Com o mirtilo ainda majoritariamente importado no Brasil, a família Bernard transformou uma lavoura orgânica de mais de 2 mil mudas em Flores da Cunha na Serra Gaúcha em renda, agroindústria e turismo rural, com colheita manual, seleção em potes e produtos como geleias, bolos e sorvetes em cada safra
O mirtilo ganhou status de produto caro e, em alguns períodos, chega a ser tratado como “frutinha de luxo”, com o quilo variando entre R$ 48 e R$ 60 e podendo subir ainda mais na entressafra. Quando uma fruta pequena vira referência de preço, cada etapa da produção passa a ser cobrada no detalhe.
Na Serra Gaúcha, em Flores da Cunha, a história de uma família ajuda a explicar por que o mirtilo saiu da prateleira da importação e começou a ganhar espaço no campo, na agroindústria e no turismo rural. A aposta começou em 2003, atravessou anos de incerteza e hoje mistura lavoura, processamento e visitação em uma mesma lógica de renda.
Por que o mirtilo ainda chega de fora e por que isso pesa no preço

O Brasil ainda importa cerca de 80% do mirtilo que consome, segundo o relato da própria produção local.
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Esse dado, por si só, já explica parte do valor final: quando a oferta interna é limitada, o mercado fica mais exposto a variações de disponibilidade, logística e sazonalidade, e isso aparece no bolso do consumidor.
A produção nacional é descrita como concentrada em pequenas propriedades, com uma área plantada estimada em aproximadamente 250 hectares.
Dentro desse cenário, o Rio Grande do Sul se consolidou como polo, com cerca de 70 hectares plantados e uma produção estimada em 400 toneladas anuais.
O mirtilo brasileiro é apresentado como mais doce e colhido totalmente à mão, mas isso também significa custo alto de trabalho.
Flores da Cunha e a aposta que começou em 2003 quando quase ninguém conhecia

Em Flores da Cunha, na Serra Gaúcha, a família Bernard diz representar a quarta geração na propriedade.
Foi ali que Luiz decidiu trocar culturas como ameixa e pera pelo mirtilo, buscando algo que não fosse igual ao que “todo mundo plantava”.
A escolha veio após a sugestão de um parente que conhecia a fruta no exterior, onde também é chamada de blueberry.
O começo não foi simples. As primeiras 1.000 mudas foram plantadas em dezembro de 2003 e outras 1.000 em dezembro de 2004, mas a lavoura levou cerca de quatro anos para atingir um nível de produção mais consistente.
O mercado local não conhecia a fruta e, segundo a família, houve um momento em que cogitaram cortar as plantas e recomeçar com outra cultura.
O mirtilo virou aposta de longo prazo antes de virar vitrine de turismo rural.
Colheita manual, seleção em potes e o custo real de “frutinha por frutinha”
A colheita do mirtilo é descrita como totalmente manual e isso muda tudo. Um trabalhador pode passar cerca de 10 horas por dia para colher algo em torno de 20 a 25 quilos, sempre “frutinha por frutinha”.
É um ritmo que não combina com pressa nem com escala industrial, e por isso a produtividade depende de equipe, tempo e clima.
A própria seleção começa ainda na planta. A família descreve o uso de dois potes, em torno de 1 quilo cada, para separar o mirtilo mais firme e adequado ao consumo fresco daquele que vai para a indústria.
O método também vira parte da experiência oferecida ao visitante, com orientação de colheita e degustação.
Quando a seleção acontece antes do mirtilo sair da lavoura, a linha entre produção e turismo rural fica mais curta.
A variedade, a janela da safra e a conta de gente necessária na lavoura
A lavoura em Flores da Cunha, na Serra Gaúcha, cita uma variedade chamada Climax como a mais produtiva, com potencial de mais de 10 quilos por planta.
Esse número ajuda a entender por que o mirtilo pode sustentar uma propriedade, mas também expõe um gargalo: volume alto não significa facilidade, porque a colheita segue manual e sensível.
A safra é descrita entre 15 de novembro e 15 de janeiro.
Com pouco mais de 2 mil mudas, a demanda de mão de obra pode chegar a 15 a 20 pessoas por dia, por cerca de 45 dias.
Esse tipo de operação transforma a safra em evento: a janela é curta, o produto é delicado, e qualquer erro de timing vira perda. No mirtilo, a pressa costuma custar caro e o atraso também.
Agroindústria desde 2010 e a lógica de aproveitar o excedente sem desperdiçar
A virada citada pela família aparece em 2010, com a construção da agroindústria. Antes, a venda era toda do mirtilo in natura.
Depois, o excedente passou a ter destino, com limpeza, higienização, embalagem e congelamento.
O processo inclui uma etapa inicial de resfriamento em uma câmara externa, chamada por eles de “câmara suja”, antes de o mirtilo seguir para o ambiente de processamento.
A família relata uma colheita em torno de 12 toneladas em um dos anos, com consumo interno de cerca de 5 a 6 toneladas, o que reforça a necessidade de transformar parte do volume.
Entre os produtos citados estão geleias sem conservantes, versões com pimenta, combinações com frutas vermelhas, além de opções sem adição de açúcar, usando polpa de maçã.
A agroindústria vira seguro contra a perda e também contra a oscilação do mercado de fruta fresca.
Turismo rural como venda direta, paisagem e um roteiro que vira produto
O turismo rural aparece como estratégia para trazer o cliente até a propriedade e vender ali, “por um preço justo”, segundo a família. Em Flores da Cunha, na Serra Gaúcha, o visitante encontra bolo de mirtilo, sorvete de mirtilo, cafés coloniais e espaços para piqueniques em meio à natureza.
O deslocamento até a lavoura é feito em um carretão adaptado de uma rural antiga, em um trajeto de pouco mais de 500 metros por estrada de chão, com parreirais, mata e a área de mirtilo já no fim da colheita.
O passeio é descrito com sete pontos de parada, onde se apresentam variedades, história da família e vistas panorâmicas do vale e dos montes.
Há ainda atrações de aventura, com ponto de escalada e três vias de rapel. Entre os episódios citados, um chama atenção: o “nono” da família, com 92 anos, desceu um rapel de 85 metros.
Quando o turismo rural entra na conta, o mirtilo deixa de ser só alimento e vira experiência.
Certificação orgânica, medalha em 2015 e o momento em que a demanda “achou” a lavoura
O reconhecimento citado pela família passa por dois marcos.
Um deles é o registro como orgânico, com certificação pela rede Ecovida, que teria ajudado na divulgação e na construção de confiança em um produto ainda pouco conhecido na região naquele período.
O outro marco vem em 2015, quando relatam ter conquistado uma medalha de ouro em um concurso ligado à Expo Inter. A partir dali, segundo a narrativa, o cliente começou a ir até a propriedade, e a operação ganhou fôlego para expandir, inclusive no turismo rural e na agroindústria.
No mirtilo, reputação e confiança costumam valer quase tanto quanto o quilo.
O mirtilo que chega a R$ 60 o quilo não explica seu valor apenas pelo sabor.
Em Flores da Cunha, na Serra Gaúcha, a família Bernard descreve uma cadeia que junta lavoura manual, seleção cuidadosa, necessidade de equipe, janela curta de safra, agroindústria desde 2010 e turismo rural como venda direta e experiência.
O “ouro” do mirtilo, nesse caso, é menos metáfora e mais soma de trabalho com estratégia.
Se você encontrasse mirtilo a R$ 60 o quilo, o que pesaria mais na decisão: o preço, a origem nacional, o fato de ser orgânico, ou a possibilidade de comprar direto no turismo rural? E, pensando em Flores da Cunha e na Serra Gaúcha, você toparia passar um dia colhendo mirtilo para entender na prática por que ele custa o que custa?


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