Pesquisa mostra que camadas profundas do solo congelado guardam carbono antigo e podem enfraquecer a capacidade natural das regiões frias de compensar parte das emissões humanas
O derretimento do permafrost, o solo permanentemente congelado de regiões frias do planeta, pode liberar carbono em ritmo mais preocupante do que se estimava. Um novo estudo aponta que camadas profundas, muitas vezes pouco representadas nos modelos climáticos, podem mudar o balanço de carbono no hemisfério Norte ainda neste século.
O permafrost é uma espécie de arquivo natural formado ao longo de milhares de anos. Dentro dele há restos de plantas, animais e microrganismos que ficaram congelados antes de se decompor completamente.
O problema é que, com o aquecimento global, esse material orgânico começa a descongelar. Quando isso acontece, microrganismos voltam a decompor a matéria presa no solo e liberam gases de efeito estufa, principalmente dióxido de carbono e metano.
-
Duas irmãs sem dinheiro, sem fábrica e sem sócio começaram fritando salgadinho num forno doméstico em Curitiba para pagar as contas, e o que elas criaram virou um vício nacional que a Pepsi pagou uma fortuna para comprar e nunca mais largou
-
O bilionário do Airbnb mora em casas anunciadas na própria plataforma, muda de cidade em cidade e testa a ideia de morar em qualquer lugar
-
Arqueólogos escavam em Woodstown o que pode ser o maior assentamento comercial viking da Irlanda, com valas de 460 metros, oficinas, milhares de artefatos e conexões diretas com a Noruega
-
Quanto ganha um dono de academia? Negócio pode exigir de R$ 430 mil a R$ 1,87 milhão para abrir no Brasil, mas lucro real depende de alunos fiéis, mensalidades em dia, energia cara, aluguel, folha de pagamento e controle brutal dos custos
A nova pesquisa não significa que todo esse carbono será liberado de uma vez. Mas indica que a chamada “bomba de carbono” do permafrost pode entrar em ação antes do esperado em cenários de aquecimento intenso.
Estudo aponta que carbono profundo muda a conta climática
De acordo com estudo publicado na revista científica Science Advances em junho de 2026, pesquisadores liderados por Yi Xi atualizaram modelos de simulação para incluir depósitos profundos de carbono em áreas de permafrost. A diferença é importante porque muitos modelos climáticos consideram com mais detalhe apenas as camadas superiores do solo, geralmente até 3 metros de profundidade.
A equipe trabalhou com uma versão aprimorada do modelo ORCHIDEE-MICT, usado para simular interações entre carbono, vegetação, água e temperatura. O objetivo foi reconstruir como o carbono se acumulou em depósitos antigos, como os solos Yedoma, formados durante o Pleistoceno, e em turfeiras do hemisfério Norte.
Essas camadas profundas podem chegar a cerca de 10 metros em turfeiras e a aproximadamente 20 metros em depósitos Yedoma, segundo informações divulgadas sobre o estudo. Ao considerar esse estoque, a projeção muda de forma significativa.
Em vez de continuar funcionando como um sumidouro líquido de carbono durante boa parte do século, parte das terras do Norte pode se tornar uma fonte líquida de CO₂ mais cedo. Em cenários de altas emissões, o estudo aponta liberação líquida de até 32 bilhões de toneladas de carbono até 2100.
Por que o permafrost preocupa tanto os cientistas
Segundo informações da NASA, o permafrost é solo que permaneceu congelado por pelo menos dois anos, mas pode guardar material orgânico preservado por dezenas de milhares de anos. Quando descongela, esse estoque deixa de ficar isolado e passa a participar novamente do ciclo do carbono.
A preocupação não está apenas no gelo que desaparece na superfície. O ponto mais sensível é que o aquecimento aprofunda a chamada camada ativa, a parte do solo que descongela sazonalmente e permite a ação biológica.
Com a camada ativa mais profunda, materiais antes protegidos pelo frio entram em contato com oxigênio, água e microrganismos. Isso acelera a decomposição e pode transformar carbono antigo em gases que retêm calor na atmosfera.
O processo cria uma retroalimentação. O planeta aquece, o permafrost descongela, o solo libera gases de efeito estufa e esse acréscimo pode reforçar o aquecimento.
Florestas boreais podem ajudar, mas talvez não o suficiente
Um dos grandes debates científicos sobre o permafrost envolve o papel da vegetação. Em um mundo mais quente, regiões frias podem ter estações de crescimento mais longas, o que favorece arbustos, árvores e florestas boreais.
Em tese, mais plantas significam maior absorção de CO₂ pela fotossíntese. Esse ganho poderia compensar parte das perdas do solo, mantendo as regiões do Norte como sumidouros de carbono.
O novo estudo, porém, reduz a confiança nessa compensação quando o carbono profundo entra na conta. A vegetação pode crescer mais, mas o solo também pode perder carbono em maior volume.
Esse é um ponto crucial para modelos climáticos. Se os modelos subestimam o carbono escondido em profundidade, eles também podem superestimar a capacidade natural dessas regiões de amortecer a crise climática.
Carbono antigo abaixo de 3 metros ficou fora de parte das projeções
De acordo com o National Snow and Ice Data Center, o permafrost armazena uma quantidade enorme de matéria orgânica congelada. Estimativas indicam que há mais carbono preso nesses solos do que na atmosfera atual.
A NOAA também destaca que os solos de permafrost do hemisfério Norte guardam algo entre 1,46 trilhão e 1,6 trilhão de toneladas métricas de carbono orgânico. Parte relevante desse volume está abaixo dos 3 metros de profundidade.
Esse carbono profundo é difícil de representar em modelos porque não se formou em poucas décadas. Ele resulta de longos processos de acumulação, congelamento, soterramento, sedimentação e preservação em ambientes muito frios.
Por isso, a nova modelagem buscou reconstruir a história desses depósitos em escalas de milhares de anos. O resultado sugere que a simplificação anterior deixava fora uma peça importante do quebra-cabeça climático.
Metano aumenta a preocupação, mesmo que o estudo foque no CO₂
O estudo liderado por Yi Xi concentrou a análise no balanço de CO₂. Ainda assim, o permafrost também é associado à liberação de metano, especialmente em áreas encharcadas, lagos de degelo e solos pobres em oxigênio.
O metano é menos duradouro na atmosfera do que o dióxido de carbono, mas tem poder de aquecimento maior em períodos curtos. Isso torna o gás especialmente relevante para as próximas décadas.
De acordo com o IPCC, emissões de metano associadas a áreas úmidas, lagos termocársticos e degelo do permafrost ainda carregam incertezas, mas podem reforçar feedbacks climáticos. O alerta é que esses processos não atuam isoladamente.
Na prática, CO₂ e metano compõem duas faces do mesmo problema. O primeiro pesa mais no longo prazo, enquanto o segundo pode intensificar o aquecimento em janelas de tempo mais curtas.
O que muda para as projeções sobre o aquecimento global
A principal mudança é a percepção de tempo. O permafrost já era visto como um risco climático, mas a nova pesquisa sugere que a virada de sumidouro para fonte de carbono pode ocorrer décadas antes em cenários de emissões elevadas.
Isso não quer dizer que o resultado seja inevitável em qualquer trajetória. A projeção mais preocupante está ligada a cenários em que o aquecimento global avança muito acima da meta do Acordo de Paris.
O acordo internacional busca limitar o aumento da temperatura média global a 1,5°C em relação ao período pré-industrial, ou pelo menos mantê-lo bem abaixo de 2°C. Quanto mais o mundo ultrapassa esses limites, maior tende a ser a pressão sobre solos congelados.
O estudo trabalha com cenários graves de aquecimento até 2100. Caso as emissões globais sejam reduzidas com força, o comportamento futuro do permafrost pode ser menos extremo, embora não livre de impactos.
Por que esse alerta importa mesmo longe do Ártico
O degelo do permafrost parece um problema distante para países tropicais, mas seus efeitos fazem parte do sistema climático global. O carbono liberado no Ártico se mistura à atmosfera e pode influenciar o aquecimento em escala planetária.
Além disso, o enfraquecimento de sumidouros naturais aumenta a pressão por cortes mais rápidos de emissões. Se a natureza absorve menos carbono do que se imaginava, a margem de segurança climática fica menor.
O tema também ajuda a explicar por que cientistas insistem em melhorar modelos climáticos. Não basta prever temperatura média; é preciso representar florestas, solos, raízes, incêndios, águas, microrganismos e reservatórios profundos de carbono.
A conclusão mais importante é que o permafrost não é apenas gelo derretendo. Ele é um enorme reservatório biogeoquímico, e seu comportamento pode alterar a velocidade com que a mudança climática se agrava.
Cientistas ainda veem incertezas, mas risco ficou mais claro
Apesar do alerta, os próprios pesquisadores reconhecem que ainda há incertezas. Processos como degelo abrupto, incêndios florestais, formação de lagos, dinâmica do gelo no solo e mudanças na vegetação podem alterar as projeções.
Isso significa que o estudo não encerra a discussão. Pelo contrário, mostra que modelos climáticos precisam incluir mais detalhes sobre o carbono profundo e a qualidade da matéria orgânica congelada.
A questão central é que a incerteza não reduz necessariamente o risco. Em alguns casos, ela pode indicar que os impactos foram subestimados.
Se o permafrost liberar mais CO₂ antes do esperado, o planeta terá menos tempo para evitar efeitos acumulados. A discussão agora é se governos, empresas e sociedade vão tratar esse alerta como mais uma projeção distante ou como um sinal de que a janela de resposta está ficando mais estreita.
Você acredita que alertas como esse ainda conseguem influenciar decisões reais sobre clima, energia e emissões, ou a sociedade só reage quando os impactos chegam ao bolso e à rotina? Deixe sua opinião nos comentários, porque essa é uma daquelas discussões em que a ciência aponta o risco, mas a resposta depende de escolhas políticas e econômicas.

-
1 pessoa reagiu a isso.