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Microrrelâmpagos filmados por cientistas de Stanford entre bolhas de metano na água acendem alerta climático ao revelar que o brilho fantasma dos pântanos pode oxidar um dos gases mais perigosos do aquecimento global

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 12/05/2026 às 17:13
Atualizado em 12/05/2026 às 17:19
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Estudo de Stanford publicado na PNAS explica o fogo-fátuo: microrraios entre bolhas de metano na água podem acender chamas em pântanos
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Estudo de Stanford publicado na PNAS explica o fogo-fátuo: microrraios entre bolhas de metano na água podem acender chamas em pântanos e abrir caminho para novas tecnologias de destruição de metano.

Por séculos, quem atravessava pântanos e cemitérios à noite relatava esferas azuladas de luz flutuando sobre a lama. O poeta galês Dafydd ap Gwilym descreveu o fenômeno em 1340 como “línguas de fogo torcidas em cada vale”, Isaac Newton mencionou as chamas em Opticks, em 1704, e Shakespeare usou o fogo-fátuo como presságio de morte. Em setembro de 2025, uma equipe liderada pelo professor Richard Zare, do Departamento de Química da Universidade de Stanford, publicou na revista Proceedings of the National Academy of Sciences uma explicação para o fenômeno: as chamas dos pântanos seriam acesas por microrraios, faíscas elétricas espontâneas que saltam entre bolhas microscópicas de metano carregadas eletricamente na água.

A descoberta não resolve apenas um mistério antigo do folclore. O mesmo mecanismo pode abrir caminho para destruir metano atmosférico, um dos gases de efeito estufa mais potentes, usando água, microbolhas e descargas elétricas espontâneas, sem recorrer à combustão convencional.

Metano é um gás de efeito estufa até 80 vezes mais potente que o CO₂ no curto prazo

Antes de entender o papel dos microrraios, é preciso entender por que o metano preocupa tanto a ciência climática. O dióxido de carbono domina o debate por ser o gás de efeito estufa mais abundante, mas o metano tem impacto muito mais intenso no curto prazo.

Nos primeiros 20 anos após ser emitido, o metano retém calor na atmosfera com potência aproximadamente 80 vezes maior que o CO₂ para a mesma massa. Em horizonte de 100 anos, esse potencial cai para cerca de 28 vezes, ainda assim um valor climático muito elevado.

O metano vem de arrozais, aterros sanitários, criação de gado, extração de petróleo e gás, pântanos, tundras e fundos oceânicos. A concentração atmosférica de metano triplicou desde a era pré-industrial, e remover esse gás da atmosfera segue sendo um desafio tecnológico.

Microrraios em bolhas de metano explicam o fogo-fátuo dos pântanos

A hipótese tradicional para o fogo-fátuo dizia que o metano liberado por matéria orgânica em decomposição encontrava alguma fonte de ignição, talvez fosfina ou outro gás inflamável. O problema é que nenhuma explicação resistia bem a testes experimentais.

A equipe de Stanford partiu de estudos anteriores sobre gotículas de água carregadas eletricamente. Nesses experimentos, os pesquisadores observaram que gotículas com cargas opostas, ao se aproximarem, podiam produzir pequenas faíscas.

Microrrelâmpagos filmados por cientistas de Stanford entre bolhas de metano na água acendem alerta climático ao revelar que o brilho fantasma dos pântanos pode oxidar um dos gases mais perigosos do aquecimento global
Estudo de Stanford publicado na PNAS explica o fogo-fátuo: microrraios entre bolhas de metano na água podem acender chamas em pântanos

A pergunta passou a ser direta: bolhas de metano em água poderiam fazer o mesmo? Para testar isso, os cientistas criaram microbolhas de metano em um recipiente com água e filmaram o processo com câmeras de alta velocidade, capazes de registrar 24.000 quadros por segundo.

Câmeras de alta velocidade registraram descargas elétricas entre microbolhas

O resultado observado em laboratório foi claro. À medida que as bolhas de metano se acumulavam na água, surgiam faíscas elétricas saltando entre superfícies de bolhas adjacentes.

Quando duas bolhas com cargas opostas se aproximavam, elétrons saltavam de uma superfície para outra, produzindo uma descarga elétrica visível nos registros da câmera. Esse microrraio carrega energia suficiente para iniciar reações químicas no metano próximo.

O estudo publicado na PNAS apresentou a primeira evidência experimental direta do mecanismo. Não se trata apenas de hipótese: as descargas entre bolhas de metano foram filmadas em condições reproduzíveis de laboratório.

Bolhas de metano ficam carregadas por causa da interface entre gás e água

A explicação para o carregamento elétrico das bolhas está na própria estrutura da água. Em escala microscópica, a água contém íons positivos e negativos em movimento constante.

Quando uma bolha de gás se forma dentro da água, a interface entre líquido e gás cria separação de cargas. Íons de um sinal se concentram em determinadas regiões da bolha, enquanto outras áreas ficam com carga oposta.

Em microbolhas, essa separação se torna mais relevante porque a relação entre superfície e volume é muito alta. Cada microbolha de metano passa a funcionar como uma pequena estrutura carregada eletricamente, capaz de gerar faíscas quando encontra outra bolha com carga oposta.

Água pode apagar fogo, mas também pode gerar faíscas em microescala

Richard Zare resumiu o paradoxo com uma frase direta: quando há fogo, usa-se água para apagar, mas gotículas de água podem fazer fogo. A afirmação parece contraditória, mas é tecnicamente precisa.

A água não queima. O que acontece é a geração de descargas elétricas na interface entre água e gás, especialmente quando microbolhas de metano se acumulam em ambientes úmidos.

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Isso ajuda a explicar por que o fogo-fátuo aparece em pântanos, cemitérios alagados e solos encharcados por decomposição orgânica. Não basta haver metano: é a presença de água e microbolhas carregadas que cria a condição elétrica para a ignição.

O que Isaac Newton não podia saber sobre as chamas dos pântanos

O fogo-fátuo aparece na literatura científica há séculos, mas sempre como curiosidade sem explicação satisfatória. Newton descreveu chamas fracas em Opticks, mas não tinha instrumentos capazes de observar o processo em escala microscópica.

Durante muito tempo, a fosfina foi uma das explicações mais repetidas. A ideia era que esse gás, produzido pela decomposição de matéria orgânica com fósforo, poderia inflamar espontaneamente e acender o metano.

Experimentos posteriores, porém, mostraram que essa explicação era insuficiente. O estudo de Stanford avançou porque trocou a especulação química por registro visual: a câmera de 24.000 quadros por segundo tornou visível uma descarga elétrica que antes era invisível.

Descoberta de Stanford pode abrir caminho para destruir metano sem combustão

A descoberta seria relevante mesmo se apenas explicasse o fogo-fátuo. Mas a implicação climática tornou o estudo ainda mais importante: se microbolhas de metano em água produzem faíscas que oxidam o gás, talvez seja possível reproduzir esse processo em escala industrial.

A ideia seria criar sistemas capazes de gerar microbolhas de metano em água com alta densidade, replicando artificialmente o que acontece em pântanos. Assim, as descargas espontâneas poderiam destruir parte do metano antes que ele chegasse à atmosfera.

Zare formulou a questão central: será possível escalar o processo e torná-lo comercial e industrial? Se a resposta for positiva, fontes como aterros, lagoas de dejetos, minas de carvão e vazamentos de gás poderiam ganhar uma nova rota de mitigação.

Microrraios podem ser alternativa aos flares usados para queimar metano

Hoje, uma das formas mais usadas para eliminar metano concentrado é a queima por flare. Esse processo converte metano em CO₂ e água, reduzindo o impacto climático imediato, já que o metano é muito mais potente que o dióxido de carbono.

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O problema é que a queima ainda gera emissão de carbono e exige equipamentos de combustão. Além disso, nem todas as fontes difusas de metano são fáceis de capturar e queimar com eficiência.

Um sistema baseado em microbolhas e água poderia oferecer uma rota diferente. A promessa seria destruir metano sem chama, sem combustão direta e possivelmente com menor geração de subprodutos climáticos, mas isso ainda precisa ser comprovado fora do laboratório.

Microrraios também podem ajudar a explicar reações ligadas à origem da vida

Richard Zare já vinha estudando reações químicas espontâneas em gotículas microscópicas de água. Em março de 2025, sua equipe publicou outro trabalho mostrando que gotículas em contato com gases da atmosfera primitiva podiam produzir moléculas orgânicas complexas.

Ao borrifar água em uma mistura de metano, amônia, nitrogênio e CO₂, os pesquisadores observaram a formação de compostos como glicina, um aminoácido, e uracila, componente do RNA. O processo ocorreu sem calor extremo e sem raios convencionais.

Essa linha de pesquisa desafia parte da leitura clássica da hipótese Miller-Urey, de 1953. Em vez de depender apenas de raios raros em oceanos primordiais, microrraios entre gotículas e bolhas poderiam ocorrer constantemente onde água e gás se encontram.

Pântanos podem destruir parte do metano antes que ele chegue à atmosfera

A descoberta também pode ajudar a explicar um dado observado por climatologistas: as emissões de metano de pântanos naturais parecem menores do que alguns modelos previam a partir da produção de gás nos sedimentos.

Parte dessa diferença é atribuída a bactérias metanotróficas, microrganismos que consomem metano no solo e na água. Mas outra parte ainda não era totalmente explicada.

A hipótese sugerida pelo trabalho de Zare é que microrraios podem destruir parte do metano dentro da água, antes que as bolhas alcancem a superfície. Se isso for confirmado em campo, os modelos climáticos terão de considerar um mecanismo natural de autolimpeza de metano.

Modelos climáticos podem não capturar a destruição localizada de metano

Os modelos usados por órgãos climáticos calculam quanto metano é emitido por diferentes fontes e quanto é destruído por mecanismos naturais. O principal processo atmosférico conhecido é a reação com radicais hidroxila na troposfera, que ocorre lentamente.

O que esses modelos não capturavam era a possibilidade de destruição localizada do metano antes da emissão atmosférica, dentro de colunas de água, por microrraios entre bolhas.

Isso não elimina o problema climático, mas pode refinar inventários e estratégias. Se certas fontes naturais tiverem autolimpeza maior do que se pensava, os esforços de mitigação podem ser direcionados com mais precisão para fontes humanas, como pecuária, aterros e petróleo.

Brasil poderia aplicar tecnologia de microrraios em metano de aterros e agropecuária

O Brasil está entre os grandes emissores globais de metano, principalmente por causa da pecuária bovina, dos aterros sanitários urbanos e das queimadas no Cerrado e na Amazônia. O país tem mais de 200 milhões de cabeças de gado e uma grande geração de resíduos orgânicos.

A pecuária responde por parte relevante das emissões brasileiras de gases de efeito estufa, com destaque para o metano entérico produzido na digestão dos bovinos. Lagoas de dejetos de suinocultura e avicultura também liberam metano em concentrações importantes.

Se a tecnologia de microrraios for escalável, lagoas de dejetos e aterros sanitários seriam candidatos naturais. Ambos combinam matéria orgânica, água e produção de biogás rico em metano, criando condições próximas das que a pesquisa busca reproduzir artificialmente.

O que ainda precisa ser provado sobre microrraios e destruição de metano

O estudo publicado na PNAS demonstrou o mecanismo em laboratório, mas há uma distância grande entre o recipiente experimental e uma tecnologia de campo. A eficiência real de conversão ainda precisa ser medida com precisão.

Também é necessário comprovar quanto metano é destruído por ciclo de microrraios, quais subprodutos são formados e como manter densidade suficiente de microbolhas em larga escala. Esses pontos são decisivos para qualquer aplicação industrial.

O próprio brilho das microchamas não foi reproduzido de forma visível a olho nu no laboratório. O que já existe é a prova de princípio: as descargas acontecem, foram filmadas e podem iniciar reações químicas com metano.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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