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Milhões de pessoas comem cogumelos há milênios sem saber que esse alimento discreto concentra ergotioneína, antioxidante que cientistas agora associam à proteção da memória e ao envelhecimento mais saudável

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Escrito por Alisson Ficher Publicado em 09/04/2026 às 20:55 Atualizado em 09/04/2026 às 20:59
Cogumelos concentram ergotioneína, antioxidante associado à memória e ao envelhecimento saudável, segundo estudos recentes.
Cogumelos concentram ergotioneína, antioxidante associado à memória e ao envelhecimento saudável, segundo estudos recentes.
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Presença milenar na alimentação humana ganha novo destaque científico por concentrar ergotioneína, composto antioxidante investigado em estudos sobre cognição, memória e envelhecimento saudável, com resultados observacionais e ensaios recentes que reforçam plausibilidade biológica sem indicar relação causal definitiva.

Os cogumelos, presentes em cozinhas de diferentes países e cada vez mais frequentes em dietas contemporâneas, voltaram ao centro da pesquisa nutricional por concentrarem ergotioneína, um composto antioxidante associado, em estudos observacionais e ensaios recentes, a marcadores de cognição e envelhecimento saudável.

A literatura ainda não autoriza tratar o alimento como prevenção ou terapia, mas já sustenta que ele reúne características incomuns do ponto de vista biológico e nutricional.

O interesse científico não nasceu de um ingrediente exótico ou recém-descoberto.

Ao contrário, ele recaiu sobre um alimento antigo, disseminado em hábitos culinários de longa data, que passou a ser investigado com mais rigor à medida que pesquisadores tentaram entender por que algumas espécies concentram antioxidantes em níveis superiores aos encontrados em grande parte de outros alimentos.

Foi nesse contexto que a ergotioneína ganhou protagonismo.

O que é a ergotioneína e por que ela importa

A ergotioneína é descrita em revisões científicas como um aminoácido sulfurado com ação antioxidante, produzido principalmente por fungos e bactérias.

Em humanos, ela não é fabricada pelo organismo e depende da alimentação para chegar aos tecidos, sendo absorvida por um transportador específico, o SLC22A4, também chamado OCTN1, identificado como peça central nesse processo.

Cogumelos concentram ergotioneína, antioxidante associado à memória e ao envelhecimento saudável, segundo estudos recentes.
Cogumelos concentram ergotioneína, antioxidante associado à memória e ao envelhecimento saudável, segundo estudos recentes.

Essa particularidade ajuda a explicar por que os cogumelos passaram a ser observados com tanta atenção.

Um estudo publicado em Food Chemistry mostrou que determinadas espécies apresentam concentrações elevadas de ergotioneína e glutationa, o que as coloca como fontes alimentares de destaque desses antioxidantes.

A quantidade varia conforme espécie, cultivo e processamento, mas o grupo já se diferencia no conjunto da dieta quando o assunto é oferta natural do composto.

Esse perfil não se resume à ergotioneína.

Modelagens nutricionais baseadas nos padrões alimentares dos Estados Unidos estimaram que a inclusão de uma porção de cogumelos adicionaria cerca de 2,2 mg de ergotioneína e 3,5 mg de glutationa à dieta, com impacto mínimo sobre sódio e sem aumento de gordura saturada ou colesterol.

Na prática, isso reforça a viabilidade cotidiana do alimento, sem depender de estratégias difíceis de incorporar à rotina.

Cogumelos e memória: o que dizem os estudos

Um dos trabalhos mais citados veio de Singapura.

Pesquisadores analisaram 663 adultos com 60 anos ou mais e observaram que o consumo de cogumelos em quantidade superior a duas porções por semana esteve associado a menores chances de comprometimento cognitivo leve.

No estudo, a razão de chances foi de 0,43 em relação a quem comia menos de uma vez por semana, resultado que indica associação relevante, embora o desenho transversal impeça concluir que houve efeito direto de causa e consequência.

Nos Estados Unidos, a relação apareceu em outro cenário populacional.

Uma análise com 2.840 idosos do NHANES encontrou associação entre maior ingestão de cogumelos e melhor desempenho em testes cognitivos.

Os autores destacaram que o achado permaneceu mesmo após ajustes para fatores sociodemográficos, hábitos de vida, doenças crônicas e qualidade global da alimentação.

O Japão também aparece com frequência nessa literatura.

No Ohsaki Cohort 2006 Study, que acompanhou 13.230 pessoas com 65 anos ou mais, o consumo de cogumelos três ou mais vezes por semana esteve associado a risco menor de demência incidente ao longo de 5,7 anos de seguimento.

Cogumelos concentram ergotioneína, antioxidante associado à memória e ao envelhecimento saudável, segundo estudos recentes.
Cogumelos concentram ergotioneína, antioxidante associado à memória e ao envelhecimento saudável, segundo estudos recentes.

Em comparação com quem consumia menos de uma vez por semana, o grupo de maior frequência apresentou hazard ratio de 0,81, já com ajuste para potenciais fatores de confusão.

Uma investigação mais recente do estudo CIRCS ampliou a discussão ao apontar associação inversa entre ingestão de cogumelos e risco de demência incapacitante entre mulheres, mas não entre homens.

O dado chamou atenção justamente por sugerir que o tema pode não se comportar da mesma maneira em todos os grupos populacionais, o que reforça a necessidade de estudos maiores e de acompanhamento prolongado.

Suplementação de ergotioneína em testes clínicos

A investigação avançou além dos estudos observacionais em setembro de 2025, quando foi publicado um ensaio randomizado, duplo-cego e controlado por placebo com 147 adultos de 55 a 79 anos que relataram queixas subjetivas de memória.

Durante 16 semanas, os participantes receberam 10 mg, 25 mg diários de ergotioneína ou placebo.

O trabalho registrou aumento expressivo dos níveis plasmáticos do composto nas doses testadas e apontou sinais de benefício em memória prospectiva subjetiva e no início do sono, sobretudo com 25 mg ao dia.

Ao mesmo tempo, o estudo foi mais contido do que algumas leituras apressadas sugerem.

A melhora observada na memória composta apareceu no grupo de 25 mg na quarta semana, mas não se sustentou depois, enquanto outros domínios cognitivos tiveram efeitos nulos ou limitados.

O resultado, portanto, é relevante por mostrar segurança e plausibilidade biológica, mas ainda insuficiente para transformar suplementação em recomendação consolidada para a população em geral.

Entre tradição alimentar e pesquisa sobre envelhecimento

Esse conjunto de evidências ajuda a entender por que os cogumelos passaram a ser vistos como mais do que um ingrediente culinário.

Além de baixa densidade energética, eles podem contribuir com vitaminas do complexo B, minerais e compostos bioativos que chamam a atenção da pesquisa em envelhecimento.

Ainda assim, o ponto central permanece o mesmo: associação não é sinônimo de prevenção comprovada, e benefício observado em grupo populacional não equivale a efeito garantido em cada indivíduo.

O que já se pode afirmar com segurança é que a ciência encontrou nos cogumelos um caso de convergência entre tradição alimentar, plausibilidade biológica e resultados humanos que ainda exigem aprofundamento contínuo.

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Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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