Em Porto Alegre, a estilista Marina Anderle Giongo criou a CÓS Costura Consciente, que transforma o nylon de guarda-chuva descartado em jaquetas e outras peças de moda. O coletivo reúne 101 costureiras, já produziu 19.500 peças e faturou R$ 240 mil, dando novo uso a milhares de guarda-chuvas quebrados.
No Rio Grande do Sul, um guarda-chuva quebrado deixou de ser lixo para virar roupa. Em Porto Alegre, a CÓS Costura Consciente transforma o nylon de guarda-chuvas danificados em jaquetas impermeáveis e acessórios, provando que dá para unir moda, renda e reaproveitamento. A história foi contada pelo Projeto Draft.
À frente do projeto está a estilista e designer Marina Anderle Giongo, doutora em design com pesquisa em moda sustentável. Ela montou uma rede que hoje reúne 101 costureiras e já produziu 19.500 peças a partir de tecido que, de outra forma, iria para o lixo.
Os números mostram um negócio de verdade. Segundo o Projeto Draft, a CÓS faturou R$ 240 mil em 2024 e, depois da enchente que atingiu o estado naquele ano, reaproveitou 5.777 guarda-chuvas que seriam descartados, desviando centenas de quilos de resíduo dos aterros.
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O processo une desmonte, lavagem industrial e costura, transformando o nylon impermeável em jaquetas cheias de estilo. A seguir, veja quem é Marina, como um guarda-chuva velho vira jaqueta e por que essa iniciativa gaúcha tem tudo a ver com o Brasil.
Quem é Marina Anderle Giongo, a estilista por trás da CÓS

A protagonista da história tem formação de sobra na área. Segundo o Projeto Draft, Marina Anderle Giongo, de 37 anos, é doutora em design, com pesquisa voltada a marcas de moda sustentável. Foi essa bagagem que a levou a enxergar valor onde a maioria vê apenas descarte.
O caminho começou antes da marca. Em 2018, Marina aceitou o desafio de montar em Porto Alegre uma unidade do Banco de Tecido, iniciativa que reaproveita sobras de tecido da indústria. A partir daí, a ideia de transformar resíduo têxtil em produto foi ganhando forma e virou um coletivo de costureiras.
A CÓS nasceu como projeto e depois virou empresa. A iniciativa surgiu por volta de 2019, ligada à extensão universitária, e foi formalizada como negócio em 2021, quando uma doação de guarda-chuvas com defeito revelou uma oportunidade concreta de mercado.
Foi aí que a chave virou. “Como já tinha marcas encomendando produtos para o grupo, vimos que havia uma oportunidade”, contou Marina ao Projeto Draft. Do serviço de costura para terceiros, a CÓS passou a criar suas próprias jaquetas e acessórios, com identidade e proposta ambiental.
Vale entender o que é o Banco de Tecido. Trata-se de uma iniciativa que recolhe sobras de tecido da indústria da moda e as coloca de volta em uso, evitando que virem lixo. Foi nesse universo de reaproveitamento que Marina desenvolveu o método que, mais tarde, aplicaria aos guarda-chuvas.
Como o nylon de guarda-chuva vira jaqueta

O segredo está em enxergar o guarda-chuva como matéria-prima. Quando quebra, o objeto costuma ir direto para o lixo, mas a parte de tecido continua boa. É justamente esse nylon impermeável que a CÓS recupera para transformar em roupa.
O processo tem etapas bem definidas. Os guarda-chuvas danificados são desmanchados, o nylon passa por lavagem industrial e o tecido higienizado é cortado e costurado. No fim, o material que protegia da chuva vira uma jaqueta corta-vento pronta para usar.
Cada peça acaba sendo única. Como o tecido vem de guarda-chuvas diferentes, as jaquetas combinam painéis de cores variadas, o que dá a cada modelo uma aparência exclusiva. Essa mistura, típica do reaproveitamento, virou marca registrada da moda feita pela CÓS.

A criatividade não para no guarda-chuva. O coletivo também trabalha com outros resíduos, como restos de pipas de kitesurf, e chega a testar o uso de paraquedas como matéria-prima. A lógica é sempre a mesma: transformar material técnico descartado em moda.
Trabalhar com esse tipo de tecido tem seus desafios. O nylon de guarda-chuva costuma ter costuras, varetas e reforços que precisam ser removidos antes do corte, além de exigir limpeza cuidadosa. Vencidas essas etapas, o material se revela leve, resistente e à prova d’água, ideal para uma jaqueta.
Os números do coletivo: 101 costureiras e 19.500 peças
Por trás das jaquetas existe uma rede de gente. A CÓS reúne 101 costureiras cadastradas, que participam da produção das peças feitas com nylon de guarda-chuva e outros resíduos têxteis. É esse time que dá conta da demanda.
A produção acumulada impressiona. De acordo com a mesma fonte, o coletivo já produziu 19.500 peças desde 2019, entre jaquetas, acessórios e outros itens. O volume mostra que a proposta saiu do papel e ganhou escala real de produção.
O impacto ambiental também aparece nos números. Desde 2019 a CÓS evitou o descarte de cerca de mil quilos de resíduo têxtil, ou seja, uma tonelada de material que deixou de ir para o lixo. Cada guarda-chuva reaproveitado reduz um pouco esse desperdício.
Esses dados dão dimensão ao trabalho. Não se trata de uma peça de vitrine feita para chamar atenção, e sim de uma operação contínua, com costureiras, metas e produção em série. A moda sustentável, aqui, virou rotina de ateliê.
Para ter noção, mil quilos de resíduo têxtil equivalem ao peso de um carro popular inteiro em tecido que deixou de ir para o aterro. Espalhado ao longo dos anos e de milhares de peças, esse volume ajuda a entender por que o trabalho das costureiras faz diferença real.
Uma rede que gera renda para as costureiras
O ponto central do projeto é a geração de renda. Mais do que reciclar nylon, a CÓS organiza um modelo de trabalho para costureiras de Porto Alegre, que encontram na rede uma forma de ganhar dinheiro com o que sabem fazer.
O funcionamento é flexível. Segundo o Projeto Draft, as costureiras se cadastram por um formulário e escolhem os horários de trabalho por WhatsApp, dentro dos turnos disponíveis, em geral com algumas vagas por semana. O pagamento é feito por peça produzida.
Há também espaço para crescer. De acordo com a reportagem, as costureiras evoluem de tarefas básicas para etapas mais complexas, como modelagem, e chegam a participar do processo criativo das peças. A ideia é desenvolver habilidades, e não apenas terceirizar mão de obra.
Esse desenho aproxima moda e trabalho de forma concreta. Ao distribuir a produção entre 101 costureiras, a CÓS transforma o reaproveitamento de guarda-chuva em ocupação e renda, mostrando que uma marca de moda sustentável pode movimentar toda uma cadeia local.
A flexibilidade dos turnos tem um efeito prático. Ao escolher os horários conforme a própria rotina, muitas costureiras conseguem conciliar o trabalho na CÓS com outras tarefas do dia a dia. Isso amplia o acesso à renda e faz a rede caber na vida real de quem participa, sem depender de um expediente fixo.
A enchente de 2024 e a virada de escala
O ano de 2024 marcou uma mudança de patamar. A enchente que atingiu o Rio Grande do Sul causou estragos enormes no estado, e a fabricante gaúcha de guarda-chuvas Fazzoletti teve o estoque danificado pelas águas, segundo o Jornal do Comércio.
Em vez de virar lixo, o material foi resgatado. Diante do risco de descarte, a equipe da CÓS entrou em ação e recuperou 5.777 guarda-chuvas, o que representou cerca de 485 quilos de resíduo desviados dos aterros. Foi o maior volume de matéria-prima que o coletivo já reuniu de uma só vez.
O montante inicial era ainda maior. A empresa parceira chegou a oferecer cerca de 30 mil guarda-chuvas danificados, dos quais o coletivo conseguiu selecionar e aproveitar uma parte. O restante fugia à capacidade de triagem e higienização disponível naquele momento.
O próprio ateliê havia sido atingido. O espaço da CÓS chegou a ficar com 1,10 metro de água e teve prejuízo de cerca de R$ 40 mil, o que obrigou a equipe a se reorganizar antes de encarar o novo lote de nylon.
A recuperação exigiu esforço coletivo. Segundo o Jornal do Comércio, o processo de triagem e higienização custou por volta de R$ 17 mil, valor bancado por um financiamento coletivo que reuniu mais de cem apoiadores. Foi assim que os guarda-chuvas puderam virar jaquetas em maior quantidade.
Passada a fase mais difícil, o material ganhou novo destino. Higienizado e separado, o nylon dos guarda-chuvas resgatados virou base para novas coleções, transformando um estoque condenado ao lixo em produto. Foi essa virada que levou o projeto a um novo patamar de escala.
R$ 240 mil em um ano: o negócio por trás da moda reciclada
O reaproveitamento virou faturamento. Segundo o Projeto Draft, a CÓS registrou R$ 240 mil em 2024, resultado que mostra a força de um modelo baseado em nylon reciclado, trabalho de costureiras e moda com propósito. É um número relevante para um coletivo local.
O jeito de vender também evita desperdício. De acordo com a reportagem, a CÓS aposta em pré-vendas por financiamento coletivo, produzindo conforme a procura, o que reduz o risco de estoque parado. Assim, cada jaqueta de guarda-chuva costuma sair já com destino certo.
Esse modelo de pré-venda tem uma vantagem clara. Como as peças são produzidas sob encomenda, a CÓS não acumula jaquetas paradas em estoque, o que reduz custo e desperdício. O cliente, por sua vez, ajuda a financiar a produção antes mesmo de a peça ficar pronta.
Esse equilíbrio é o grande trunfo do projeto. Ao juntar reaproveitamento, renda e vendas planejadas, a marca mostra que moda sustentável pode ser financeiramente saudável. O lucro não vem apesar da proposta ambiental, e sim por causa dela.
Vale lembrar de onde tudo partiu. Transformar um guarda-chuva quebrado em receita de R$ 240 mil é um exemplo de economia circular na prática, em que o descarte de um vira insumo de outro. O nylon, antes lixo, virou base de um negócio.
O que torna a jaqueta de guarda-chuva diferente?
A resposta começa pelo material. O nylon de guarda-chuva é feito para aguentar chuva e vento, o que o torna ideal para jaquetas corta-vento. Ou seja, o tecido já nasce com a função que a peça final vai exercer, só que numa nova forma.
O segundo diferencial é a estética. Como cada guarda-chuva tem sua cor, as jaquetas da CÓS ganham combinações que não se repetem, com painéis coloridos costurados lado a lado. Isso transforma uma limitação do reaproveitamento em identidade visual de moda.
Há ainda o valor da história. Vestir uma jaqueta feita de guarda-chuvas reaproveitados, produzida por uma rede de costureiras, carrega um significado que uma peça comum não tem. O produto vira também um gesto de consumo mais consciente.
Por fim, existe o caráter artesanal. Por passar pelas mãos de costureiras que participam da criação, cada jaqueta tem acabamento cuidadoso e um toque autoral. É moda pensada peça a peça, e não produção anônima em larga escala.
Do ponto de vista prático, há ainda a durabilidade. Por usar nylon feito para encarar chuva e sol, a jaqueta tende a resistir bem ao uso diário e ao tempo. É um caso em que a origem do material, um guarda-chuva, acaba reforçando a qualidade do produto final.
O que isso tem a ver com o Brasil
O Brasil convive com uma montanha de resíduo têxtil. Roupas e tecidos descartados se acumulam em aterros todos os anos, e itens como guarda-chuvas quebrados quase nunca são reciclados. Projetos como a CÓS mostram um caminho para mudar esse cenário.
A lógica é a da economia circular. Em vez de tratar o nylon usado como fim de linha, a CÓS o transforma em jaquetas, provando que o lixo de um processo pode ser a matéria-prima de outro. É um modelo que o país precisa ampliar para reduzir desperdício.
Há também um recado sobre renda e trabalho. Ao gerar ocupação para 101 costureiras, a iniciativa une pauta ambiental e social, algo valioso num país que busca empregos e alternativas de renda. A moda sustentável, nesse caso, também é geração de trabalho.
Por fim, a experiência gaúcha inspira réplicas. Se um coletivo de Porto Alegre consegue transformar guarda-chuva em jaqueta e faturar com isso, outras cidades brasileiras podem adotar ideias parecidas. Reaproveitar material descartado é uma oportunidade que está espalhada pelo Brasil inteiro.
O tamanho do desafio é grande. O Brasil está entre os maiores geradores de resíduo têxtil da América Latina, empurrado pelo ritmo acelerado da moda e pelo descarte constante de roupas e acessórios. Nesse cenário, reaproveitar até um guarda-chuva deixa de ser detalhe e vira parte da solução.
E você, vestiria uma jaqueta feita de guarda-chuva?
A trajetória da CÓS mostra como criatividade e propósito podem transformar lixo em oportunidade. Nascida em Porto Alegre, a marca da estilista Marina Anderle Giongo já reúne 101 costureiras, produziu 19.500 peças e faturou R$ 240 mil, dando ao nylon de guarda-chuva uma segunda vida em forma de jaqueta.
Mais do que um caso de moda, é um exemplo de economia circular e de geração de renda no Brasil, nascido de uma ideia simples e levado a sério ano após ano. Ao reaproveitar 5.777 guarda-chuvas que seriam descartados, o coletivo mostrou que sustentabilidade e negócio podem caminhar juntos, com pé no chão e resultado real.
E você, vestiria uma jaqueta feita a partir do nylon de um guarda-chuva reaproveitado? Acha que mais marcas de moda deveriam apostar em reaproveitar material descartado e gerar renda para costureiras? Conta aqui nos comentários a sua opinião e compartilhe com quem gosta de moda sustentável.
