que orbita nessa região, passa a enfrentar arrasto crescente que funciona como freio invisível subtraindo velocidade a cada volta ao redor do planeta.
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A perda de velocidade tem consequência direta na altitude do telescópio. Um satélite em órbita mantém sua altura porque a velocidade orbital equilibra a gravidade terrestre, e quando o arrasto reduz essa velocidade, o equilíbrio se rompe e o objeto começa a descer em espiral que se acelera conforme ele atinge camadas atmosféricas mais densas. O telescópio Swift está nesse processo de queda gradual, e sem intervenção a espiral terminará com reentrada descontrolada em que o equipamento se desintegrará parcialmente na atmosfera, com fragmentos podendo atingir a superfície terrestre.
O que é o telescópio Swift e por que a NASA quer salvá-lo
O Observatório Neil Gehrels Swift não é equipamento qualquer no arsenal científico da NASA. Lançado em novembro de 2004, o telescópio se especializou na detecção e observação de explosões de raios gama, fenômenos que representam as liberações de energia mais intensas do universo e que ocorrem quando estrelas massivas colapsam ou quando objetos compactos como estrelas de nêutrons colidem. Ao longo de duas décadas, o telescópio acumulou dados que fundamentaram centenas de publicações científicas e que ampliaram a compreensão da humanidade sobre os eventos mais extremos do cosmos.
Mais recentemente, o telescópio demonstrou versatilidade ao ser utilizado no estudo do cometa interestelar 3I/ATLAS, objeto vindo de fora do Sistema Solar. A capacidade de reposicionamento rápido do Swift, que pode apontar para qualquer direção do céu em menos de um minuto, o torna insubstituível para observar fenômenos transitórios que aparecem e desaparecem em questão de horas ou dias. Construir e lançar um substituto levaria anos e custaria centenas de milhões de dólares, o que torna os US$ 30 milhões investidos no resgate do telescópio barganha quando comparados ao custo de reposição.
Como a espaçonave LINK vai salvar o telescópio
O LINK foi projetado pela Katalyst especificamente para esta missão de resgate. A espaçonave robótica será lançada por um foguete Pegasus XL da Northrop Grumman, modelo que decola a partir de uma aeronave em voo em vez de uma plataforma no solo, e após atingir a órbita do telescópio se acoplará ao Swift utilizando mecanismo que não foi previsto no projeto original do equipamento, o que torna a operação tecnicamente desafiadora. O telescópio não foi construído com portas de acoplamento ou pontos de fixação para manutenção orbital, e a equipe da Katalyst precisou projetar o LINK para se prender a estruturas externas do equipamento sem danificá-lo.
Uma vez acoplado, o LINK acionará seus propulsores para elevar gradualmente a órbita do telescópio até altitude onde o arrasto atmosférico seja insignificante. “O Swift ainda está produzindo dados científicos valiosos, e temos uma maneira de preservá-los enquanto estabelecemos um modelo para como operamos no espaço”, declarou Ghonhee Lee, CEO da Katalyst, destacando que a missão pode criar precedente para futuras operações de resgate de satélites e telescópios que enfrentem problema semelhante. A previsão inicial aponta para junho de 2026 como janela de lançamento, prazo apertado considerando que as estimativas de reentrada do telescópio apontam para o mesmo período.
O que a equipe do telescópio fez para ganhar tempo até o resgate
Enquanto o LINK não decola, engenheiros da NASA adotaram medidas para desacelerar a queda do telescópio. A equipe desligou instrumentos que consumiam energia desnecessária e reposicionou os painéis solares do equipamento de forma a reduzir a área de superfície exposta na direção do movimento orbital, diminuindo o arrasto atmosférico que puxa o telescópio para baixo. Essas manobras funcionam como equivalente espacial de encolher o corpo ao caminhar contra o vento: não eliminam a resistência, mas reduzem seu efeito o suficiente para ganhar semanas ou meses adicionais de operação.
As medidas já garantiram tempo extra que pode ser decisivo para o sucesso do resgate. Cada dia que o telescópio permanece em órbita é dia a mais para a Katalyst completar os testes do LINK e preparar o lançamento, e a combinação entre economia de energia e redução de arrasto comprou exatamente o que a missão precisava: margem para que a solução definitiva chegue antes que o problema se torne irreversível. A corrida entre a queda do telescópio e o lançamento do LINK é o tipo de drama silencioso que acontece a centenas de quilômetros acima das nossas cabeças sem que a maioria das pessoas saiba.
E você, sabia que o Sol pode derrubar satélites ao expandir a atmosfera? Acha que vale gastar US$ 30 milhões para salvar um telescópio de 20 anos? Deixe sua opinião nos comentários.

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