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Brasil tem 30 mil km de ferrovias, mas menos de 10 mil km em operação, por isso prepara pacote de R$ 160 bilhões para reacender os trilhos e reduzir a dependência histórica dos caminhões nas longas distâncias brasileiras

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Escrito por Noel Budeguer Publicado em 26/06/2026 às 19:54 Atualizado em 26/06/2026 às 19:56
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O governo federal aposta em uma nova fase para a logística brasileira, com leilões, corredores estratégicos e financiamento de longo prazo para ampliar o uso dos trilhos no transporte de cargas e aliviar gargalos em rotas importantes do país.
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O governo federal aposta em uma nova fase para a logística brasileira, com leilões, corredores estratégicos e financiamento de longo prazo para ampliar o uso dos trilhos no transporte de cargas e aliviar gargalos em rotas importantes do país.

O Brasil prepara uma das maiores apostas recentes em ferrovias para tentar mudar uma distorção antiga da logística nacional. Um país continental, grande produtor de grãos, minério e alimentos, ainda depende fortemente de caminhões para transportar cargas por longas distâncias.

Agora, o governo federal estrutura uma carteira de R$ 160 bilhões em investimentos para ampliar o transporte ferroviário e elevar a participação dos trilhos na matriz de transporte de 17,7% para 34,6% até 2035, segundo dados divulgados pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República e pelo Ministério dos Transportes.

A meta chama atenção porque não trata apenas de construir trilhos. Ela mira gargalos que afetam frete, portos, rodovias, exportações e a competitividade de regiões produtoras.

Um país grande demais para depender tanto das rodovias

Com menos de 10 mil km de ferrovias em operação, apesar de uma malha de cerca de 30 mil km, o Brasil prepara uma carteira de R$ 160 bilhões para ampliar o transporte sobre trilhos e reduzir a dependência dos caminhões em longas distâncias.
Com menos de 10 mil km de ferrovias em operação, apesar de uma malha de cerca de 30 mil km, o Brasil prepara uma carteira de R$ 160 bilhões para ampliar o transporte sobre trilhos e reduzir a dependência dos caminhões em longas distâncias.

A força da pauta está no contraste. O Brasil tem cerca de 30 mil km de ferrovias, segundo o Ministério dos Transportes, mas menos de 10 mil km estão em operação.

Esse dado ajuda a explicar por que o debate voltou com peso. Em um país de dimensões continentais, transportar carga pesada por caminhão em rotas longas aumenta custos, pressiona rodovias e cria gargalos em corredores que ligam o interior produtivo aos portos.

O ministro dos Transportes, George Santoro, usou o exemplo de Mato Grosso para defender a mudança. A lógica apresentada pelo governo é que o custo para levar carga do Centro-Oeste até Santos não pode pesar mais do que o trecho internacional entre Santos e Shanghái.

A comparação resume o problema. A produção brasileira cresce longe dos portos, mas boa parte da infraestrutura ainda obriga cargas de alto volume a percorrer grandes distâncias sobre pneus.

Plano prevê oito leilões e mais de 9 mil km de trilhos

Segundo o Ministério dos Transportes, a nova carteira ferroviária inclui oito leilões, mais de 9 mil km de trilhos e um modelo de financiamento com prazo de até 40 anos pelo BNDES.

A agenda faz parte da Política Nacional de Outorgas Ferroviárias, apresentada como uma tentativa de organizar concessões, investimentos públicos e privados, sustentabilidade e integração logística.

O governo também fala em mecanismos para cobrir o chamado gap de viabilidade, usado em projetos considerados importantes, mas que não se sustentam apenas com a receita privada esperada.

Na prática, a proposta tenta tornar viáveis corredores ferroviários que interessam ao país, mesmo quando a conta econômica inicial não fecha sozinha para o investidor.

Ferrogrão, FICO, FIOL e novos corredores entram no mapa

Entre os projetos citados pela ANTT, a Ferrogrão aparece como um dos nomes mais fortes. O corredor entre Sinop, em Mato Grosso, e Miritituba ou Itaituba, no Pará, tem 933 km, concessão prevista por 69 anos e CAPEX estimado em R$ 25,2 bilhões.

Outro eixo estratégico é o Corredor Leste-Oeste, formado por FICO e FIOL. A ANTT informa 1.708 km, CAPEX de R$ 28,5 bilhões e demanda de longo prazo próxima de 40 milhões de toneladas.

A carteira também inclui a EF-118, chamada de Anel Ferroviário do Sudeste, com 575 km e CAPEX de R$ 4,2 bilhões. A proposta é melhorar ligações entre Espírito Santo e Rio de Janeiro, além de ampliar o acesso ferroviário a portos.

Na Malha Oeste, o plano envolve 1.973 km e CAPEX de R$ 18,95 bilhões, conectando São Paulo e Mato Grosso do Sul. Já a Malha Sul reúne 4.250 km em corredores que passam por Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Obras em andamento mostram que o plano já começou

Embora boa parte da carteira ainda dependa de concessões, modelagem e cronogramas, alguns projetos já aparecem como vitrines da expansão.

A FICO tem 364 km em construção em Goiás, segundo o Ministério dos Transportes. A obra é executada pela Vale como investimento cruzado ligado à renovação antecipada da Estrada de Ferro Vitória a Minas.

Em Mato Grosso, a extensão da Malha Norte prevê 160 km na primeira fase, terminal em Dom Aquino e composição de 130 vagões para transportar grãos do Centro-Oeste ao Porto de Santos. O projeto é da Rumo, dentro do Novo PAC, com mais de R$ 5 bilhões em investimento privado.

A Transnordestina também entrou no discurso oficial. De acordo com a Secom, a obra conecta o Porto do Pecém, no Ceará, o Porto de Suape, em Pernambuco, e o cerrado do Piauí. O governo citou recorde de 1.700 metros de trilhos em um dia e meta de instalar mais de 200 km de trilhos em 2026.

Carga sobre trilhos cresce, mas desafio ainda é enorme

O setor ferroviário já mostra avanço em volume. A CNT informou que as ferrovias brasileiras transportaram 554,48 milhões de toneladas úteis em 2025, o maior volume da série recente.

Mesmo assim, o salto pretendido pelo governo exige mais do que obras isoladas. É preciso conectar ferrovias a portos, terminais, áreas produtivas, hidrovias e rodovias, evitando que os trilhos terminem longe de onde a carga realmente precisa chegar.

A ANTF, entidade do setor ferroviário de carga, afirma que o transporte por trilhos pode emitir 85% menos CO₂, ser 10 vezes mais seguro e até 30% mais barato que o transporte rodoviário. Esses dados reforçam o argumento do setor, mas precisam ser vistos dentro de cada rota e tipo de carga.

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O ponto delicado está no prazo e na execução

O valor de R$ 160 bilhões não significa que todo o dinheiro já esteja aplicado em obras. A leitura mais correta é que o governo estrutura uma carteira com esse potencial de investimento.

Parte dos projetos depende de leilões, análise técnica, licenciamento, modelagem financeira e avaliação de órgãos de controle. Por isso, o impacto real será medido menos pelo anúncio e mais pela capacidade de tirar corredores do papel.

Ainda assim, a ambição revela uma mudança importante no debate logístico brasileiro. O país não está apenas discutindo novas ferrovias. Está tentando corrigir uma dependência histórica que encarece o transporte, sobrecarrega estradas e limita a competitividade de quem produz longe do litoral.

Se a carteira avançar, o salto ferroviário poderá ir muito além dos trilhos. Ele pode redesenhar a forma como o Brasil escoa sua produção, disputa mercados externos e organiza o próprio território econômico nas próximas décadas.

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Noel Budeguer

Sou jornalista argentino baseado no Rio de Janeiro, com foco em energia e geopolítica, além de tecnologia e assuntos militares. Produzo análises e reportagens com linguagem acessível, dados, contexto e visão estratégica sobre os movimentos que impactam o Brasil e o mundo. 📩 Contato: noelbudeguer@gmail.com

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