A onda de calor que atinge a toda a Europa, enquanto a França transformou o ar-condicionado em um dos temas mais explosivos do debate político no país.
A onda de calor que atinge a França desde junho de 2026 transformou o ar-condicionado em um dos temas mais disputados da política do país. Com temperaturas acima dos 40°C, escolas fechadas ou com horários reduzidos e prédios antigos pouco preparados para o calor, partidos, governo e ambientalistas passaram a discutir se a climatização deve ser tratada como medida urgente de saúde pública ou como uma solução limitada, cara e de alto consumo de energia.
Ar-condicionado entra no centro da disputa política francesa
O debate ganhou força porque a França tem baixa presença de ar-condicionado em casas, escolas e prédios públicos, em parte por causa do clima historicamente mais ameno, da preocupação ambiental, do custo de energia e da idade de muitos imóveis. Segundo a Euronews, políticos franceses traçaram linhas ideológicas sobre o uso do ar-condicionado enquanto a Europa enfrentava temperaturas recordes.
À direita, o Rassemblement National (RN), partido associado a Marine Le Pen e Jordan Bardella, passou a defender um grande plano de climatização para enfrentar ondas de calor. A proposta mira principalmente escolas, hospitais, lares de idosos e prédios públicos. O Le Monde informou que o RN aposta em um “plano de ar-condicionado” para ondas de calor, mas apontou que a proposta ainda é considerada vaga, sem orçamento específico, cronograma claro ou detalhamento suficiente sobre execução.
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Do outro lado, ambientalistas e setores de esquerda criticam a ideia de transformar o ar-condicionado na principal resposta ao calor extremo. O argumento é que a instalação em massa pode elevar o consumo de eletricidade, pressionar redes de energia e reforçar a dependência de uma solução que não resolve problemas estruturais, como prédios mal isolados, falta de áreas verdes e cidades com pouca adaptação ao calor. A própria Euronews trata o tema como uma disputa politizada entre respostas imediatas e medidas de adaptação urbana mais amplas.
Escolas fechadas e salas de aula sem estrutura aumentam pressão sobre o governo
A crise ficou mais visível nas escolas francesas. Durante a onda de calor, a Reuters informou que a França fechou ou alterou o funcionamento de 13.500 escolas. A reportagem também apontou que muitas salas de aula na Europa não têm ar-condicionado e que professores recorreram a soluções improvisadas, como ventiladores, gelo e mantas de emergência nas janelas.
O Guardian informou que autoridades francesas fecharam 3.500 escolas e reduziram horários em outras 10 mil durante o alerta vermelho de calor. A mesma reportagem relatou críticas de sindicatos de professores, que citaram condições consideradas inaceitáveis em salas sem isolamento adequado e sem refrigeração, justamente durante exames nacionais.
O governo francês também anunciou medidas emergenciais. Segundo o Guardian, foi liberado €1 milhão para equipamentos de resfriamento em escolas de ensino médio. Além disso, a Reuters informou que a estatal francesa EDF anunciou investimento de €80 milhões para financiar sistemas de resfriamento em escolas, creches e centros de educação infantil.
Apartamentos antigos viram armadilhas de calor em Paris
A onda de calor também expôs o problema das moradias antigas em grandes cidades. Em Paris, muitos imóveis foram construídos para reter calor no inverno, não para enfrentar longos períodos acima dos 40°C. A Reuters mostrou que casas e apartamentos em Paris e Londres se tornaram difíceis de suportar durante a onda de calor porque grande parte das construções não foi pensada para temperaturas extremas.
A reportagem da Reuters citou moradores recorrendo a soluções improvisadas, como toalhas molhadas, ventiladores e papel alumínio nas janelas para tentar refletir o calor. Imagens da Reuters Connect também registraram moradores cobrindo janelas com alumínio em Paris, em 26 de junho de 2026, especialmente em edifícios antigos com telhados de zinco.
Calor extremo pressiona saúde, energia e infraestrutura
A disputa sobre o ar-condicionado ocorre em meio a uma onda de calor considerada histórica. A Reuters informou que a Europa enfrenta calor extremo desde 20 de junho de 2026, com temperaturas acima de 40°C, pressão sobre hospitais, impactos em infraestrutura e alerta da Organização Mundial da Saúde para cerca de 150 milhões de pessoas expostas a calor extremo.
Na França, a mesma reportagem da Reuters informou que o país registrou pelo menos 1.000 mortes acima do esperado durante a onda de calor, principalmente entre idosos, e que autoridades alertaram que o número poderia subir. O dado reforça por que o ar-condicionado deixou de ser visto apenas como item de conforto e passou a entrar no debate sobre saúde pública.
Outros países europeus também adotaram medidas polêmicas
A polêmica não se limita à França. Na Espanha, o governo espanhol aprovou, em 2022, um plano de economia de energia determinando que a refrigeração em prédios públicos, lojas, centros comerciais, estações, aeroportos e espaços similares não fosse ajustada abaixo de 27°C. A medida também incluiu regras como fechamento de portas em locais climatizados e desligamento de vitrines em determinados horários.
Na Itália, o Guardian informou que o governo adotou a chamada “Operação Termostato”, limitando o uso do ar-condicionado em escolas, correios e outros prédios públicos, com refrigeração não inferior a 25°C. A medida foi apresentada em meio à preocupação com economia de energia e dependência do gás russo após a invasão da Ucrânia.
No Reino Unido, a Reuters informou que mais de 1.000 escolas encurtaram horários ou fecharam durante a onda de calor. O caso britânico mostra que o problema não envolve apenas países mediterrâneos: muitas escolas e moradias do norte europeu também foram projetadas para conservar calor, e não para lidar com verões cada vez mais extremos.
Debate deixou de ser só ambiental e virou questão de saúde pública
O caso francês mostra que o ar-condicionado virou símbolo de uma disputa maior. Para a direita, ampliar a climatização em escolas, hospitais e lares de idosos é uma resposta direta ao risco do calor. Para ambientalistas e parte da esquerda, o aparelho pode ser necessário em locais vulneráveis, mas não deve substituir reformas térmicas, arborização, sombreamento, ventilação natural e adaptação urbana.
Com temperaturas extremas, escolas afetadas, moradores improvisando proteção contra o calor e hospitais sob pressão, a França passou a discutir não apenas se deve usar mais ar-condicionado, mas como fazer isso sem aumentar o desperdício de energia. A controvérsia mostra que, na Europa atual, enfrentar o calor deixou de ser apenas uma questão de conforto e passou a envolver saúde, infraestrutura, política climática e disputa eleitoral.
