Por décadas, a obesidade foi tratada como falha individual, mas avanços científicos mostram que o peso corporal é influenciado por milhares de genes, hormônios e por um ambiente moderno que favorece o ganho de peso

A ideia de que basta “ter força de vontade” para emagrecer ainda domina o senso comum. Frases como “é só comer menos”, “falta autocontrole” ou “é questão de responsabilidade pessoal” continuam a aparecer em debates públicos e redes sociais. Entretanto, a ciência mostra que essa visão é simplista e, muitas vezes, injusta.
Em uma reportagem aprofundada que ouviu médicos, nutricionistas, geneticistas e especialistas em saúde pública. Segundo esses profissionais, a obesidade é uma condição multifatorial, influenciada por genética, hormônios, metabolismo, ambiente alimentar e fatores emocionais. Ou seja, não é um jogo com as mesmas regras para todos.
Além disso, pesquisas recentes indicam que a força de vontade, sozinha, raramente consegue vencer mecanismos biológicos profundamente enraizados no corpo humano.
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Genética, hormônios e o cérebro: por que emagrecer não depende só de escolha
Estudos científicos indicam que milhares de genes influenciam diretamente o peso corporal. De acordo com dados publicados na revista médica The Lancet, cerca de 8 em cada 10 pessoas acreditam que a obesidade poderia ser evitada apenas com escolhas de estilo de vida. No entanto, essa percepção não se sustenta diante das evidências.
A endocrinologista Sadaf Farooqi, da Universidade de Cambridge, explica que variantes genéticas afetam áreas do cérebro responsáveis por regular fome e saciedade. Como resultado, algumas pessoas sentem mais fome, demoram mais para se sentir satisfeitas e queimam menos calorias, mesmo com dieta e exercício.
Além disso, hormônios como a leptina, produzida pelas células de gordura, enviam sinais ao cérebro sobre as reservas de energia do corpo. Quando esse sistema falha — algo comum em ambientes com alta ingestão de ultraprocessados — o cérebro passa a “defender” um peso mais alto, dificultando a perda e favorecendo o efeito sanfona.
Por isso, dietas restritivas costumam falhar no longo prazo. Quando o peso cai rapidamente, o organismo reage como se estivesse em situação de escassez. Consequentemente, a fome aumenta e o metabolismo desacelera, tornando o processo ainda mais difícil.
Ambiente obesogênico e o efeito sanfona das dietas modernas

Embora a genética seja um fator relevante, ela não explica sozinha o aumento global da obesidade. Afinal, os genes humanos não mudaram nas últimas décadas. O que mudou, de forma significativa, foi o ambiente.
Especialistas chamam esse cenário de “ambiente obesogênico”. Ele se caracteriza pela ampla disponibilidade de alimentos ultraprocessados, ricos em açúcar, gordura e sal, além de marketing agressivo, porções maiores e menos oportunidades para atividade física.
No Reino Unido, por exemplo, mais de 60% dos adultos estão com sobrepeso ou obesidade. Parte disso se deve ao fato de que alimentos saudáveis custam mais caro por caloria do que opções menos nutritivas. Assim, famílias com orçamento apertado enfrentam escolhas difíceis no dia a dia.
Além disso, o chamado efeito sanfona ocorre porque o corpo tenta retornar ao seu “peso de ajuste”, conhecido como set point. Esse mecanismo explica por que muitas pessoas recuperam o peso perdido, mesmo mantendo esforço e disciplina. Portanto, o fracasso não está na pessoa, mas no sistema biológico que reage à perda de peso.
Responsabilidade individual ou falha do sistema? O debate continua
O debate sobre obesidade também envolve políticas públicas. Governos têm recorrido à regulação de publicidade e à taxação de alimentos ultraprocessados. Ainda assim, há divergências sobre até onde o Estado deve ir.
Enquanto especialistas em saúde pública defendem intervenções estruturais, setores liberais argumentam que a responsabilidade final é individual. No entanto, como destacam nutricionistas e médicos, responsabilizar apenas o indivíduo ignora fatores biológicos e sociais amplamente documentados.
Para profissionais da saúde, abandonar a ideia de que tudo se resume à força de vontade não significa negar a importância do esforço pessoal. Pelo contrário. Significa oferecer apoio baseado em ciência, empatia e estratégias realistas, que aumentam as chances de sucesso no longo prazo.
Compreender os limites da força de vontade ajuda a reduzir a culpa e o estigma. Além disso, permite que pessoas busquem tratamentos mais adequados, incluindo acompanhamento nutricional, psicológico e, quando indicado, terapias medicamentosas.
Depois de entender o papel da genética, dos hormônios e do ambiente, você ainda acredita que emagrecer é apenas uma questão de força de vontade ou acha que essa visão precisa mudar?

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