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Depois de investir US$ 400 milhões no Brasil, gigante chilena da celulose ameaça levar fábrica de R$ 27 bilhões para o Paraguai por causa de um impasse judicial que pode custar ao Rio Grande do Sul o maior investimento privado de sua história

Escrito por Noel Budeguer
Publicado em 07/06/2026 às 10:22
Atualizado em 07/06/2026 às 10:24
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O maior investimento privado da história do Rio Grande do Sul está à beira do abismo. Uma ação judicial do MPF pode fazer a CMPC abandonar Barra do Ribeiro e levar 12 mil empregos e R$ 27 bilhões para o país vizinho.

O Brasil está prestes a perder R$ 27 bilhões — e a culpa, segundo a própria empresa, é de um “imbróglio jurídico gigantesco” que paralisa obras, afasta fornecedores globais e abre espaço para um país vizinho roubar o investimento.

A chilena CMPC, uma das maiores produtoras de celulose do mundo, colocou um prazo sobre a mesa: até o final de 2026, ou o Projeto Natureza sai do Rio Grande do Sul — ou vai para o Paraguai. A declaração foi feita pelo diretor-geral da empresa no Brasil, Antonio Lacerda, em entrevista ao Jornal do Comércio, e sacudiu o mercado industrial sul-americano.

O projeto que poderia transformar uma cidade de 12 mil habitantes

O Projeto Natureza é um dos maiores empreendimentos industriais privados já planejados no Brasil. A planta de celulose seria instalada em Barra do Ribeiro, município gaúcho de apenas 12 mil habitantes, às margens do rio Guaíba, na Região Metropolitana de Porto Alegre.

Com capacidade para produzir 2,5 milhões de toneladas de celulose de eucalipto por ano, a fábrica seria acompanhada de um terminal portuário próprio no Porto de Rio Grande, avaliado em cerca de R$ 3 bilhões e projetado para escoar a produção diretamente ao mercado internacional.

O cronograma original previa início imediato das obras em 2026 e operação comercial em agosto de 2029. Até agora, a CMPC já comprometeu US$ 400 milhões apenas no desenvolvimento e nos estudos do projeto — sem ter construído um tijolo sequer da fábrica.

Fábrica da CMPC em Guaíba (RS), onde a empresa já opera desde 2009 com capacidade de 2,4 milhões de toneladas de celulose por ano — o Projeto Natureza dobraria essa produção em Barra do Ribeiro
Fábrica da CMPC em Guaíba (RS), onde a empresa já opera desde 2009 com capacidade de 2,4 milhões de toneladas de celulose por ano — o Projeto Natureza dobraria essa produção em Barra do Ribeiro

O prazo, o Paraguai e a frase que o mercado não esquece

Lacerda foi direto ao ponto: sem licença ambiental até dezembro de 2026, o projeto “perde posição na fila dos fornecedores de tecnologia” e pode atrasar entre dois e três anos. Se o cenário se mantiver, a empresa avalia instalar a megafábrica no Paraguai.

A frase que mais repercutiu nos bastidores do setor florestal foi cortante: o Paraguai teria “madeira e previsibilidade jurídica” — dois ativos que o Brasil, segundo a empresa, não consegue oferecer no momento.

Nos últimos anos, o Paraguai tem atraído investidores com custos operacionais menores, incentivos fiscais e processos regulatórios mais rápidos. Embora ainda distante da infraestrutura logística brasileira, a simples menção do país como alternativa real por uma multinacional desse porte é lida pelo mercado como um sinal gravíssimo sobre o ambiente de negócios no Brasil.

O que trava o maior investimento da história do Rio Grande do Sul

No centro do impasse está uma ação civil pública ajuizada pelo Ministério Público Federal (MPF) em 13 de maio de 2026. O órgão aponta que o processo de licenciamento ambiental, conduzido pela Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), avançou sem cumprir uma exigência fundamental: a Consulta Prévia, Livre e Informada (CPLI) a comunidades de pescadores artesanais, indígenas Guarani Mbya e quilombolas potencialmente impactados pelo empreendimento.

A exigência tem base na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), norma internacional ratificada pelo Brasil que obriga o Estado a consultar formalmente povos tradicionais antes de aprovar projetos que afetem seus territórios e modos de vida.

A CMPC sustenta que possui segurança técnica sobre os impactos ambientais da nova planta e que estudos realizados por mais de uma década na unidade vizinha de Guaíba comprovam a viabilidade do empreendimento. A empresa classificou o cenário jurídico como um “imbróglio gigantesco” e afirma que a ampliação das exigências cria um grau de incerteza incompatível com o cronograma industrial global.

Audiência pública do Projeto Natureza em Barra do Ribeiro em janeiro de 2026 reuniu mais de 1.100 pessoas — meses depois, o MPF ajuizou ação questionando o licenciamento por falta de consulta a indígenas e quilombolas
Audiência pública do Projeto Natureza em Barra do Ribeiro em janeiro de 2026 reuniu mais de 1.100 pessoas — meses depois, o MPF ajuizou ação questionando o licenciamento por falta de consulta a indígenas e quilombolas

Governador entra na disputa — e divide opiniões

O governador Eduardo Leite reagiu rapidamente. Após a declaração de Lacerda, Leite se reuniu com representantes da empresa no Palácio Piratini e publicou nota afirmando que acompanha pessoalmente o caso, com suporte da Procuradoria-Geral do Estado.

Em vídeo publicado nas redes sociais, o governador afirmou que o Estado atua para “viabilizar todas as condições” necessárias à instalação da planta em Barra do Ribeiro. A declaração dividiu opiniões: críticos afirmam que a postura do governo cria pressão indevida sobre órgãos técnicos e sobre o próprio MPF, antecipando um desfecho que ainda está em aberto na Justiça Federal.

O que está em jogo para o Brasil

O caso da CMPC não é apenas sobre celulose. Ele expõe um dilema estrutural do país: como equilibrar rigor ambiental, proteção de comunidades tradicionais e competitividade econômica num momento em que a América do Sul disputa ferozmente a atração de capitais industriais ligados à bioeconomia.

Para o setor, o sinal é claro: a velocidade de aprovação de projetos passou a ter peso semelhante ao custo operacional ou à disponibilidade de matéria-prima. Se a transferência para o Paraguai avançar, as perdas serão duplas — econômicas e simbólicas: empregos, arrecadação, movimentação portuária e o fortalecimento de um concorrente regional numa cadeia que o Brasil sempre dominou.

O relógio está correndo. E o Paraguai está observando.

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Noel Budeguer

Sou jornalista argentino baseado no Rio de Janeiro, com foco em energia e geopolítica, além de tecnologia e assuntos militares. Produzo análises e reportagens com linguagem acessível, dados, contexto e visão estratégica sobre os movimentos que impactam o Brasil e o mundo. 📩 Contato: noelbudeguer@gmail.com

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