O túnel duplo do Morro do Vieira em Jaraguá do Sul terá 1.000 metros com pavimento de concreto em vez de asfalto, escolha que garante vida útil superior a 40 anos na serra catarinense, em obra de R$ 228 milhões já com 80% de execução dentro da duplicação da BR-280.
O concreto está substituindo o asfalto no túnel mais importante que Santa Catarina constrói neste momento, e o motivo vai além da preferência de engenharia: é questão de matemática. O túnel duplo do Morro do Vieira, em Jaraguá do Sul, no Norte catarinense, terá cerca de 1.000 metros de extensão com pavimento rígido de concreto que pode chegar a aproximadamente 26 centímetros de espessura, mais de quatro vezes os 6 centímetros do asfalto tradicional, diferença que garante vida útil medida em décadas em vez de anos. A estrutura integra a duplicação da BR-280 no trecho entre Schroeder e Jaraguá do Sul, obra com investimento de R$ 228 milhões que já ultrapassou 80% de execução segundo o DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes).
A prova de que o concreto funciona está a poucos quilômetros dali. Na Serra Dona Francisca (SC-418), trechos pavimentados com concreto resistem há mais de quatro décadas sem necessidade de intervenção estrutural significativa, conforme explica André Torrens, engenheiro e coordenador regional de infraestrutura do Norte do estado. Enquanto o asfalto convencional em rodovias de serra precisa de recapeamento a cada poucos anos por causa do desgaste provocado pelo tráfego pesado e pela inclinação que intensifica o atrito entre pneus e pista, o concreto mantém a superfície íntegra por período incomparavelmente maior, tornando o custo inicial mais alto em investimento que se paga ao longo do tempo.
Por que o concreto foi escolhido em vez do asfalto para o túnel da BR-280

A decisão de pavimentar o túnel com concreto está diretamente ligada às condições que o material enfrentará dentro da estrutura. Túneis concentram tráfego pesado em espaço confinado onde caminhões e carretas passam repetidamente sobre o mesmo trecho de piso sem a alternância de faixas que ocorre em rodovias abertas, concentração que acelera o desgaste do asfalto e exigiria manutenção frequente num ambiente onde qualquer obra de reparo obriga a interdição parcial ou total do tráfego. O concreto elimina essa necessidade ao suportar o peso e a repetição sem deformação por período que pode ultrapassar 40 anos, como demonstram os trechos da Serra Dona Francisca.
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A espessura do concreto é parte fundamental da vantagem. Os aproximadamente 26 centímetros de pavimento rígido distribuem a carga dos veículos sobre área maior da base, reduzindo a pressão pontual que causa as famosas ondulações e buracos no asfalto de apenas 6 centímetros. Dentro do túnel do Morro do Vieira, onde cada metro de pavimento receberá centenas de passagens diárias de veículos pesados ao longo de décadas, a diferença entre 26 e 6 centímetros de espessura é o que separa uma pista que dura 40 anos de uma que precisa de reparos a cada 5.
O que a Serra Dona Francisca prova sobre a durabilidade do concreto

O exemplo mais convincente para a escolha do concreto no túnel da BR-280 está na própria região. A Serra Dona Francisca, rodovia estadual SC-418, possui trechos pavimentados com concreto que foram executados há mais de quatro décadas e que ainda resistem ao tráfego sem ter passado por reconstrução completa do pavimento. Essas curvas e rampas enfrentam condições severas: chuva frequente, variação de temperatura, caminhões carregados freando em descidas íngremes e motocicletas acelerando nas subidas, cenário que destruiria asfalto convencional em fração do tempo.
André Torrens contextualiza a diferença entre os dois materiais com explicação que qualquer pessoa entende. “Concreto asfáltico é feito com cimento asfáltico que é retirado do petróleo, popularmente conhecido como asfalto. Já o concreto de cimento Portland é feito com aquele cimento que você compra em saco na loja de material de construção, que faz calçada, que faz laje de casas”, disse o engenheiro, comparação que ilustra por que o concreto de cimento Portland tem rigidez superior: o mesmo material que sustenta edifícios por séculos é o que mantém a pista de rodovias por décadas. A estrutura molecular do concreto resiste ao desgaste de forma que o asfalto, derivado de petróleo, não consegue replicar.
Qual a diferença entre pavimento rígido e white topping no concreto
A terminologia técnica distingue duas formas de aplicar concreto em rodovias. Quando o concreto é executado diretamente sobre a base preparada no solo, como acontecerá no túnel da BR-280, o método é chamado de pavimento rígido, construção que começa do zero com camadas de preparação do terreno sobre as quais a placa de concreto é moldada com espessura projetada para a carga prevista. Essa é a técnica aplicada no túnel do Morro do Vieira, onde não existe pavimento anterior e a superfície é construída integralmente em concreto.
Já quando o concreto é aplicado sobre um pavimento de asfalto já existente, o processo recebe o nome de white topping, expressão inglesa traduzida como “cobertura branca”. O white topping funciona como reforço que transforma superfície asfáltica desgastada em pista com propriedades do concreto sem a necessidade de remover completamente o pavimento anterior. Apesar das diferenças de aplicação, Torrens destaca que ambos são concreto de cimento Portland e compartilham as mesmas vantagens de durabilidade e resistência que fazem o material ser preferido em túneis, serras e trechos com tráfego pesado onde o asfalto capitularia em poucos anos.
Por que o custo inicial maior do concreto compensa no longo prazo
O argumento mais frequente contra o uso de concreto em rodovias é o custo inicial, que é significativamente superior ao do asfalto. Pavimentar o túnel de 1.000 metros da BR-280 com concreto custa mais do que a alternativa asfáltica, e os R$ 228 milhões investidos na obra refletem parcialmente essa escolha pelo material mais caro na execução. No entanto, a análise financeira muda completamente quando o horizonte temporal se amplia para 20, 30 ou 40 anos: cada recapeamento que o asfalto exigiria ao longo dessas décadas tem custo de execução, custo de interdição do tráfego e custo de logística que o concreto simplesmente elimina.
O cálculo é particularmente favorável ao concreto em túneis. Manter equipes de pavimentação trabalhando dentro de um túnel exige ventilação reforçada, iluminação artificial, desvio completo do tráfego para o tubo oposto e tempo de cura do material que prolonga a interdição, custos que em estruturas abertas são muito menores. Cada manutenção evitada pelo uso de concreto no túnel do Morro do Vieira representa economia que pode chegar a milhões de reais quando se somam todas as intervenções que o asfalto demandaria ao longo de quatro décadas de operação, período em que o concreto estará funcionando exatamente como no primeiro dia.
E você, já passou por trechos de concreto em rodovias de serra? Percebeu a diferença em relação ao asfalto? Deixe sua opinião nos comentários.

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