Em Mansfield, na Geórgia, Beverly e Jeff Morris relatam que a vida ao lado de um data center da Meta mudou desde a construção iniciada em 2018. A menos de 400 jardas da casa, o projeto virou símbolo de uma disputa sobre água, energia, silêncio e custos da inteligência artificial.
Um data center da Meta em Mansfield, no estado da Geórgia, nos Estados Unidos, virou o centro de uma discussão que vai muito além da tecnologia. Beverly e Jeff Morris, moradores da região, afirmam que vivem a menos de 400 jardas da instalação e que a rotina rural passou a incluir poeira, barulho, luz intensa à noite, água com sedimento e contas de energia mais altas.
O caso ganhou repercussão em uma reportagem em vídeo do More Perfect Union, usada como fonte principal desta matéria. A transcrição disponível não informa a data exata da gravação, mas situa os fatos em uma sequência iniciada em 2016, quando o casal comprou a casa, e em 2018, ano apontado como início da construção do complexo.
Uma casa rural diante de uma infraestrutura gigante

Beverly e Jeff Morris compraram a propriedade em 2016, a cerca de uma hora de carro do centro de Atlanta. No relato apresentado no vídeo, Beverly afirma que foi criada a poucos quilômetros dali e que o local representava uma espécie de retorno para casa. A promessa era de sossego, espaço aberto e vida no campo.
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Essa percepção começou a mudar quando o data center da Meta passou a ocupar a área vizinha. A instalação é descrita no vídeo como um complexo de cerca de 2 milhões de pés quadrados, usado para sustentar serviços digitais e ferramentas associadas à inteligência artificial. Para quem usa aplicativos, buscas e sistemas de IA, essa estrutura costuma parecer invisível. Para os moradores do entorno, ela tem endereço, barulho, luz e impacto no cotidiano.
Poeira, luz forte e água com sedimento entraram na rotina
Segundo Beverly, a construção removeu árvores, alterou a paisagem e trouxe poeira para a frente da casa. Ela relata que a iluminação do complexo passou a ser tão intensa que os moradores conseguem circular pela residência à noite sem acender luzes internas. O que antes era um ambiente rural escuro e silencioso teria se transformado em uma vizinhança industrial.
A reclamação mais sensível envolve a água. O casal afirma que passou a notar sedimentos na água do poço e baixa pressão nas torneiras. Jeff relata a substituição de equipamentos como aquecedor de água, máquinas de lavar e lava-louças, atribuindo os danos ao material acumulado nas tubulações. Eles dizem que a troca do poço poderia custar cerca de US$ 20 mil, sem contar linhas, vasos sanitários e outros reparos.
O debate saiu do quintal e chegou à conta de luz

O caso dos Morris se conecta a uma discussão maior sobre data centers, energia e inteligência artificial. Essas instalações precisam de grande capacidade elétrica para manter servidores funcionando, refrigerados e conectados. A reportagem aponta que a Geórgia se tornou um polo atraente para esse tipo de projeto por combinar energia industrial relativamente barata e incentivos fiscais.
No vídeo, Patty Durand, apresentada como defensora do consumidor e especialista em política energética, questiona se moradores residenciais devem arcar com parte dos custos de infraestrutura exigidos por data centers.
O debate chegou ao Legislativo estadual por meio do SB 34, proposta apresentada em 2025 para impedir que custos associados ao fornecimento de energia a data centers fossem repassados a consumidores residenciais e pequenos negócios. O projeto, no entanto, não avançou para votação no prazo legislativo daquele ano.
Outros moradores também relatam pressão no entorno de data centers

A reportagem também mostra moradores de Fayette County, outra região da Geórgia, afetados por um campus de data center ligado à QTS, empresa pertencente à Blackstone. Jean e Joe Marschall, que vivem em uma propriedade de oito acres, relatam obras ao redor da casa, luzes durante a madrugada e barulho constante em horários como 2h, 3h e 4h da manhã.
Em Fayette County, o vídeo afirma que autoridades votaram em 2022 pela anexação e rezoneamento de mais 412 acres para um campus de data center. Também cita que a área foi comprada pela QTS por US$ 153,8 milhões. Para moradores contrários ao projeto, a sensação é de que as decisões já estavam encaminhadas quando as audiências públicas ocorreram.
Autoridade local defende benefícios econômicos do projeto
A reportagem ouviu Niki Vanderslice, chefe da Fayette County Economic Development Authority. Ela defendeu que houve transparência no processo e argumentou que data centers podem trazer ganhos para a comunidade, mesmo quando parte dos moradores sente diretamente os impactos negativos. O ponto central, segundo ela, é equilibrar incômodos locais com benefícios econômicos mais amplos.
Entre os exemplos citados no vídeo, está o aumento de arrecadação de impostos sobre uma propriedade em Fayette County: de US$ 36 mil em 2021 para US$ 1,13 milhão em 2024, ainda em terra bruta. Desse valor, US$ 760 mil teriam sido destinados ao conselho local de educação. A fala mostra como o tema divide opiniões: de um lado, moradores impactados; do outro, autoridades que enxergam expansão econômica e receita pública.
O que a Meta diz e o que ainda não está comprovado
A relação direta entre o data center da Meta e os problemas de água relatados pelos Morris é contestada. Em reportagem da People, a empresa afirmou que um estudo independente apontou que o centro não usa água subterrânea para suas atividades e que o fluxo da água seguiria direção oposta ao poço dos moradores, o que tornaria improvável a responsabilidade da instalação.
Por isso, o texto não pode afirmar como fato comprovado que o data center da Meta causou a água com sedimento. O que está documentado é que moradores relatam problemas desde o avanço da construção, que associam os danos à instalação vizinha e que a Meta rejeita essa ligação. A disputa está justamente entre a experiência cotidiana de quem mora ao lado e a versão técnica apresentada pela empresa.
A corrida da IA também ocupa território físico
A inteligência artificial costuma ser apresentada como algo digital, rápido e distante da vida comum. Mas data centers mostram que a tecnologia depende de terra, energia, água, redes, obras, permissões e infraestrutura pesada. Para usuários, a IA aparece em uma tela. Para comunidades vizinhas, ela pode aparecer como caminhões, poeira, ruído e pressão sobre serviços locais.
O caso de Mansfield expõe uma pergunta que tende a crescer com a expansão da IA: quem deve pagar pelos custos físicos de uma infraestrutura usada por milhões de pessoas? Empresas de tecnologia, concessionárias, governos e moradores locais ainda disputam essa resposta. O avanço tecnológico pode ser inevitável, mas a forma como ele chega às comunidades não deveria ser invisível.
O preço invisível da inteligência artificial chegou ao quintal dos moradores
A história de Beverly e Jeff Morris mostra que a expansão dos data centers não é apenas uma pauta de tecnologia. É também uma pauta de território, energia, água, vizinhança e responsabilidade. O data center da Meta em Mansfield virou exemplo de uma tensão cada vez mais comum: a infraestrutura que sustenta a vida digital pode mudar profundamente a vida de quem mora perto dela.
Na sua opinião, empresas de tecnologia deveriam pagar integralmente pela energia, pela infraestrutura e pelos impactos locais de seus data centers, ou esses custos fazem parte do preço coletivo da inteligência artificial? Deixe seu comentário e participe da discussão.


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