O maior investimento privado da história do Rio Grande do Sul está à beira do abismo. Uma ação judicial do MPF pode fazer a CMPC abandonar Barra do Ribeiro e levar 12 mil empregos e R$ 27 bilhões para o país vizinho.
O Brasil está prestes a perder R$ 27 bilhões — e a culpa, segundo a própria empresa, é de um “imbróglio jurídico gigantesco” que paralisa obras, afasta fornecedores globais e abre espaço para um país vizinho roubar o investimento.
A chilena CMPC, uma das maiores produtoras de celulose do mundo, colocou um prazo sobre a mesa: até o final de 2026, ou o Projeto Natureza sai do Rio Grande do Sul — ou vai para o Paraguai. A declaração foi feita pelo diretor-geral da empresa no Brasil, Antonio Lacerda, em entrevista ao Jornal do Comércio, e sacudiu o mercado industrial sul-americano.
O projeto que poderia transformar uma cidade de 12 mil habitantes
O Projeto Natureza é um dos maiores empreendimentos industriais privados já planejados no Brasil. A planta de celulose seria instalada em Barra do Ribeiro, município gaúcho de apenas 12 mil habitantes, às margens do rio Guaíba, na Região Metropolitana de Porto Alegre.
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Com capacidade para produzir 2,5 milhões de toneladas de celulose de eucalipto por ano, a fábrica seria acompanhada de um terminal portuário próprio no Porto de Rio Grande, avaliado em cerca de R$ 3 bilhões e projetado para escoar a produção diretamente ao mercado internacional.
O cronograma original previa início imediato das obras em 2026 e operação comercial em agosto de 2029. Até agora, a CMPC já comprometeu US$ 400 milhões apenas no desenvolvimento e nos estudos do projeto — sem ter construído um tijolo sequer da fábrica.

O prazo, o Paraguai e a frase que o mercado não esquece
Lacerda foi direto ao ponto: sem licença ambiental até dezembro de 2026, o projeto “perde posição na fila dos fornecedores de tecnologia” e pode atrasar entre dois e três anos. Se o cenário se mantiver, a empresa avalia instalar a megafábrica no Paraguai.
A frase que mais repercutiu nos bastidores do setor florestal foi cortante: o Paraguai teria “madeira e previsibilidade jurídica” — dois ativos que o Brasil, segundo a empresa, não consegue oferecer no momento.
Nos últimos anos, o Paraguai tem atraído investidores com custos operacionais menores, incentivos fiscais e processos regulatórios mais rápidos. Embora ainda distante da infraestrutura logística brasileira, a simples menção do país como alternativa real por uma multinacional desse porte é lida pelo mercado como um sinal gravíssimo sobre o ambiente de negócios no Brasil.
O que trava o maior investimento da história do Rio Grande do Sul
No centro do impasse está uma ação civil pública ajuizada pelo Ministério Público Federal (MPF) em 13 de maio de 2026. O órgão aponta que o processo de licenciamento ambiental, conduzido pela Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), avançou sem cumprir uma exigência fundamental: a Consulta Prévia, Livre e Informada (CPLI) a comunidades de pescadores artesanais, indígenas Guarani Mbya e quilombolas potencialmente impactados pelo empreendimento.
A exigência tem base na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), norma internacional ratificada pelo Brasil que obriga o Estado a consultar formalmente povos tradicionais antes de aprovar projetos que afetem seus territórios e modos de vida.
A CMPC sustenta que possui segurança técnica sobre os impactos ambientais da nova planta e que estudos realizados por mais de uma década na unidade vizinha de Guaíba comprovam a viabilidade do empreendimento. A empresa classificou o cenário jurídico como um “imbróglio gigantesco” e afirma que a ampliação das exigências cria um grau de incerteza incompatível com o cronograma industrial global.

Governador entra na disputa — e divide opiniões
O governador Eduardo Leite reagiu rapidamente. Após a declaração de Lacerda, Leite se reuniu com representantes da empresa no Palácio Piratini e publicou nota afirmando que acompanha pessoalmente o caso, com suporte da Procuradoria-Geral do Estado.
Em vídeo publicado nas redes sociais, o governador afirmou que o Estado atua para “viabilizar todas as condições” necessárias à instalação da planta em Barra do Ribeiro. A declaração dividiu opiniões: críticos afirmam que a postura do governo cria pressão indevida sobre órgãos técnicos e sobre o próprio MPF, antecipando um desfecho que ainda está em aberto na Justiça Federal.
O que está em jogo para o Brasil
O caso da CMPC não é apenas sobre celulose. Ele expõe um dilema estrutural do país: como equilibrar rigor ambiental, proteção de comunidades tradicionais e competitividade econômica num momento em que a América do Sul disputa ferozmente a atração de capitais industriais ligados à bioeconomia.
Para o setor, o sinal é claro: a velocidade de aprovação de projetos passou a ter peso semelhante ao custo operacional ou à disponibilidade de matéria-prima. Se a transferência para o Paraguai avançar, as perdas serão duplas — econômicas e simbólicas: empregos, arrecadação, movimentação portuária e o fortalecimento de um concorrente regional numa cadeia que o Brasil sempre dominou.
O relógio está correndo. E o Paraguai está observando.

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