Experimento da Universidade de Manchester publicado em abril de 2026 indica que uma deflagração de vapor de etanol no porão do navio mercante explica o abandono do bergantim achado intacto a leste dos Açores em dezembro de 1872
O mistério do mary celeste, navio fantasma encontrado à deriva no Atlântico em dezembro de 1872, pode finalmente ter sido cercado pela ciência.
Conforme reportagem da revista Chemistry World, publicada em 7 de abril de 2026, o químico Jack Rowbotham, da University of Manchester, conduziu experimentos em escala.
Os resultados reproduzem o cenário mais provável do desastre.
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De fato, a hipótese é antiga, mas agora ganhou base experimental sólida. Uma deflagração rápida de vapor de etanol no porão poderia ter aberto escotilhas e provocado pânico.
O capitão teria ordenado o abandono do navio em poucos minutos.
Mistério do mary celeste: como o navio foi descoberto
Conforme registros oficiais, o bergantim mercante Mary Celeste partiu de Nova York em 7 de novembro de 1872. Levava 1.701 barris de álcool industrial rumo a Genova, na Itália.
A bordo estavam o capitão americano Benjamin Spooner Briggs, a esposa Sarah Elizabeth Cobb, a filha Sophia Matilda, de 2 anos, e sete tripulantes.
Entre eles, o primeiro-imediato Albert Richardson, o segundo-imediato Andrew Gilling e quatro marinheiros alemães.
Em 4 de dezembro de 1872, o navio canadense Dei Gratia, comandado por David Reed Morehouse, encontrou o Mary Celeste à deriva cerca de 400 milhas a leste dos Açores.
O navio estava em condições navegáveis. Tinha velas parcialmente abertas, comida estocada e bens pessoais intactos.
Por outro lado, o bote salva-vidas havia sido lançado. A última entrada no diário de bordo era de 25 de novembro, dez dias antes.
Mistério do mary celeste: a nova explicação química
Por isso, o estudo do químico Jack Rowbotham reconstruiu, em escala, o porão do bergantim. Foram simulados barris envelhecidos, ventilação restrita e vazamento gradual de vapor de etanol.
De acordo com a Chemistry World, o experimento mostrou que uma deflagração de baixa intensidade pode aumentar a pressão interna o suficiente para arrancar escotilhas e tampas de carga, sem provocar chama visível nem fuligem.
Na prática, isso significa que a tripulação do Mary Celeste teria assistido a uma explosão silenciosa e abafada saindo dos porões.
Segundo historiadores, para Briggs, com a família a bordo, qualquer suspeita de fogo em meio a 1.701 barris de álcool significava uma decisão sensata: abandonar o navio.

O precedente da UCL em 2006
A hipótese química não nasceu em 2026. Em maio de 2006, a University College London já havia testado em laboratório o conceito de uma onda de pressão a partir de vapores de etanol.
Os pesquisadores britânicos observaram que era possível gerar uma explosão sem deixar marcas visíveis na estrutura. Contudo, a novidade de 2026 está na profundidade do modelo e na simulação computacional moderna.
Segundo a Chemistry World, o trabalho de Rowbotham se apoia em duas décadas de avanço em dinâmica de fluidos computacional.
Sensores de pressão de alta resolução, indisponíveis em 2006, completam o aparato.
Por isso, a explicação ganha contornos quantitativos. Não é só uma teoria plausível, é um modelo replicável em laboratório.
Outras hipóteses caíram por terra
Ao longo de 150 anos, o caso alimentou teorias de motim, pirataria, ataque de lula gigante, tromba d'água, abdução alienígena e até maldição. Ainda assim, nenhuma delas se sustenta diante das evidências físicas.
Conforme o portal Smithsonian Magazine, o inquérito de Gibraltar de 1873, conduzido pelo procurador Frederick Solly-Flood, suspeitou de motim.
Análises científicas posteriores mostraram que manchas no convés não eram sangue.
A teoria de tromba d'água, popular no início do século 20, não explica por que o navio foi achado em condições navegáveis.
Em comparação, a hipótese de vapor de álcool é a única que casa com:
- Bote salva-vidas ausente, indicando abandono ordenado pelo capitão
- Carga intacta de 1.701 barris, sem sinais de incêndio
- Velas parcialmente abertas, compatíveis com decisão de fuga rápida
- Comida e bens pessoais preservados, sem indício de saque

A rota fatal e os Açores
O Mary Celeste partiu de Nova York rumo a Genova com carga avaliada em valores expressivos para a época. O bergantim seguia rota comercial usual do Atlântico Norte, passando ao sul dos Açores.
Segundo registros do Smithsonian, o capitão Briggs era piloto experiente e religioso. Além disso, não bebia, mantinha disciplina rígida a bordo e levava a família em viagens longas.
Conforme a Wikipedia, o navio foi achado a cerca de 400 milhas a leste das ilhas dos Açores.
O bote salva-vidas, do tipo yawl, havia sido lançado pela popa. Isso indica abandono planejado, não emergência caótica.
Para entender o cenário: em pleno Atlântico Norte de inverno, sem motor, sem rádio e com vento adverso, um pequeno bote com 10 pessoas raramente sobrevive mais de 72 horas.
Por que isso importa para a segurança marítima
De fato, o caso virou referência sobre transporte de cargas inflamáveis em embarcações de madeira. Conforme análise da Chemistry World, o etanol em barris envelhecidos é especialmente perigoso por liberar vapor de forma contínua.
Em comparação com o transporte moderno, o Mary Celeste teria hoje compartimentos pressurizados, sensores de gás e detectores de vapor. Em 1872, nada disso existia.
Por outro lado, a hipótese química explica também por que casos similares de navios fantasmas no século 19 envolveram, com frequência, cargas de álcool e petróleo.
Em outras palavras, o Mary Celeste não foi exceção. Foi o caso mais famoso de um padrão.
Atualmente, padrões como o código IMDG da Organização Marítima Internacional regulam o transporte de inflamáveis em navios mercantes.
Na prática, foi a sequência de tragédias como a do Mary Celeste que motivou esses códigos.

Impacto cultural duradouro
O caso inspirou Arthur Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes, a publicar em 1884 a história curta “J. Habakuk Jephson's Statement”.
A narrativa misturava fatos reais e ficção, e contribuiu para consolidar a aura sobrenatural do Mary Celeste no imaginário popular.
De fato, no início do século 20 surgiram dezenas de filmes, peças e livros sobre o tema.
O nome do navio virou sinônimo de mistério marítimo inexplicado, ao lado do Triângulo das Bermudas e do Flying Dutchman.
O próprio Mary Celeste teve fim trágico. Em janeiro de 1885, foi propositalmente encalhado perto do Haiti, em fraude de seguro orquestrada por seu último proprietário.
O capitão envolvido foi indiciado e morreu poucos meses depois.

Paralelos modernos no Atlântico
Casos de navios à deriva sem tripulação não terminaram em 1872. Por isso, o cargueiro russo Arctic Metagaz vagou 57 dias pelo Mediterrâneo com 60 mil toneladas de carga.
De acordo com pesquisadores, hoje navios à deriva são rastreados por satélite e radar costeiro em tempo real. Em 1872, a única forma de localizar um bergantim no Atlântico Norte era visual.
Outro caso emblemático envolve relíquias submersas. Além disso, o naufrágio Temasek perto de Singapura revelou porcelanas do século 14.
Conforme analistas, a tecnologia atual fecha lacunas que ficaram abertas por décadas. O mistério do mary celeste entra nesse rol, com a ciência cobrindo o vazio deixado pela ausência de testemunhas.
Limites da explicação científica
A hipótese do vapor de etanol é a mais robusta já formulada, mas tem limites claros. Conforme a própria Chemistry World, o experimento reproduz condições prováveis, não certezas.
Por outro lado, sem testemunhas e sem destroços do bote salva-vidas, nenhuma teoria pode ser comprovada em definitivo. Dessa forma, a ciência reduz o espaço para explicações sobrenaturais, mas não fecha o caso por completo.
Será que outros navios fantasmas do século 19 também tinham porão cheio de álcool ou aguarrás? Documentos de seguradoras europeias da época mostram que sim, com frequência maior do que se imagina.
Ainda assim, vale lembrar que o mistério do mary celeste permanecerá no imaginário coletivo.
A explicação química resolve o “como”, mas o destino exato de Briggs, da esposa, da filha de 2 anos e dos sete marinheiros segue sem corpo, sem túmulo e sem testemunha.

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