A descoberta de minas antitanque perto de uma suposta base de mísseis no sul do Irã, somada a mortes registradas após explosões e à suspeita de uso de armamento americano, ampliou a tensão sobre uma possível tentativa de bloquear lançadores móveis e limitar operações militares iranianas.
As imagens que circulam online e relatos divulgados pela mídia estatal iraniana colocaram as minas antitanque no centro de um novo episódio nos arredores de Shiraz, no sul do Irã, após a descoberta de dispositivos próximos de uma suposta instalação de mísseis e de registros de mortes na área de Kafari.
Descoberta perto de área ligada a mísseis
A imprensa estatal do Irã informou na quinta-feira a descoberta dos dispositivos em áreas próximas à vila de Kafari. Segundo a agência Tasnim, várias pessoas morreram depois que os objetos foram lançados na região e detonaram ao serem manuseados.
De acordo com a descrição divulgada, os artefatos se pareciam com pequenos pacotes metálicos, um pouco maiores que latas de atum.
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As imagens compartilhadas nas redes sociais passaram então a ser analisadas por especialistas em armamento e por investigadores de fontes abertas.
Essas avaliações apontaram semelhança entre os objetos vistos nas fotos e as minas antitanque BLU-91/B, que integram o sistema dispersável Gator, de fabricação americana. Esses dispositivos são projetados para ser lançados de aeronaves sobre grandes áreas, com a função de inutilizar veículos e restringir deslocamentos.
O que as imagens indicam sobre o sistema Gator
A confirmação independente do episódio, porém, permanece limitada. Os militares dos Estados Unidos não confirmaram o uso dessas minas, embora diversos analistas tenham sustentado que as fotografias apontam para o sistema Gator.
Especialistas em munições citados pelo The Washington Post avaliaram que as imagens parecem mostrar minas fabricadas nos Estados Unidos espalhadas a cerca de cinco quilômetros de instalações de mísseis balísticos perto de Shiraz. O sistema foi desenvolvido para criar rapidamente campos minados temporários em locais onde forças terrestres podem não estar presentes.
Quando acionados, os dispensadores desse sistema liberam centenas de minas sobre uma área extensa. O objetivo é criar obstáculos capazes de danificar veículos blindados ou de restringir sua movimentação por rotas estratégicas.
Investigadores de código aberto da Bellingcat afirmaram que parte das minas foi geolocalizada em Kafari, a cerca de dois quilômetros da entrada do que se acredita ser a Base de Mísseis Sul de Shiraz. O local é apontado como uma das chamadas cidades de mísseis do Irã, complexos subterrâneos destinados ao armazenamento e ao lançamento de mísseis balísticos.
O The War Zone informou que os Estados Unidos são o único participante do conflito atual que se sabe possuir a variante específica de mina identificada nas imagens. Ainda assim, o episódio segue sem verificação conclusiva sobre quem efetivamente lançou os dispositivos.
Possível impacto sobre os lançadores iranianos
A presença dessas minas perto de uma instalação desse tipo levantou questionamentos sobre uma possível tentativa de dificultar as operações de mísseis iranianas. Os lançadores móveis têm papel central nessa estratégia, porque permitem deslocamento rápido após os disparos e tornam o armamento mais difícil de ser atingido.
Nesse cenário, o uso de minas nas proximidades de acessos e rotas de circulação poderia reduzir a capacidade de entrada e saída desses lançadores em instalações subterrâneas. A avaliação é que a restrição de movimento tornaria os veículos mais vulneráveis a ataques aéreos.
Segundo a análise citada pelo The War Zone, forças iranianas seguiram lançando mísseis mesmo depois de ataques repetidos contra pontos de lançamento conhecidos e entradas de túneis durante a Operação Epic Fury. A instalação de obstáculos em estradas e acessos próximos poderia, portanto, funcionar como medida adicional para limitar esse tipo de operação.
O texto também menciona precedente histórico para esse tipo de emprego. Sistemas semelhantes foram usados na Guerra do Golfo de 1991 para dificultar a atuação dos lançadores de mísseis Scud do Iraque, bloqueando rotas de deslocamento e forçando os veículos a operar em áreas mais expostas.
Funcionamento e preocupações humanitárias
A BLU-91/B foi concebida para atingir veículos, e não pessoas. Em geral, ela é ativada ao detectar a assinatura magnética de um grande objeto metálico, como caminhões ou veículos blindados.
Muitas versões desse tipo de mina contam com temporizador de autodestruição, mecanismo que pode desativá-las depois de algumas horas ou dias. Ainda assim, especialistas alertam que os dispositivos continuam perigosos caso esse sistema não funcione como previsto.
O relato sobre a presença das minas também ampliou preocupações humanitárias. Organizações de monitoramento de minas terrestres e grupos de direitos humanos apontam que até mesmo minas antitanque podem representar risco para civis quando aparecem fora de zonas militares controladas.
Essa preocupação ganha força diante da informação de que várias pessoas morreram após o contato com os objetos. Sem uma verificação independente mais ampla e sem confirmação oficial dos Estados Unidos, permanece indefinido se o caso foi um episódio isolado ou o início de uma nova tática voltada a limitar as operações de mísseis do Irã.
