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O que para uns é lixo, para outros é comida: na Holanda, garrafas e latas jogadas nas ruas viram dinheiro em máquinas de devolução e ajudam a sustentar pessoas que dependem de centavos por embalagem para conseguir comer

Escrito por Ana Alice
Publicado em 05/06/2026 às 23:58
Lojas na Holanda devolvem dinheiro por garrafas e latas usadas e ajudam o país a ampliar a reciclagem de embalagens. (Imagem: Ilustrativa)
Lojas na Holanda devolvem dinheiro por garrafas e latas usadas e ajudam o país a ampliar a reciclagem de embalagens. (Imagem: Ilustrativa)
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Na Holanda, lojas especializadas em devolução de embalagens mostram como garrafas e latas usadas podem circular entre consumo, renda, reciclagem e metas ambientais, em um sistema que mistura tecnologia, comportamento e política pública.

Lojas criadas exclusivamente para receber garrafas plásticas e latas com depósito passaram a ser usadas na Holanda como alternativa para ampliar a devolução de embalagens e reduzir a dependência das máquinas instaladas em supermercados.

O sistema permite que consumidores entreguem recipientes usados, recebam de volta o valor pago no momento da compra e contribuam para a meta legal do país de recolher 90% das garrafas e latas comercializadas.

O modelo, conhecido em holandês como statiegeld, funciona a partir de um depósito cobrado na compra de bebidas em latas, garrafas plásticas ou garrafas de vidro.

O valor costuma variar entre 15 centavos e 25 centavos de euro, conforme o tamanho e o tipo da embalagem.

A quantia pode ser recuperada quando o recipiente é entregue em uma máquina reversa de coleta.

Na prática, uma embalagem vazia passa a ter valor econômico.

Para consumidores, o retorno pode significar apenas a recuperação de um pequeno gasto.

Para pessoas que recolhem latas e garrafas nas ruas ou para pequenos negócios que acumulam grandes volumes, o depósito pode representar renda complementar ou reforço no caixa.

Como funciona o statiegeld na Holanda

Em Amsterdã, uma das lojas Statiegeld funciona na Nieuwezijds Voorburgwal, área de circulação intensa na capital holandesa.

Foi ali que Mariama Kamara chegou com três grandes sacos azuis cheios de latas e garrafas.

Ela havia recebido a tarefa da tia, dona de um restaurante próximo.

Em cerca de sete minutos, Mariama colocou aproximadamente 350 latas na máquina de devolução e recebeu mais de 50 euros, valor que seria destinado ao negócio da família.

“É uma ideia muito legal, e tão conveniente”, afirmou ela no relato original.

A principal diferença entre essas lojas e os pontos tradicionais está no volume que pode ser entregue.

Em supermercados, consumidores geralmente inserem garrafas e latas uma a uma.

Também há casos em que as máquinas estão fora de operação, têm capacidade limitada ou recusam embalagens de marcas que não são vendidas pela rede.

Nos centros dedicados ao statiegeld, o processo foi estruturado para receber quantidades maiores de embalagens.

O objetivo, segundo a Verpact, organização responsável pelo sistema em nome da indústria de embalagens, é facilitar a devolução e aumentar o índice de retorno dos recipientes cobertos pelo depósito.

Por que a Holanda criou lojas para garrafas e latas

A Holanda já contava com um sistema de depósito antes da abertura dessas lojas.

O mecanismo foi ampliado ao longo dos anos e passou a incluir diferentes tipos de recipientes, como garrafas plásticas e latas.

O avanço ocorreu em meio a metas legais de coleta e a políticas voltadas à reciclagem e à redução de resíduos em espaços públicos.

Apesar de apresentar taxas consideradas altas em comparação com muitos países, o sistema holandês ainda não atingiu o patamar exigido pela legislação nacional.

Segundo a Verpact, 77% das garrafas plásticas de bebidas e 84% das latas foram devolvidas no último balanço citado no material original.

A meta, no entanto, é de pelo menos 90%.

A distância entre o resultado obtido e a obrigação legal levou à criação de pontos especializados.

A primeira loja do tipo foi aberta em Roterdã, em maio, com uma máquina capaz de processar até 200 garrafas e latas de uma vez.

De acordo com a Verpact, mais de um milhão de embalagens com depósito foram entregues desde então nesse modelo de operação.

Amsterdã passou a contar com duas lojas Statiegeld.

Pela localização central, esses pontos atraem moradores, turistas, comerciantes e pessoas que recolhem embalagens por várias horas para trocar os recipientes por dinheiro.

Um funcionário da Kiepe Safety Group, empresa responsável pela equipe das lojas, resumiu a diferença de percepção sobre o material recolhido: “Para algumas pessoas, é lixo; para outras, é algo para comer”.

Reciclagem de embalagens e responsabilidade da indústria

As empresas que colocam produtos embalados no mercado holandês têm obrigação legal de participar da coleta e da reciclagem dessas embalagens, incluindo o funcionamento do sistema de depósito.

A Verpact atua em nome da indústria de embalagens e informa anualmente os resultados ao governo.

Depois de recolhidas, as embalagens passam por triagem, limpeza e processamento.

Parte do material é transformada em nova matéria-prima e pode voltar à cadeia produtiva.

Segundo a Verpact, o PET reciclado é utilizado na fabricação de novas garrafas PET.

No relatório citado no material original, a organização informou que, em 2023, as garrafas PET já continham, em média, 44% de PET reciclado.

A Holanda também passou a exigir que, até 2025, 25% do material de uma garrafa PET seja composto por material reciclado.

Esse processo integra políticas de economia circular, nas quais materiais usados são reaproveitados na produção em vez de serem descartados após um único ciclo de consumo.

No caso das garrafas e latas, o depósito funciona como incentivo financeiro para que o recipiente volte ao sistema de coleta.

Impacto das lojas de devolução no lixo urbano

Sistemas de depósito são associados por governos e organizações ambientais à redução do descarte irregular de embalagens.

Um estudo do Ministério da Infraestrutura e Gestão da Água da Holanda, da consultoria CE Delft e da Universidade de Utrecht apontou queda de 69% na presença de pequenas garrafas plásticas e latas no lixo espalhado em áreas urbanas desde a abertura das lojas, embora o levantamento não atribua o resultado exclusivamente a esses pontos.

Ao mesmo tempo, especialistas apontam efeitos não desejados.

Em algumas cidades, pessoas que recolhem embalagens para obter o depósito passaram a revirar lixeiras em busca de garrafas e latas.

Esse comportamento pode espalhar outros resíduos e aumentar a necessidade de limpeza pública em determinados locais.

Martin Calisto Friant, da organização Circle Economy, afirmou que o problema foi observado especialmente ao redor de lixeiras.

Segundo ele, em algumas cidades houve aumento de sujeira nesses pontos, com custos adicionais para a limpeza urbana.

O especialista também citou casos em que embalagens quebradas atraem animais.

O custo de operação é outro ponto citado por quem acompanha o tema.

Máquinas reversas, transporte, centrais de processamento e manutenção exigem investimento constante.

Hester Klein Lankhorst, CEO da Verpact, reconheceu que o sistema é caro, mas afirmou que ele contribui para reduzir o descarte irregular.

Valor do depósito e consumo de embalagens descartáveis

Parte das críticas ao modelo se concentra no valor pago ao consumidor.

Thomas Morgenstern, da Tomra, empresa norueguesa que fornece máquinas reversas para vários sistemas de depósito, avaliou que o incentivo financeiro para embalagens pequenas é baixo.

Para ele, esse é um dos principais pontos frágeis do modelo holandês.

A discussão também envolve o impacto do sistema sobre o consumo de embalagens descartáveis.

Para Calisto Friant, o depósito pode ajudar na coleta, mas não necessariamente reduz a produção ou o uso de recipientes de uso único.

Na avaliação dele, diminuir o consumo desse tipo de embalagem deveria estar entre as prioridades das políticas ambientais.

Experiências semelhantes já funcionam em outros países.

A província canadense da Colúmbia Britânica criou, em 1970, um sistema obrigatório de retorno para garrafas e latas de cerveja e refrigerante.

A Suécia adotou seu próprio modelo em 1984.

Na Europa, países como Noruega, Alemanha e Irlanda também operam sistemas de depósito.

O tema ganhou peso adicional com regras europeias que estabelecem metas de coleta para garrafas plásticas de uso único e latas.

Por isso, outros países passaram a criar ou ampliar modelos de devolução, com diferentes formatos de pagamento, operação e responsabilidade da indústria.

Lojas especializadas como apoio ao sistema de coleta

Para a Verpact, o cenário desejado seria que os pontos de venda tivessem unidades de coleta em funcionamento adequado e com capacidade para aceitar as embalagens previstas no sistema.

Enquanto essa estrutura não atende plenamente à demanda, as lojas especializadas são tratadas pela organização como uma medida complementar para facilitar a devolução.

A experiência também altera a circulação desses resíduos nas cidades.

Garrafas e latas com depósito passam a ser recolhidas por consumidores, comerciantes e pessoas que buscam renda com a devolução.

O retorno financeiro, ainda que pequeno por unidade, cria uma rede de coleta que envolve diferentes perfis de usuários.

Para Mariama Kamara, a diferença está na praticidade.

Antes, ela precisava ir a supermercados e inserir cada recipiente manualmente, um processo demorado quando havia grande quantidade de embalagens.

“Se eu tivesse que fazer todo o trabalho manualmente, minhas costas doeriam”, disse.

Entre metas legais, máquinas reversas e consumidores que acumulam sacos cheios de latas, a experiência holandesa mostra como o valor financeiro atribuído a uma embalagem pode influenciar o comportamento de descarte.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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