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Jorge e Elisa se aposentaram no Rio de Janeiro, compraram um sítio de 50 hectares em Lima Duarte que nem sabiam como administrar e aprenderam a fazer queijo do zero, e quando foram premiados em Araxá com ouro e prata pela primeira vez, nem estavam lá porque não acreditavam que tinham chance de ganhar

Escrito por Débora Araújo
Publicado em 05/06/2026 às 16:48
Atualizado em 05/06/2026 às 16:54
Assista o vídeoJorge e Elisa se aposentaram no Rio de Janeiro, compraram um sítio de 50 hectares em Lima Duarte que nem sabiam como administrar e aprenderam a fazer queijo do zero, e quando foram premiados em Araxá com ouro e prata pela primeira vez, nem estavam lá porque não acreditavam que tinham chance de ganhar
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Casal troca aposentadoria no Rio por sítio em Minas, aprende a fazer queijo do zero e transforma pequena produção artesanal premiada internacionalmente em nova paixão depois dos 60 anos.

Segundo a Tribuna de Minas, Jorge Luiz Bezerra e Maria Elisa de Almeida moravam no Rio de Janeiro quando se aposentaram e se fizeram uma pergunta simples: o que vamos fazer aqui se não temos mais obrigações? A resposta foi partir para Lima Duarte, cidade da Zona da Mata mineira a 60 km de Juiz de Fora, onde frequentavam há mais de 30 anos sem nunca imaginar que um dia iriam viver.

Compraram um sítio de 50 hectares na estrada Pão de Angu, não muito longe do Parque Estadual do Ibitipoca, e passaram os primeiros tempos tentando entender como se faz uma propriedade rural funcionar — primeiro com gado de corte, depois tentando frutas, sem experiência com nenhum dos dois. A guinada veio pelo entusiasmo de Elisa. Ela se inscreveu num curso de produção de Queijo Minas Artesanal e fez seu primeiro queijo. “Foi uma maravilha. Já me inscrevi no módulo seguinte imediatamente”, lembrou com o mesmo brilho no olhar de quem revive uma descoberta.

Jorge acompanhou de perto e os dois foram construindo juntos, nos últimos dez anos, o Sítio Primavera — uma queijaria artesanal que hoje produz oito tipos de queijo com cem litros de leite por dia, todos as etapas feitas à mão, e que já levou prêmios nacionais e internacionais. Em novembro de 2021, foram premiados em um concurso em Araxá com medalha de prata e de ouro. Não estavam presentes na cerimônia porque precisaram sair mais cedo — eram dez horas de viagem. “Quando chegamos, recebemos a informação de que vencemos. Elisa e eu lemos e relemos três vezes para acreditar”, conta Jorge.

A porteira que eles passaram e nunca mais deixaram

A escolha de Lima Duarte não foi a única opção. Andrelândia também estava na lista. Mas a água decidiu. O sítio na estrada Pão de Angu tinha cinco nascentes protegidas na propriedade — um detalhe que Jorge e Elisa trataram como critério definitivo desde o primeiro dia.

“Quando entramos pela porteira do sítio e vimos o lago, as pedras e todo o resto, pensamos: é aqui”, conta Jorge. A decisão foi tomada a partir de uma percepção simples: buscavam descanso, e aquela paisagem entregava exatamente isso. O casal pensou que ficaria isolado do mundo. Descobriu o contrário. Elisa diz que não sente falta do movimento da cidade — só do cinema e do teatro. Mas o que esperava ser solidão virou um fluxo constante de visitas, amigos novos e hóspedes.

Mesa rústica de queijos artesanais
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“Cada pessoa que vem, é mais um amigo que ganhamos e recebemos”, disse Jorge, com lágrimas nos olhos, quando a Tribuna de Minas visitou o sítio em junho de 2025. Elisa complementou que já adotou o jeito mineiro de viver — “já falo mineirês, só não falo trem” — enquanto Jorge brincou que ele já fala.

Como se faz um QMA à mão e por que não pode ser de outro jeito

A legislação que regula o Queijo Minas Artesanal não é apenas uma burocracia. É a descrição de um processo que existe para garantir que o queijo seja exatamente o que o nome diz: artesanal. E no Sítio Primavera, cada detalhe dessa legislação é seguido não por obrigação, mas por convicção.

“No caso do QMA, não pode haver nada mecânico durante o processo. A legislação não permite. Precisa ser totalmente manual, sem máquinas. A massa não pode ser aquecida. A prensagem, a mexida e todas as etapas são manuais. Também não utiliza-se fermento”, explica Jorge. A ordenha do gado é feita à mão, sem máquinas, justamente para não perder a temperatura do leite no momento que antecede a produção. O leite nunca é comprado de terceiros. Todas as vacas do sítio têm bezerros mamando nelas — o que reduz a produção, mas garante a qualidade.

A queijaria começou pequena demais para o que o casal queria produzir. Com o tempo, expandiram o espaço e separaram os ambientes — porque QMA e outros tipos de queijo não podem ser produzidos no mesmo local. Hoje, além do QMA, produzem queijo do reino, ementhal, grana maturado por dois anos e meio, queijo maturado no vinho e outros. O requeijão de corte, servido gelado, é o xodó de Elisa — e é feito com queijos que ficaram fora do padrão de forma ou raquearam. Em vez de desperdiçar, ela descobriu que viravam requeijão premiado.

O grana que espera dois anos e meio para ser provado

Maturar um queijo por dois anos e meio exige mais do que técnica. Exige paciência, controle e uma relação com o tempo que a maioria das produções em escala nunca poderia ter. O grana do Sítio Primavera fica na câmara fria com umidade e temperatura controlada enquanto os meses passam.

A cada semana, as peças são viradas e observadas. Jorge explica que o volume de produção é o que torna possível essa atenção. “É impossível manter a qualidade de um QMA se for feito em larga escala. A não ser que tenha uma equipe maior, o que já confere o status de fábrica em vez de artesanal.” Cada peça de grana que sai da câmara depois de dois anos e meio é uma peça que Jorge e Elisa acompanharam desde o leite cru ordenhado à mão no curral.

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A qualidade do queijo começa antes da queijaria. “Cuidamos sempre do gado para que se mantenha saudável e damos ênfase na higiene do espaço. Seu bem-estar é fundamental”, diz Jorge. Os queijos do Sítio Primavera foram premiados em Araxá, no 3º Concurso Mundial de Queijo de São Paulo e em outras competições. Em todos, Jorge foi claro sobre o que representam. “Já fui para muitos eventos levando queijos nossos e em nenhum momento falei que era do Sítio Primavera — e, sim, da região. Tenho muito orgulho disso.”

Cem litros de leite, oito queijos e uma pousada que cresceu para 25 pessoas

O sítio que começou como aposentadoria tranquila foi crescendo em direções que Jorge e Elisa não planejaram — e cada nova atividade surgiu como resposta a uma demanda concreta da vida na propriedade.

Com a procura por visitas ao sítio aumentando, o casal transformou parte da propriedade em pousada. Hoje acomoda 25 pessoas. O café da manhã é feito com produtos do próprio sítio — o pão, a geleia, o café colhido no parreiral do terreno e processado até a xícara. Pela tarde, os hóspedes podem provar as cachaças envelhecidas em carvalho e amburana que Jorge produz. A sauna aquecida a lenha funciona o ano inteiro. Os quartos foram projetados com vista para o pôr do sol e com acessibilidade para cadeirantes — prioridade declarada do casal.

A sustentabilidade não é pauta de marketing. É a forma como o sítio foi construído desde o começo. As cinco nascentes são protegidas. O esgoto vai para fossa séptica biodigestora. A energia vem de painéis fotovoltaicos. “Protegemos o meio ambiente aqui. Não temos o foco de lucro. Os preços que colocamos são voltados apenas para pagar o custo de vida. Meu objetivo é morar aqui sem preocupação”, diz Jorge.

O que a Unesco reconheceu em dezembro de 2024 — e o que o Sítio Primavera representa nisso

Em dezembro de 2024, os Modos de Fazer o Queijo Minas Artesanal foram reconhecidos como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco. Minas Gerais tem cerca de 9 mil produtores de QMA, segundo a Secretaria de Estado de Cultura e Turismo.

Jorge e Elisa não se enquadram no perfil de quem nasceu na tradição. Vieram do Rio, aprenderam fazendo, erraram, refizeram e ganharam prêmios que não esperavam. “Na primeira premiação, nem estávamos no local. Não acreditávamos. Por um atraso no evento, precisamos sair mais cedo. Quando chegamos, recebemos a informação de que vencemos”, lembra Jorge. A história deles é, de certo modo, a mesma história que o reconhecimento da Unesco celebra: o QMA não é apenas uma receita. É um modo de viver que precisa de pessoas dispostas a segui-lo com paciência e carinho.

“Até o cuidado no curral faz a diferença”, diz Jorge. E depois, resumindo o que é o Sítio Primavera em uma frase, Elisa completa o que o marido começou — como sempre fazem quando contam a história deles. “Aqui, não somos mais dois. Somos Elisa e Jorge.”

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Débora Araújo

Débora Araújo é redatora no Click Petróleo e Gás, com mais de dois anos de experiência em produção de conteúdo e mais de mil matérias publicadas sobre tecnologia, mercado de trabalho, geopolítica, indústria, construção, curiosidades e outros temas. Seu foco é produzir conteúdos acessíveis, bem apurados e de interesse coletivo. Sugestões de pauta, correções ou mensagens podem ser enviadas para contato.deboraaraujo.news@gmail.com

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